A vida (compartilhada) segundo uma startup ambiciosa
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A vida (compartilhada) segundo uma startup ambiciosa

WeWork: primeiro espaços compartilhados de escritórios, depois o mundo; os ambiciosos fundadores da startup querem transformar a forma como trabalhamos, vivemos e jogamos

REDAÇÃO

13 Março 2018 | 06h55

O novo prédio da WeWork, chamado Dock 72. Foto: Cole Wilson/The New York Times

Por David Gelles /The New York Times

Numa manhã fria de fevereiro no estaleiro da marinha no Brooklyn, em Nova York, o esqueleto de um edifício moderno de 15 andares emergiu de um canteiro lamacento de obras ao longo do East River. Alta como um navio de cruzeiro, a estrutura de vidro se sobressaía em meio às docas enferrujadas que datam de séculos, avisando o bairro industrial que a nova economia estava chegando.

O projeto, conhecido como Dock 72, é uma criação da WeWork, startup de Nova York que cresce rapidamente, avaliada hoje em US$ 20 bilhões. Em apenas oito anos ela construiu uma rede de 212 espaços de trabalho compartilhados em todo o mundo. Mas Adam Neumann, diretor executivo e cofundador, não está satisfeito em apenas alugar escritórios comunitários. Israelense de 38 anos, tipo magro com cabelos longos, seu objetivo é nada menos que transformar radicalmente a maneira como trabalhamos, vivemos e nos divertimos.

Quando o Dock 72 for concluído este ano, ele representará a mais plena expressão da visão de Neumann. Será um imenso espaço de coworking, com amplos escritórios, um luxuoso SPA, para outras companhias como IBM e Verizon, projetados e administrados pela WeWork. Haverá um bar de sucos, um bar de verdade, uma academia, um local para prática de boxe, uma quadra de basquete ao ar livre, além de vistas panorâmicas de Manhattan. E também restaurantes e talvez até serviços de lavagem a seco e uma barbearia.

Quando for dormir

Será o tipo de lugar que você não deixa enquanto não tiver necessidade de ir para casa para dormir – e se Neuman seguir nesse caminho, você dormirá em um dos apartamentos que ele está alugando ali perto.

É uma espécie de ambição global e Neuman é um vendedor idealista e audaz. Apenas incentivando pessoas estranhas a compartilharem uma cerveja no escritório, diz ele, WeWork pode curar nossa sociedade fraturada.

“Como você muda o mundo? Reunindo as pessoas. Qual o lugar mais fácil para reunir as pessoas? No ambiente de trabalho”, disse ele em uma entrevista recente.

Uma área comum da WeWork, em Nova York. Foto: Cole Wlson/The New York Times)

Expansão e grandes clientes

A WeWork expandiu rapidamente para 20 países, reuniu uma equipe executiva formidável e atraiu 200.000 membros. Grandes empresas como JPMorgan, Chase e Siemens estão firmando contratos de locação com a empresa e as receitas da startup vêm crescendo velozmente, e devem chegar a US$2,3 bilhões este ano.

No ano passado a WeWork adquiriu o icônico edifício Lord & Taylor na Quinta Avenida, que está sendo transformado na sua nova sede. A compra se tornou possível em parte com o investimento de US$ 4,4 bilhões do SoftBank, grupo de tecnologia japonês, comandado pelo bilionário Masayoshi Son.

Ela já iniciou a construção do seu projeto residencial, WeLive e do Rise, sua academia. Adquiriu a Meetup, rede social que facilita as reuniões entre pessoas, e a Flatiron School, academia de linguagens de programação. E outros projetos estão em vista: o WeGrow, uma escola elementar paga, que será aberta em setembro. E a WeWork está investindo em projetos de construção de piscinas gigantes com ondas para prática de surfe. Uma empresa declaradamente dedicada ao coworking hoje emprega instrutores de ioga, arquitetos, professores, ambientalistas, engenheiros de software, biólogos moleculares e psicólogos sociais.

