Coletivos abrem caminho para artesãos
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Coletivos abrem caminho para artesãos

Cresce o número de eventos que reúnem pequenos produtores de diversos segmentos; iniciativas lançam marcas e impulsionam negócios

CRIS OLIVETTE

29 Outubro 2017 | 07h15

Cris Rosenbaum (à esq.) e Tatiana Aciolli. Foto: Gianne Carvalho

A paixão por produtos artesanais tem sido o ponto de partida para a criação de eventos denominados ‘coletivos’, nos quais pequenos produtores encontram apoio para vender e divulgar suas marcas.

Há cinco anos, a empresária Tatiana Aciolli organizou o primeiro evento do Coletivo Carandaí 25, na sala de sua casa, com 15 expositores. Atualmente, realiza três edições por ano no Rio de Janeiro e tem no portfólio 170 marcas.

“A cada evento, seleciono 50 participantes, em esquema de rodízio. Nossa sede atual é na Casa Rosa da Gávea, que tem oito mil metros quadrados.” Mensalmente, ela ainda organiza cursos de formação empreendedora em parceria com o Sebrae, para capacitar esse público.


“Estamos alavancando esses negócios. Também mantemos uma loja fixa de 300 metros quadrados no shopping RioSul, na qual, ao longo de dois meses, 25 marcas deixam produtos expostos, fazendo rodízio entre elas.

Tatiana afirma que a partir dessas iniciativas os pequenos negócios começam a crescer. “Tivemos aumento de 30% das marcas abrindo loja, mesmo nesse período de crise estamos colocando novos talentos no mercado”, conta.

Sua receita vem da cobrança de taxa por estande. “Essa verba também é usada para entregar o evento todo padronizado, decorado e com serviços de limpeza e manobrista.”

Ela diz que a partir deste ano fechou parceria com Cris Rosenbaum, que faz curadoria de marcas de design e organiza a Feira Rosenbaum, na capital paulista. “Como sou formada em moda e ela entende muito de designer, unimos nossas forças. Ela traz produtores de design para participarem do Coletivo Carandaí 25 e eu levo 30 produtores de moda à Feira Rosembaum, em São Paulo. Inclusive, neste domingo (29), estaremos encerrando uma mostra no museu A Casa, em Pinheiros.”

Paola Muller, dona da marca que leva seu nome. Foto: Lu Nogueira

A Feira Rosenbaum também o corre há cinco anos. “Sempre trabalhei com moda e bijuterias e pensei em criar o coletivo para tirar os artistas que eu conhecia de seus ateliês. Com o tempo, ganhamos corpo”, diz a organizadora, Cris Rosenbaum.

A cada evento, ela apresenta 40 marcas. “Mas poderia incluir muitas outras, porque há muito trabalho bonito no mercado, mas acho que a feria precisa ter um limite, para não ficar congestionada. Em quatro dias de evento, costumamos ter cinco mil visitantes.”

Cris também cobra taxa por estande, que usa para pagar som ao vivo, motorista, água, café e limpeza. “É uma estrutura enorme. Fica quase impossível ganhar dinheiro, porque faço tudo muito bem feito. O mais legal é dar essa oportunidade para os artesãos, principalmente os que vêm de fora de São Paulo. O incentivo ao pequeno artista é o que me dá prazer.”

A organizadora conta que a cada evento apresenta 20 artistas novos, mas mantém 15 artistas fixos, que participam desde o início da feira e lançam novas coleções a cada evento.

Entre eles está Paola Muller, que trabalha com tricô há mais de 20 anos e há três criou a marca que leva seu nome. “Trabalho com tricô manual e tecnológico, utilizando máquina de alta tecnologia japonesa chamada Shina, que possibilita inúmeras produções de estampas.”

A artista faz desde sapatos de tricô, passando por mantas e almofadas, até revestimentos de mobiliário. “A feira me abriu muitas portas e me lançou no mercado. Gosto muito da proposta de divulgar o pequeno produtor e incentivar o design brasileiro.”

Cris conta que neste ano já promoveu quatro eventos em São Paulo e dois no Rio de Janeiro, em parceria com o Coletivo Carandaí 25, para onde voltará em novembro.

“Também fomos à Curitiba e já estivemos em Belo Horizonte e Goiânia. No ano que vem, espero ir a Recife.”

A empresária também faz trabalho de apoio aos índios do Amazonas e Pará, comercializando peças produzidas por eles. “Além disso, apoio o Migraflix, projeto voltado a refugiados e imigrantes. As africanas, por exemplo, vendem tecidos e ensinam a fazer turbantes, enquanto os árabes comercializam comidas típicas.”

Deia Martins criou a Mixtura Criativa. Foto: Rafael Arbex/ Estadão

A artista Deia Martins conta que produz acessórios e tinha dificuldade de participar de feiras, por falta de verba. “Como tenho muitos amigos que também empreendem e passam pela mesma dificuldade, resolvi organizar uma feira para dar oportunidade a todos.”

A primeira edição da Mixtura Criativa, realizada em julho, reuniu 40 expositores e atraiu 500 visitantes. “Deu muito certo e todos os expositores ficaram muito gratos e entusiasmados. Por isso, organizei novas edições em agosto e setembro. A próxima será nos dias 11 e 12 de novembro, sempre no espaço Ibira Food Square, em São Paulo”, conta.

Além de fazer a curadoria, Deia gosta de conhecer a história de cada expositor. A receita da empreendedora vem da cobrança pelos estandes e do bar que monta no local. Hoje, vive exclusivamente do evento.

