80% de startups iniciam com recurso próprio
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80% de startups iniciam com recurso próprio

Estudo ouve empreendedores, aceleradoras e investidores para identificar características e necessidades de quem aposta em inovação

CRIS OLIVETTE

28 Agosto 2016 | 07h36

Denise Bayeux (á esq.) e Cecília Novaes, donas da consultoria A Arte da Marca

Denise Bayeux (à esq.) e Cecília Novaes, donas da consultoria A Arte da Marca

A falta de linhas de crédito para a criação de startups faz com que 80% dos negócios comecem com recursos dos próprios empreendedores. O dado é da pesquisa Lado A, Lado B Startups, feita pela consultoria A Arte da Marca, a pedido do Sebrae.

“O Brasil precisa urgentemente de leis que deem apoio e incentivo à inovação. Esse tipo de negócio não pode ser enquadrado na mesma lei de regulação de empresas que chegam ao mercado com um produto ou serviço pronto para ser comercializado”, diz uma das sócias da consultoria, Denise Bayeux .
Outra conclusão que ela chegou com o estudo é que empresas, universidades e aceleradoras precisam trabalhar juntas para difundir e promover a cultura das startups.

“Vivemos um momento transitório. Estamos saindo da economia tradicional e indo para uma nova. O Brasil precisa se estruturar para essa nova realidade. Startups criam muitas oportunidades e o País precisa disso para alavancar a economia e dar emprego aos jovens.”

Sócia de Denise, Cecília Novaes conta que apesar da falta de apoio, o relatório internacional The Global Startup Ecosystem Ranking coloca o Brasil como o 12º mercado mais promissor para startups no mundo.

“No começo, muitos sobrevivem com dinheiro próprio. A pesquisa indica que 48% deixam o emprego formal para empreender com o dinheiro da rescisão. Com o tempo, contam com ajuda financeira da família e de amigos”, diz Cecília.

Segundo ela, com a evolução do projeto, alguns passam a contar com a ajuda de aceleradoras que oferecem espaço de trabalho e mentoria. “O sonho de empreender e de fazer a ideia acontecer é maior que a preocupação com o poder aquisitivo.”

As sócias afirmam que o estudo identificou que no Brasil esses empreendedores passam, em média, até dois anos sem retirar pró-labore. “Em Israel, por exemplo, que é o quinto maior ecossistema empreendedor do mundo, há um fundo do governo voltado para investimento em inovação. Esse apoio reduz o tempo para saber se o negócio vai dar certo ou não. A cultura de investimento e de apoio faz muita diferença.”

Elas consideram que o perfil do empreendedor de startup brasileiro é impressionante. “O estudo foi feito em meio à crise, com todos os segmentos da sociedade reclamando, e eles vivem à margem disso. Na verdade, crise e problemas são como alimento para startups porque o objetivo normalmente é desenvolver uma solução para um problema que é de todos”, afirma Denise.

Cecília complementa, “mais do que isso, o objetivo maior é global, eles não pensam apenas no Brasil e podem solucionar problemas mundiais.”

O consultor do Sebrae-SP,Renato Fonseca Andrade diz que encomendou a pesquisa para obter mais dados sobre este ecossistema. “Ainda temos poucas informações e queremos aprimorar o Programa de Apoio às Startups.”

Hugo Collier (à esq.) e Paulo Fernades, sócios na ABlab

Hugo Collier (à esq.) e Paulo Fernandes, sócios na ABlab

Segundo ele, o suporte abrange orientação para criar o modelo de negócio e, posteriormente, na validação do produto. “Também oferecemos consultoria sobre técnicas de gestão e por meio de nossa rede de contatos possibilitamos acesso a investidores.”

Exemplo. As características de criação da ABlab, de Paulo Fernandes e Hugo Collier, correspondem, em muitos aspectos, ao perfil da maioria das startups ouvidas na pesquisa.

