Por que o brasileiro não consegue guardar dinheiro?

Regina Pitoscia

15 Janeiro 2018 | 02h14

Ficou estampado nos resultados da pesquisa do Banco Central, feita em 2015 e divulgada na última semana, que o brasileiro não se planeja nem consegue guardar suas economias. Nada menos do que 69% dos entrevistados afirmaram não ter investido nenhuma parte de sua renda no ano anterior ao do levantamento. Não muito diferente, 56% disseram não planejar o orçamento doméstico e familiar.

Por que será? Estímulos e informações não faltam. Nos últimos anos, proliferaram sites e aplicativos sobre educação financeira. Bancos, corretoras, bolsas de valores, administradoras de cartões, entidades de proteção ao crédito, ou qualquer empresa interessada em atingir seus públicos de interesse, têm lá o seu espaço na internet para falar sobre finanças pessoais.

Retrospecto

Costuma-se dizer que o brasileiro é imediatista, prefere gastar em vez de guardar. Mas não é só isso. Um rápido retrospecto da economia pode jogar mais luz na reflexão. Na década de 80 e início da de 90, o País atravessou um dos períodos de maior instabilidade econômica, com inflação superior a 80% ao mês, a hiperinflação, com a edição de vários planos econômicos.

Era praticamente impossível fazer algum planejamento, todo malabarismo visava proteger o dinheiro, manter o seu poder de compra. Em 1994, veio o Plano Real e, com ele, a estabilidade da moeda. Isso significa dizer, a possibilidade de contar com um horizonte ampliado para uma organização financeira de médio e longo prazo.

Isso por si só não foi capaz de criar um hábito de controlar as finanças, de poupar as economias, de formar reservas para momentos de aperto no bolso, enfim de permitir uma relação mais madura com o dinheiro. Nesses 24 anos, alguns episódios econômicos foram determinantes e impediram o desenvolvimento dessa cultura.

Para fazer frente à crise financeira e recessão internacional, em 2008, o governo aqui decidiu incentivar o crédito e estimular o consumo no mercado interno, como forma de manter a economia rodando. Dinheiro farto, a rodo, e financiamentos a perder de vista. O que foi comemorado por ter dado acesso à população menos favorecida a automóveis, geladeiras e tevês e outros tantos produtos de sonho de consumo.

A parte dramática, nem sempre lembrada e falada, é que teve início aí um processo de endividamento jamais registrado no País. Muitos tiveram de amargar longos anos de comprometimento de renda, outros, sem fôlego, precisaram devolver e perderam os bens que haviam adquirido.

Se aprendeu a duras penas a sobreviver com níveis de inflação galopante, a população brasileira demonstrou desconhecimento e falta de habilidade para lidar com o crédito, se atolando em dívidas. A única preocupação era se a prestação cabia no bolso, se esquecendo muitas vezes de outros compromissos já assumidos. Veio a recessão, bateu forte o desemprego e a situação só piorou.

Um pano de fundo que mostra que as condições econômicas foram desfavoráveis e não permitiram que a população alcançasse o tão esperado conforto financeiro; que ajuda a entender por que o País fechou 2017 com mais de 60 milhões de inadimplentes; e que explica, em parte, os resultados dessa pesquisa do Banco Central.

Algumas dicas

Há que se buscar também em outros campos do conhecimento, como o cultural, o sociológico, o psicológico, o religioso…, as razões para o comportamento do brasileiro em relação às finanças. E aí, a superintendente de Sustentabilidade e Negócios Inclusivos do Itaú Unibanco, Denise Hills, é taxativa: “falar sobre dinheiro é tabu, mais tabu do que falar sobre sexo”. E é verdade. Numa roda de amigos ou parentes é muito difícil ver alguém abrindo para o outro quanto ganha ou que teve um aumento de salário e assim por diante.

Nem é preciso ir tão longe. Segundo ela, há dificuldades em tocar nesse assunto dentro da própria casa, entre marido e mulher, com o parceiro, ou com os filhos. “É preciso conversar sobre dinheiro, falar com a família, incluindo as crianças”, orienta a especialista. “Objetivos, tanto os coletivos como os individuais, precisam ser tratados com transparência, assim como a importância de se fazer as escolhas mais adequadas à realidade em que vivem”.

Ao contrário do que muita gente possa imaginar, cuidar das finanças no dia a dia não é nenhum bicho de sete cabeças. “ É importante começar hoje e de uma forma simples, de um jeito que funcione na prática e isso se torne um hábito”, afirma a especialista. Em uma planilha no computador, caderno de anotações ou aplicativo no seu celular, é preciso relacionar – em colunas diferentes – todos os ganhos mensais e todas as despesas. Depois é somar ou comparar os valores totais de ganhos e gastos. Assim será possível descobrir se há sobra de dinheiro ou se você gasta mais do que pode, ensina Hills.

Para a correção de rota no caso de rombo nas contas, é preciso ter a consciência do que é prioridade nos gastos e o que pode ser adiado ou deixado de lado. Não há outros caminhos nem milagres para se alcançar o equilíbrio financeiro para depois começar a poupar, contar com reservas para emergências, atingir objetivos, como a compra de um imóvel, ter o próprio negócio, fazer uma viagem.

E “esperar o dinheiro sobrar para poupar pode atrasar o alcance dos objetivos”, diz a executiva, “poupar é uma questão de hábito, é fundamental, por isso, defina um valor e guarde-o mensalmente”.