Marcas de moda encontram público-alvo e formam clientela

Em dezembro de 2015, a estilista Manoela Abitibol lançou a marca Manu Manu, após desfazer uma sociedade. “Participava de feiras com a outra marca, mas nesses eventos não encontrava pessoas com perfil para ser meu público. Com a Manu Manu resolvi participar de poucos, mas bons eventos.”

A empresária diz que ao conhecer a proposta do Coletivo Carandaí 25 ficou encantada. “Apresentei algumas peças à curadora e fui selecionada. Em abril de 2016, tive a primeira participação. Agora, estou indo para a 9ª edição. Por meio do coletivo, encontrei meu público-alvo e formei clientela.”

Segundo ela, a marca trabalha com algodão, seda e linho. “Produzo para mulheres que gostam de produtos de boa qualidade, prezam pelo bom acabamento e estão dispostas a pagar um pouco mais por uma peça com estilo e durabilidade.”

Manoela Abitbol, dona da Manu Manu. Foto: Mariana Vianna

Manoela conta que no início de novembro vai inaugurar sua primeira loja, em Ipanema. “Mesmo com loja própria, vou continuar participando do Coletivo, porque ele gera um pós-venda incrível”, afirma.

Depois de um período de questionamento sobre o que queria da vida, a publicitária Aline Tassar entendeu que fazia mais sentido para ela deixar a profissão e criar um negócio social. “Lancei a marca Bossa Social que produz peças ‘curingas’ para o guarda-roupa feminino. A maior parte da produção é feita por pequenos produtores. Seguimos os princípios do comércio justo, isso significa que só trabalhamos com costureiras independentes ou confecções que mantêm pessoas registradas, pagando valor justo pelo trabalho, porque no mercado da moda é comum encontrar profissionais que não têm seus direitos respeitados.”

Aline diz que há uma estilista que dá vida às suas ideias. “Todo o direcionamento de produto é meu. Comecei com loja online, mas percebi que precisava manter contato pessoal com o público. Participar do Coletivo Carandaí 25 tem sido muito importante, porque é um evento que reúne grande número de pessoas, com perfil de nosso público-alvo.”

A empresária conta que há dois meses abriu a primeira loja Bossa Social. “O interessante é que, apesar de fazer pouco tempo, 60% das pessoas que chegam à loja já conhecem a marca, por conta do Coletivo. Esse fato comprova o quanto ele nos ajudou a construir a marca.”

Segundo ela, esse tipo de evento faz muita diferença para impulsionar os pequenos e gerar oportunidade para quem está começando. “O evento acelerou nosso processo de crescimento. Além disso, acho que a crise deu força para impulsionar a economia criativa, fazendo o Coletivo ganhar força.”

‘Temos fila de espera de artistas interessados em participar’

Com foco no público classe A, a produtora de eventos Luciana Giannella e a consultora de estilo Eva Bichucher criaram o coletivo It Brands. “Tínhamos o desejo de garimpar e descobrir pequenos produtores, que não têm produtos expostos em shoppings, e apresentá-los ao público”, conta.

Segundo Luciana, o coletivo atua em três segmentos: moda, decoração e bem-estar. O evento de moda tem duas edições por ano, para o lançamento das coleções de inverno e verão. Os eventos de decoração e bem-estar têm uma edição anual cada um deles.

Lu Giannella (à esq.) e Eva Bichucher, fundadoras da It Brands. Foto: Cleiby Trevisan

“No último coletivo de moda, realizado durante dois dias no início de outubro, apresentamos 65 marcas e tivemos recorde de público, com 2,5 mil visitantes”, conta.

Segundo ela, durante os eventos as sócias também organizam palestras e workshops voltados aos expositores, além de consultoria para auxiliar o público. “Em breve, lançaremos aplicativo para oferecer serviço de pós-venda. Assim, clientes e marcas poderão manter contato e fechar novos negócios.”

A empresária possui portfólio com 140 marcas. “Temos fila de espera de produtores interessados em participar da It Brands, porque o retorno é excelente para eles.”

A fundadora do Mercado Manual, Dani Scartezini, era dona da produtora de conteúdo Floristas, voltada a pequenos empreendedores artesãos. Ela também mantinha blog com as histórias dessas pessoas.

Depois de uma viagem a Londres, onde ocorrem muitas feiras voltadas aos pequenos empreendedores com pegada de consumo consciente, resolvi colocar em prática a vontade que tinha de reunir essas pessoas em um evento.”

A primeira edição ocorreu no Museu da Casa Brasileira, em dezembro de 2015. “Agora, estamos indo para a 10ª edição, que será realizada em 4 e 5 de novembro, na Pinacoteca do Estado.”

Dani Scartezini, fundou o Mercado Manual. Foto: Daniel Wood

Dani afirma que, desde o primeiro evento, fechou contrato para a realização de três edições por ano no Museu da Casa Brasileira. “Lá, reunimos 100 expositores e atraímos mais de nove mil pessoas em dois dias de evento. Este ano, também realizamos duas edições no Shopping Morumbi, apresentando 40 marcas, durante três dias. Em cada edição, passaram pelo local mais de 40 mil pessoas.”

A Rede Manual tem contato com 200 produtores que atuam nos segmentos de arte, comida, beleza, bem-estar, moda, design, casa, infantil e música. “Os eventos são montados com recursos provenientes de taxa de adesão, paga pelos expositores. Nosso lucro vem da comissão de 20% sobre o valor das vendas” conta.

Dani pretende levar o Mercado Manual a Minas Gerais e Rio de Janeiro. “Mas o nosso grande plano para 2018 é implantar a Escola Manual, com as aulas sendo ministradas pelos próprios artistas”, revela.