O negócio começou com recursos próprios (80%), os dois deixaram o emprego para empreender (48%), dedicam 100% do tempo ao negócio (73%) e adotam estrutura sem hierarquia.

“Temos apenas liderança técnica e só exercemos essa liderança para sermos mais assertivos nas entregas dos projetos. Queremos nos certificar de que o trabalho receba outro olhar, sob outro prisma, dentro da proposta do projeto. Nunca para forçar nossa opinião e nossa forma de pensar”, diz Fernandes. A empresa também permite que os funcionários joguem vídeo game no horário do expediente para descontrair e aliviar o estresse.

Segundo ele, a ABlab é uma agência digital de performance, que oferece soluções em gestão de marketing digital com resultados rápidos. “Utilizamos plataformas e softwares já existentes para baratear o custo da empresa. Fazemos uma análise do negócio e definimos qual a melhor ferramenta a ser adotada. Dessa forma, conseguimos conquistar contas bem robustas.”

A diferença no caso da Abalab em relação a maioria das startups ouvidas na pesquisa está na velocidade com que a empresa atingiu o ponto de equilíbrio, permitindo aos sócios a retirada de pró-labore.
Criada em agosto de 2015, o ponto de equilíbrio foi alcançado em maio deste ano. “Acabamos de completar um ano de operação já com 28 funcionários. Ocupamos um andar de um prédio comercial e estamos começando a ocupar outro andar.”

Ele justifica que a rapidez em tornar a empresa sustentável se deve ao fato de que a grande maioria das startups vendem produtos ou serviços que resolvem problemas que as pessoas ainda não sabem que têm, ou quando sabem que têm não dão a devida importância.

“Essa necessidade é percebida com o tempo. Quando as pessoas se dão conta o negócio acaba explodindo. Em nosso caso, resolvemos um problema que é muito latente. Os anunciantes já viviam esse problema, mas não tinham esperança de resolver em curtíssimo prazo. Nossa solução traz retorno muito rápido.”

Alex-Camargo (à esq.), Fernando Shine e Vinícius Fagundes, donos da Yourviews

Alex-Camargo (à esq.), Fernando Shine e Vinícius Fagundes, donos da Yourviews

Os fundadores da Yourviews, Alex Camargo, Fernando Shine e Vinícius Fagundes, fazem parte do grupo de 48% dos empreendedores que deixaram o trabalho para empreender e dos 80% que começaram o negócio com recursos próprios.

“Durante 14 meses não tiramos nenhum pró-labore e ainda colocamos dinheiro do próprio bolso. Além disso, tivemos de ajustar nossas contas pessoais, afinal, ainda não inventaram uma fórmula para zerar os gastos básicos”, diz Shine.

Segundo ele, a grande sacada foi o planejamento para decidir o momento certo de empreender. “Precisávamos ter uma reserva pessoal antes de abandonarmos nossos empregos, além de contar com uma margem de segurança para que pudéssemos aguardar a empresa girar.”

Os sócios são formados em engenharia da computação e desenvolveram uma ferramenta para que consumidores de lojas virtuais possam relatar o grau de satisfação tanto em relação à experiência de compra que tiveram com a loja quanto em relação ao produto. “Isso possibilita aos compradores que entram no e-commerce de nossos clientes saber o que estão falando da loja e dos produtos.”

Shine diz que sempre que pergunta às pessoas o que fazem para saber sobre a reputação de uma empresa, todos dizem que pesquisam no Reclame Aqui. “Dessa forma, eles só veem o lado negativo do negócio. Nós fizemos o contrário, mostrando as qualificações das empresas.”

Atualmente, a Yourviews tem mais de 300 clientes. Segundo Shine, a maioria é de médio porte. “Agora estamos focando nos grandes. Já conquistamos a L’Oréal. Entre os principais clientes estão Artwalk, Commcenter, Dental Cremer, Pontal, Di Pollini, Klin e Fut Fanatics.”

