Por que a inflação ficará abaixo da meta do governo

Regina Pitoscia

08 Dezembro 2017 | 03h48

A inflação oficial de novembro, divulgada hoje pelo IBGE, ficou abaixo do esperado pelo mercado financeiro, em 0,28%. Nível inferior aos 0,42% registrados em outubro e também à prévia do IPCA que mostrou um avanço de 0,32%, em clara desaceleração dos preços.

Com isso, a inflação acumulada em 12 meses ficou em 2,8%, e de janeiro a novembro deste ano, em 2,5%. Dependendo do que for o IPCA de dezembro, a alta dos preços pode ficar até mesmo baixo das metas fixadas pelo governo. A meta é de 4,5% para o ano todo, com tolerância de um ponto e meio para cima ou para baixo. Qualquer número abaixo de 0,49% para este mês, vai levar a inflação represada no ano para abaixo do piso da meta, que é de 3%.

Nesse caso, teremos uma situação inusitada, o governo terá de explicar por que a inflação está tão baixa. Desempenho alcançado pela bem-sucedida execução da política monetária, a principal conquista do governo do presidente Michel Temer.

Quando Temer foi efetivado no cargo com o afastamento definitivo de Dilma Rousseff, no fim de agosto de 2016, a inflação projetada para aquele ano estava em 7,34%, para uma taxa básica de juros (Selic) que rodava em 14,25% ao ano.

Neste fim de 2017, a taxa Selic anda em 7%, nova mínima histórica desde a adoção do regime de metas de inflação, em junho de 1999. E uma inflação projetada bem abaixo da que foi registrada em 2016, de 6,29%.

Controle dos preços

A calibragem da taxa básica de juros é o principal instrumento que o Banco Central tem para controlar a inflação – quando a inflação está em alta os juros sobem, o crédito fica mais caro para conter o consumo e, portanto, os preços; e quando ela está em baixa, caem, para estimular a produção e fazer a economia andar.

O manejo dos juros, contudo, explica apenas em parte o sucesso da política de combate à inflação. Outra parcela deve ser atribuída à credibilidade da equipe econômica, principalmente perante o mercado financeiro, desde a escolha dos nomes até a política monetária adotada.

O combate à inflação comandado por Henrique Meirelles, no Ministério da Fazenda, e por Ilan Goldfajn, no Banco Central, não começou com um choque nos juros, que já estavam bastante altos – Selic em 14,25%. Foi iniciado, paradoxalmente, pela correção dos preços administrados – de energia elétrica e combustíveis, principalmente – mantidos artificialmente baixos na gestão de Dilma Rousseff para segurar a inflação.

Essa política de transparência e realismo tarifário, embora tenha pressionado momentaneamente a inflação para cima, rendeu credibilidade à equipe econômica. O aval permitiu um ciclo de redução da taxa Selic. A um corte de 0,25 ponto porcentual seguiram-se outros, cada vez maiores, que derrubou a Selic agora ao seu menor nível.

Uma trajetória cadente de inflação e juros sem maiores percalços, sustentada pelo que no jargão econômico é chamada de ancoragem de expectativas. Por ela, o BC toma as decisões sobre juros e segue nos movimentos futuros a sinalização dada ao mercado financeiro por meio de notas e comunicados. Uma política em que a preocupação é evitar surpresas que redundem em sustos ou sobressaltos aos agentes financeiros e econômicos.

Ganhos e perdas

O ambiente de recessão econômica, uma das mais severas da história que durou três anos, também ajudou a derrubar a inflação, já que, com menos emprego e dinheiro, as pessoas reduziram o consumo e inibiram a alta de preços de produtos e serviços.

Mais que efeito dos juros altos, porém, é quase consensual a avaliação de que a fraqueza econômica foi consequência das trapalhadas e da má gestão do governo de Dilma.

Quem foi beneficiado de imediato com a redução dos juros foi o próprio governo, já que a maior parte dos títulos da dívida pública emitidos pelo Tesouro está atrelada à variação da Selic. Quanto mais baixa a taxa básica, menor o custo de financiamento da dívida no mercado financeiro.

O consumidor também passou a levar aos poucos seu quinhão do benefício da inflação mais baixa, com o aumento do poder de compra da moeda, menos exposta aos efeitos corrosivos da alta de preços.