Investimento de renda fixa que promete 1,5% ao mês? Existe!

Sílvio Guedes Crespo

27 Fevereiro 2018 | 05h00

Está em atividade no Brasil e no mundo uma nova forma de investimento de renda fixa que promete rendimento de 1,5% ao mês ou até mais.

Neste artigo eu explico quanto se pode ganhar com esse tipo de investimento, quais os riscos e como participar. Já no blog Dinheiro pra Viver eu conto como tem sido minha experiência pessoal com esse tipo de aplicação.

Para você ter uma ideia, um rendimento de 1,8% ao mês equivale a 23,9% ao ano. Investindo R$ 1.000 por mês em uma aplicação com essa rentabilidade, após cinco anos você acumula um valor bruto de R$ 106 mil, aproximadamente.

Vamos comparar com aplicações tradicionais como o Tesouro Selic, ou com um CDB de 125% do CDI (saiba em 1 minuto o que significa 125% do CDI)?

Bom, investindo R$ 1.000 por mês em cada uma dessas aplicações, após cinco anos você teria um retorno bruto de aproximadamente R$ 70 mil e R$ 73 mil.

Os números consideram o cenário atual, ou seja, uma taxa Selic de 6,75% ao ano.

Muita atenção aos riscos

Enfim, investindo R$ 1.000 por mês, daqui a cinco anos você prefere ter R$ 70 mil ou R$ 106 mil? Claro que todo mundo prefere os R$ 106 mil, mas antes de entrar de cabeça é necessário entender os riscos desse novo tipo de investimento.

No mundo das aplicações financeiras, não tem mágica nem segredo: quanto maior é o retorno esperado de um investimento, maior é o seu risco.

Então sugiro que entenda como funciona essa nova modalidade de aplicação do seu dinheiro, para depois você decidir se vale a pena para o seu caso.

Como funciona o P2P lending

Esta forma de investimento se chama P2P lending (ou “peer to peer lending”), que pode ser traduzido de forma livre como “empréstimo direto entre pares”.

Chama assim porque no P2P lending você empresta dinheiro diretamente para uma empresa de pequeno ou médio porte.

Antes do P2P lending, a gente já conseguia emprestar dinheiro para empresas pequenas e médias, mas de forma indireta, por meio de um banco.

Quando você investe em um CDB, você está emprestando dinheiro ao banco e recebendo juros de, digamos, 7% ao ano. O banco, por sua vez, pega o seu dinheiro e empresta para alguém (uma pessoa física ou jurídica) e cobra juros de, por exemplo, 70% ao ano.

Veja que nesse exemplo que eu dei a diferença entre as taxas de juros é bem grande, de 63 pontos percentuais.

A ideia do P2P lending é melhorar a taxa para os dois lados. Ou seja, aumentar os juros pagos ao investidor e diminuir os juros cobrados das empresas. Então, em vez de a empresa pagar (no caso deste exemplo hipotético) 70% ao ano para banco, ela pagaria 60% no P2P; e em vez de o investidor receber 7%, ele recebe 15%.

O que pode acontecer com o seu dinheiro?

Se você investir na modalidade P2P, o que pode acontecer de pior é você levar calote e nunca mais ver a cor do dinheiro.

Diferentemente dos títulos mais conhecidos de renda fixa, como o CDB, a LCA e o LCI, os empréstimos em P2P não são garantidos pelo Fundo Garantidor de Crédito. Ou seja, se você emprestar a uma empresa, e ela não pagar, você perde o seu dinheiro e não tem ninguém para te reembolsar.

Como investir em P2P lending

Para entrar nesse mercado, primeiro você vai atrás de uma empresa que faz intermediação de P2P lending. No Brasil, temos pelo menos quatro: a Nexoos, a Biva, a Kavod Lending e a TuTu Digital.

Essas empresas têm o objetivo de juntar as duas pontas: a do emprestador e a do tomador. De um lado, elas selecionam companhias que precisam de empréstimo; de outro, buscam clientes que estejam interessados em emprestar a elas.

Se você se cadastrar em uma dessas quatro empresas que eu citei, você começará a receber propostas de investimento. Algo como: “Invista na empresa A e receba juros de 240% do CDI”.

Como saber se vale a pena

Primeiro você precisa ter consciência de que pode perder todo o dinheiro investido. Se a empresa der calote, já era. É possível que o caso vá parar na Justiça e que você nunca receba o dinheiro.

Se você está disposto a correr esse risco, vale a pena analisar não somente a companhia que está pedindo dinheiro emprestado, mas também a empresa de P2P lending, a que faz a intermediação.

O sucesso do seu investimento depende de a empresa de P2P ter feito um excelente trabalho de selecionar as companhias que precisam de empréstimo.

Solicitei às empresas de P2P informações sobre elas. Veja abaixo o que elas me responderam:

Quando a empresa fez a sua primeira operação de empréstimo P2P?

  • Nexoos: Setembro de 2016
  • Kavod: Agosto de 2017

Quantos empréstimos P2P vocês já fizeram, e para quantas empresas?

  • Nexoos: 308 empréstimos para 290 empresas
  • Kavod: 3 empréstimos envolvendo 4 empresas no total (um dos tomadores usou o dinheiro em duas empresas)

Qual o volume total de dinheiro já emprestado?

  • Nexoos: R$ 40 milhões
  • Kavod: R$ 1 milhão, além de uma operação ainda em andamento de R$ 500 mil e previsão de mais R$ 10 milhões para os próximos seis meses

Quantas empresas estão com atraso de pelos menos 90 dias no pagamento das parcelas?

  • Nexoos: 10 empresas
  • Kavod: Nenhuma

Quantas empresas acabaram sendo ação judicial por falta de pagamento?

  • Nexoos: 10 empresas
  • Kavod: Nenhuma

A TuTu Digital informou que está em período de negociação com fundos de investimento de venture capital e por isso não pode divulgar essas informações na imprensa.

Já a Biva não enviou os dados até o fechamento desta matéria. O que eu posso dizer com certeza é que parte das empresas que ela selecionou não pagou os investidores. Digo isso por experiência própria, pois emprestei dinheiro a algumas empresas por meio da Biva e uma delas me deu calote já na primeira parcela. Além disso, olhando no site Reclame Aqui você vai encontrar diversas pessoas dizendo que as empresas que a Biva seleciona nem sempre pagam os investidores.

Além da Biva, eu também já fiz empréstimos P2P por meio da TuTu Digital. No blog Dinheiro pra Viver eu relato minha experiência como cliente dessas companhias.