Ele afirma que a empresa tem como meta crescer 20% ao mês até o final do ano. Para os próximos anos, o objetivo é expansão e internacionalização.

“É uma meta agressiva mas está sendo cumprida. Apesar da crise, o cenário está bem positivo para o nosso negócio porque o lojista começou a perceber o quanto faz diferença mostrar a satisfação dos clientes ao público, é bom mostrar a reputação positiva e eles estão investindo mesmo durante a crise.”

Shine conta que a retirada mensal dos sócios ainda é abaixo do salário que recebiam. “Mas estamos muito bem organizados. Para chegarmos aonde queremos sabemos que temos de viver esta etapa.”

Na Yourviwes a gestão é horizontal e todos ocupam o mesmo espaço. “Nós viemos de empresas com essa mentalidade e procuramos oferecer um lugar bem agradável. No momento, estamos fazendo uma sala bem legal mas não posso contar como será porque é uma surpresa para a equipe. Ter um local agradável ajuda a reter o pessoal.”

O empresário afirma que empreender é uma experiência incrível. “Realmente vale à pena todo o esforço, sendo que resiliência e perseverança são palavras-chave para se alcançar o objetivo desejado.”

Fundadora da loja virtual Francisca Joias, Sabrina Nunes

Fundadora da loja virtual Francisca Joias, Sabrina Nunes

A fundadora da loja virtual Francisca Joias, Sabrina Nunes, afirma que obter financiamento para começar um negócio é muito complicado. “Ainda mais quando o empreendedor não tem uma ideia concreta e não sabe se o negócio dará certo de fato.”

No caso da Francisca Joias, criada há cinco anos, o negócio começou com R$ 50. “Era tudo o que tinha sobrado de meu salário. Fui ao Centro do Rio de Janeiro, comprei alguns produtos e coloquei na internet para vender. Até hoje, todo o investimento é feito com recursos próprios. Estou sempre reinvestindo para crescer”, conta.

A inspiração para vender pela internet surgiu quando leu matéria sobre uma artesã que comercializava seus produtos por meio do portal Elo 7. “Ela faturava R$ 3 mil por mês. Coincidentemente, esse valor equivalia a minha meta salarial e tive o estalo.”

Natural de Itinga (MG), Sabrina é assistente social. Estava no Rio cursando engenharia com bolsa do ProUni e trabalhando na incubadora de empresas da PUC. “Sempre gostei de vender. No início, continuei estudando, trabalhando e cuidando das vendas no site. Após um ano, deixei a faculdade e um ano e meio depois, o emprego.”

Hoje, segundo ela, a Francisca Joias está entre as maiores lojas virtuais de semijoias do País, emprega 12 pessoas e conta com 480 revendedoras espalhadas pelo Brasil.

Assim como muitas startups de base tecnológica, a marca adota estrutura horizontal de gestão. “Cada dia trabalho com o pessoal de uma área da empresa. Faço todas as atividades junto com os funcionários. O ambiente também é bem descontraído, com redes para descanso no horário do almoço. Além disso, um dia útil por mês o colaborador pode ficar em casa para levar o filho à escola, conviver mais com a família, ir ao médico etc.”

Ela conta que blindou a empresa contra a crise de algumas maneiras. “Éramos focados em venda de varejo virtual. Mas tive um insight. Com a crise, muitas pessoas perderam o emprego e poderiam revender nossos produtos e faturar também. Já tinha um programa de revenda, mas dei mais ênfase e fortaleci a relação empresa/revendedora, dando suporte e assessoria.”

Sabrina garante que 80% dos produtos têm designer exclusivo. A marca tem 185 mil seguidores no Instagram e 250 mil no Facebook. “Tenho como meta crescer 10% ao mês nos próximos três anos. Estamos batalhando para alcançarmos esse objetivo. O trabalho realizado com revenda é um exemplo.”