Por que os fundos de renda fixa vão perder da caderneta

Regina Pitoscia

27 Outubro 2017 | 01h53

Se o fundo de renda fixa em que o seu dinheiro está aplicado cobrar uma taxa de administração acima de 0,5% ao ano, é possível que você esteja perdendo dinheiro. Ou, dito de outra forma, você pode estar deixando de ter uma remuneração melhor na caderneta.

Com a queda dos juros, a cobrança da taxa de administração ganha muita transparência, porque afeta fortemente o rendimento que já está menor. Fique de olho.

Os fundos de renda fixa são formados por papeis dos bancos, como CDBs, das financeiras, como as Letras de Câmbio, do governo, como os Títulos do Tesouro, das empresas como as Letras de Crédito Imobiliário (LCI), as Letras de Crédito do Agronegócio (LCA), e as Debêntures, para ficar entre os principais. Por isso, um banco pode oferecer dezenas de tipos diferentes de fundos, em função da composição diferenciada das carteiras.

Basicamente, o trabalho dos gestores consiste em buscar no mercado as melhores oportunidades de rentabilidade, comprando e vendendo esses papeis. Para isso, o banco cobra uma taxa de administração, que varia de acordo com o grau de complexidade da formação de sua carteira e também com o volume de dinheiro aplicado. Quanto menor o valor, mais alta tende a ser a taxa.

Em época de juros altos, ninguém percebe o desconto referente à despesa de gestão, até porque ele vem diluído no valor da cota, a cada dia. Mas se era apenas um detalhe há um ano, quando a Selic estava acima de 14% ao ano, agora que essa taxa desceu a 7,5% ao ano, o custo de administração das carteiras dos fundos passa a ser relevante para quem busca as opções de investimento mais adequadas.

Na ponta do lápis

Os cálculos foram feitos por diferentes especialistas do setor, mas todos mostram praticamente a mesma coisa: para qualquer prazo de aplicação, os fundos de renda fixa só vão pagar mais do que a caderneta de poupança se a taxa de administração for de até 0,5% ao ano.

Embora os títulos que estão em sua carteira paguem mais do que a poupança, o rendimento dos fundos é tributado pelo Imposto de Renda. Já a caderneta é livre de imposto. Nos fundos, quanto menor o prazo da aplicação, maior o IR. Para aplicações de até 180 dias, o imposto é de 22,5% sobre o rendimento; acima disso e até 1 ano, de 20%; acima de 1 e até 2 anos, 17,5%; e para prazo superior a 2 anos, de 15%.

A combinação da cobrança do IR com o desconto da taxa de administração leva os fundos a perderem competitividade em relação à caderneta.

Com a Selic em 7,5% ao ano, o rendimento da caderneta é de 0,4273% ao mês. Com os cálculos que vão a seguir, do professor de matemática financeira José Dutra Vieira Sobrinho, é possível comparar esse desempenho da poupança com a rentabilidade líquida dos fundos, de acordo com prazo da aplicação e a taxa de administração cobrada.

                         Rendimento mensal dos fundos

Taxa Ad.                       Período da aplicação (nº de dias)

ao ano          Até 180         De 180 até 360    De 360 a 720   Mais de 720                                

0,5%                0,4360%            0,4501%            0,4641%         0,4782%

1,0%                0,4035%                0,4165%              0,4295%         0,4426%

2,0%               0,3385%                0,3495%               0,3604%           0,3713%

3,0%               0,2736%                0,2824%               0,2912%            0,3000%

4,0%               0,2086%               0,2153%                0,2220%            0,2288%

Fonte: José Dutra Vieira Sobrinho

Considerações

Com essa tabela, fica claro que os fundos ganham da caderneta (0,4273%) quando a taxa de administração é de até 0,5% ao ano, e isso para qualquer prazo. Quando a taxa é de 1%, os fundos vão pagar mais do que a poupança para aplicações acima de 1 ano. Cobrando taxas a partir de 2% ao ano, os fundos perdem sempre para a caderneta, seja qual for o prazo.

Os cálculos feitos pela Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade, revelam a mesma desvantagem dos fundos que, com taxas a partir de 1% ao ano, passam a perder da caderneta.

Outra simulação feita em reais, pela Anefac, permite a comparação entre o rendimento pago pela caderneta e pelos fundos, de acordo com a taxa de administração cobrada.

Para uma aplicação de um ano, de R$ 10 mil, a situação se repete, os fundos conseguem ganhar da poupança com taxas de até 1% ao ano. Ainda assim, nesse nível, há praticamente um empate entre as duas modalidades de aplicação. Com taxas acima de 1,5% ao ano, os fundos passam a pagar menos do que a caderneta.

                         Compare o rendimento (em R$)

Caderneta                                 Fundo – Taxa adm.anual

–                    0,5%           1,0%       1,5%       2,0%       2,5%       3,0%

525,00             566,00    528,00    503,00   466,00   441,00   403,00

Fonte: Anefac

E aqui, para as cadernetas, estamos considerando o desempenho das chamadas contas novas, as que foram abertas e receberam depósito a partir do dia 4 de maio de 2012, quando houve mudanças nas regras da poupança.

Para o dinheiro aplicado antes disso, nas chamadas cadernetas antigas, o rendimento continua sendo de juros de 0,5% ao mês, ou 6,17% ao ano. Portanto, quem tiver esse tipo de conta deve mantê-lo o máximo possível, já que não haverá nada na renda fixa proporcionando essa rentabilidade.

Para o professor Dutra, “os bancos terão de se reinventar se quiserem manter os fundos competitivos. Seja pela redução das taxas, seja pela busca de aplicações mais rentáveis”. Ele considera que para volumes menores de aplicação e por prazos curtos, três meses, seis meses ou um ano, a caderneta cumprirá bem o papel de proteção do dinheiro do aplicador.