Dúvidas persistentes sobre a valorização

Mas à medida que cresce a WeWork enfrenta dúvidas persistentes sobre sua enorme valorização e a durabilidade do seu modelo de negócios. Seus críticos alegam que ela não é muito mais do que  uma empresa de corretagem imobiliária – alugando espaços, cobrando uma comissão e depois sublocando-o a outros locatários. A companhia não tem propriedades, o que faz com que não possua um patrimônio sólido. As projeções de crescimento parecem inatingíveis. E inúmeras startups vêm surgindo, e são concorrentes potenciais, tentando repetir o sucesso da WeWork.

 IWG, empresa de capital aberto que tem muito mais membros e imóveis do que a WeWork, está avaliada em US$ 2 bilhões. Mas Neumann convenceu os investidores de que sua empresa vale 10 vezes mais.

Estado de consciência, não uma imobiliária

Segundo Neumann, a WeWork não é uma empresa imobiliária. É um estado de consciência, uma geração de empreendedores inteligentes emocionalmente interconectados. E com essa combinação de inspiração e audácia, ele quer transformar não só a maneira como trabalhamos e vivemos, mas o mundo em que estamos.

A WeWork não inventou os espaços de coworking. A IWG, mais conhecida como Regus, já está na atividade há décadas. Mas Neumann e McKelvey rapidamente descobriram uma receita que tem atraído uma multidão de startups: uma estética industrial chique, algumas grandes áreas comuns com sofás confortáveis, cerveja grátis e música pop de fundo.

Os interessados pagam US$ 45 por mês para o acesso ocasional a uma mesa numa área comum. Startups podem pagar alguns milhares de dólares mensais por uma sala privada e grandes companhias pagam milhões de dólares por ano para espaços que abrigam milhares de funcionários em múltiplos locais.

The Rise, academia de ginástica que a WeWork opera em Nova York. Foto: Cole Wilson/The New York Times

Uma fórmula que deu certo, de Nova York a Telavive e Xangai. Em Nova York, a empresa possui 49 espaços, praticamente cheios. No Harlem, empresas de dança convivem com cabeleireiros numa área comum adornada com murais de músicos de jazz. Em Tribeca, estilistas de moda e distribuidoras de bebidas trabalham lado a lado em um espaço espartano decorado com luzes de neon.

O Weather Channel transferiu recentemente sua equipe de vendas de anúncios para um enorme espaço da WeWork em Manhattan. Barbara Bekkedahl, que chefia o grupo, disse que a transição foi fácil e o espaço é confortável e elegante. Mas ela se queixa da falta de higiene e o modo de vestir de alguns dos novos colegas do espaço.

Queixas do tipo não devem diminuir os negócios da NewWork com os clientes corporativos. Como a empresa está abrindo tanto espaço e comprando tanto mobiliário, diz Neumann, ele consegue reformar e operar um escritório por uma fração do valor que as empresas normalmente pagariam. “Temos economias de escala. E posso cortar seu custo operacional em 20% a 50%.”

Há anos as grandes empresas estão terceirizando o processamento de folhas de pagamento, serviços de portaria e de segurança. Não é exagero imaginar que um número cada vez maior delas irá terceirizar também o design e a manutenção dos seus escritórios para uma empresa como a WeWork.

“Estamos com 200.000 membros apenas”, disse McKelvey. “É ridículo. Temos de ter dois milhões e depois 20 milhões”.

Jardim de infância

Em setembro a WeWork lançará seu mais ambicioso projeto: um jardim de infância. É uma criação da mulher de Neumann, Rebekah, 39 anos. A escola é chamada WeGrow e prometer ser um espaço bem projetado com um currículo que enfatiza a socialização e o empreendedorismo para crianças acima dos três anos de idade.

O projeto se enquadra na visão expansiva de Adam Neumann de criar uma geração de empreendedores que causem impacto social.  Mas o projeto não vai se expandir tão rapidamente como a WeWork, de modo que o alcance financeiro é limitado. Mas se algo der errado, as consequências podem ser enormes. E assumir responsabilidade pela saúde e o desenvolvimento do filho de alguém, é algo bem diferente.

 “Ele sabe, instintivamente, que a nova geração, chamada do milênio ou da Internet,  deseja trabalhar em comunidade sem ingressar em grandes empresas. E como Steve Jobs e outros grandes empreendedores, ele sabe como unir ciências humanas com negócios e tecnologia”, diz o biógrafo. / Tradução de Terezinha Martino