Vale a pena entrar na bolsa de valores, agora?

Regina Pitoscia

23 Fevereiro 2018 | 01h43

(*) Com Tom Morooka

A Bolsa de Valores de São Paulo acumula este ano uma alta de 13,46%, considerando o fechamento do mercado nesta quinta-feira. Um resultado que impressiona e escancara a diferença entre essa opção de renda variável e a taxa de juros de 6,75% ao ano, ou menos de 0,5% ao mês de ganho na renda fixa.

O Índice Bovespa bateu sucessivos recordes esta semana, superando as expectativas do próprio mercado. A dúvida para quem pensa migrar da renda fixa para a renda variável é saber até onde vai o fôlego do mercado de ações. Mesmo porque para alguns especialistas, o melhor momento para entrar na bolsa pode ter ficado para trás.

Pitada de risco

O analista Nicolas Takeo, da Socopa – Sociedade Corretora Paulista, diz que, de forma geral, o comportamento da Bovespa reflete um cenário positivo que combina recuperação da economia doméstica e crescimento sincronizado das principais economias mundiais.

A perspectiva é que esse quadro, interno e externo, continue favorável, apesar das incertezas com o rumo dos juros americanos. Uma possível elevação mais forte dos juros nos EUA, como preveem  parte dos analistas, tenderia a inibir a compra de ações e deprimir a bolsa.

Os principais riscos, aponta o consultor, estão na política, tanto aqui como lá fora. O fator político, que já emperrou a reforma previdenciária, pode agravar o desequilíbrio fiscal e alimentar volatilidade no mercado financeiro em meio ao processo de disputa eleitoral.

Essa perspectiva não deve ser motivo para deixar de adicionar uma pitada de risco e diversificar sua carteira com aplicação de parcela dos recursos na compra de ações. Sempre com a ajuda de profissionais de boas casas de investimento, recomenda Takeo.

Aventurar-se pelo mercado de ações, mesmo em momento de alta, nunca é indicado. Especialmente agora que os fatores de risco tendem a exercer peso maior sobre a trajetória da bolsa de valores.

A aposta de momento dos investidores é que, no fim do processo eleitoral, saia vitorioso das urnas um candidato de perfil amigável ao mercado, comprometido com as reformas e o ajuste das finanças públicas.

Mais que renda fixa

Como se presume que nem todos sejam especialista em ações – ou, ainda, que a maioria seja iniciante na incursão em bolsa de valores –, o consultor de investimentos Eduardo Santalucia sugere que o investidor não vá com sede ao mercado de ações.

Otimista, ele prevê que a valorização da bolsa de valores este ano, sem contar a acumulada no ano até agora, ficará seguramente acima de 5,40%. Esse é o rendimento líquido, descontado o imposto de renda de 20%, estimado para a renda fixa em aplicação com prazo de um ano que tem como referência a Selic de 6,75% ao ano.

Embora acene com rendimento superior, uma aplicação de renda variável embute risco maior, o que exige cautela redobrada. Entre os cuidados está a indicação do consultor de que o investidor aplique nela apenas uma pequena parcela do patrimônio.

Não tem como espernear. Quem quiser um rendimento acima dos 5,40% projetados para a renda fixa este ano precisará ter de 10% a 20% de seus recursos em ações, pontua Santalucia. A acumulação dessa valorização, contudo, não será linear. Haverá altas e baixas pelo caminho, movidas até por solavancos, o que exige paciência do investidor em bolsa.

O principal fator de volatilidade, na avaliação do consultor, não viria do processo eleitoral. O risco maior, aponta, estaria no provável rebaixamento de nota de crédito da dívida do País, como já fez Standard & Poor’s (S&P). Com o adiamento de vez da votação da reforma previdenciária, outras duas agências de classificação de risco, a Fitch e a Moody’s, estariam próximas de tomar decisão semelhante à da S&P.

Para Santalucia, um evento desses tenderia a causar impacto negativo de maior dimensão que as incertezas eleitorais. Até porque a bolsa acumula vistosa alta no ano e qualquer fato negativo poderia encorajar fortes vendas de ações. Como ocorreu, ainda que momentaneamente, no início do mês, diante das expectativas de aumento dos juros americanos além do previsto – quatro altas em vez de três de 0,25 ponto neste ano.

O consultor explica que o momento da bolsa reflete o otimismo com os bons fundamentos da economia, que está em crescimento sob inflação e juros baixos, ainda que o desequilíbrio fiscal preocupe, sobretudo depois que o governo abriu mão da reforma da Previdência.

Dados da bolsa de valores apontam que a alta do mercado no ano, escorada na forte participação de capital estrangeiro em janeiro, passou a ser sustentada gradualmente pelas compras de investidores domésticos pessoas físicas – sobretudo pela migração dos recursos dos fundos de renda fixa.

Opção pelos fundos

O investidor que quiser migrar para as ações deverá procurar um fundo de ações em banco de confiança. Existem duas modalidades: o fundo de ações passivo e o fundo de ações ativo. O primeiro, explica Santalucia, segue a variação do Índice Bovespa (Ibovespa) e o segundo responde às escolhas e decisões do gestor, que analisa tudo (condições da economia e do mercado) e compra as ações para o aplicador.

O mais indicado para um iniciante, segundo o consultor, é um fundo de ações ativo de um banco em que o investidor confia. “É grande a probabilidade de ganhar mais que no atrelado ao Ibovespa”, acredita Santalucia, que sugere a aplicação de até 20% dos recursos nesse fundo.

Para os 80% restantes do capital, ele indica a distribuição de 40% em um fundo multimercado (que mescla aplicações em renda fixa e variável) e os demais 40% em renda fixa, que provavelmente ficarão atrelados ao juro DI, já que o investidor doméstico não abre mão do curto prazo.

“Esse mix de carteira (combinação de fundos de ações, multimercado e de renda fixa) dificilmente vai render menos que os juros”, prevê o consultor de investimentos.