‘Com falta de propósito, negócios não se sustentam’
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‘Com falta de propósito, negócios não se sustentam’

Fundador da Apis Flora transformou sua pesquisa acadêmica em empresa milionária

Redação

11 Setembro 2017 | 16h24

Manoel Tavares, fundador da Apis Flora, atribui o êxito do negócio à vocação modernizante da companhia e a vínculo com universidade
Foto: Murilo Corte /Divulgação

Bianca Soares, especial para O Estado

Líder nacional na fabricação e comercialização de mel e extratos vegetais, a Apis Flora começou como produção artesanal no quintal da casa de Manoel Tavares, na época um aspirante a engenheiro agrônomo. O lucro das vendas ajudava a manter o estudante universitário de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, na Unesp de Jaboticabal.

Tavares foi o único dos quatro filhos de um casal de agricultores a ingressar na faculdade. O aumento da demanda local por mel somado à expertise desenvolvida no câmpus o levou a enxergar as abelhas como negócio sério. Foi assim que, ainda tímida, surgiu em 1982 a empresa familiar.


O capital inicial veio de reservas próprias. A visão conservadora em relação ao crédito externo, aliás, se estendeu pela primeira década da fabricante. Para Tavares, a resistência pode ter sido uma de suas principais falhas como empreendedor principiante. “Os primeiros anos foram de crescimento muito lento, porque eu me recusava a buscar financiamento.”

O momento atual é de transição. Raul Tavares, filho do fundador e atual diretor executivo da Apis Flora, assume o comando no final de 2017. O pai, ainda um pouco avesso a crédito alheio, já sabe que o sucessor tem uma visão distinta de gestão, mas diz não se preocupar.

O novo presidente chegará ao posto em um dos melhores momentos da empresa. Em 2016, durante a crise econômica, o faturamento da companhia atingiu os R$ 35 milhões, 62% maior do que o registrado no ano anterior. A projeção para 2017 é crescer 12% .

O fundador atribui o êxito à vocação modernizante da empresa. Destaca, por exemplo, que nunca perdeu o vínculo com a universidade, seja acompanhando a pesquisa acadêmica seja financiando-a. A Apis aproveita a proximidade geográfica com a USP – Ribeirão para incentivar novos estudos no segmento do mel.

Cabeças jovens têm preenchido os laboratórios da fabricante com novas ideias. São cerca de 100 produtos acabados no catálogo, além de produção de insumo para as indústrias farmacêutica, alimentícia e de cosméticos. Extrato de própolis, méis compostos, fitoterápicos e chás estão entre os principais artigos.

A convivência com os jovens pesquisadores da universidade levou a empresa de Tavares a desenvolver, em conjunto com uma startup, procedimentos 100% automatizados para vendas. A ideia é agilizar a logística e aumentar a eficiência na recepção e entrega de pedidos.

Começo duro. “No início, nosso maior entrave foi com os órgãos públicos. Muitos dos nossos produtos, por serem novos, desenvolvidos em laboratório, não tinham registro no Ministério da Agricultura. Nossa legislação é retrógrada e acabou travando muitos lançamentos. Aliás, até hoje temos esse problema. A solução foi, e continua sendo, participar ativamente do debate sobre a regulamentação dos produtos.”

Experiência. “Passei quase toda a minha vida perto das abelhas, mas, logo após a faculdade, fiquei dez anos trabalhando com crédito rural, fazia parte da equipe de projetos de um banco. Acontece que era muito distante daquilo que eu gostava de fazer e voltei a me dedicar à produção de mel. Esse período no mercado acabou me dando uma visão estratégica boa, que desenvolvi no meu próprio negócio.”

Propósito. “Empreender, antes de qualquer coisa, é acreditar no que você está propondo. Muitos negócios não se sustentam, porque a finalidade está centrada no lucro, não há propósito. Também é preciso pensar em algo inovador, que não está dado. Nós apostamos na pesquisa científica, desenvolvemos produtos que não existiam no Brasil, fomos pioneiros na produção de própolis.”

Mundo. “Exportamos para mais de 20 países, com a China como nosso principal parceiro. Nosso diferencial é que vendemos produtos prontos, enquanto grande parte do segmento exporta matéria-prima. Mas exportar também é um desafio. Cada país tem legislação e exigências diferentes a respeito dos componentes dos produtos, dos rótulos. Para lidar com isso, criamos um departamento centrado nessas questões.”

Capacitação. “Temos como paradigma que nossos funcionários são nosso maior patrimônio, por isso apostamos muito em capacitação. Cerca de R$ 80 mil por ano são investidos na formação e especialização do nosso quadro. O resultado é comprometimento com o negócio. Há colaboradores que entraram na Apis como aprendizes, cursaram a faculdade com nosso auxílio e hoje são gerentes de suas áreas. Outros fizeram mestrado e doutorado, o que demanda tempo e recursos.”

Orgânico. “Nosso produtos são naturais e atendem a um nicho específico. É difícil fazer com que as pessoas percebam que, embora os orgânicos sejam um pouco mais caros, a quantidade de nutrientes que oferecem é bem maior. Ou s eja, no final das contas, você está mais bem alimentado e evita riscos sérios à saúde. Mas esse ainda é um entrave para nós.”

Sustentabilidade. “O crescimento sustentável está em nossa carta de princípios. Participei dos primeiros debates sobre o tema ainda na faculdade e trouxe isso para a Apis. A apicultura é um dos negócios mais ecológicos que existem. É importante ter valores claros e aplicá-los. Uma das principais preocupações é entregar um produto livre de qualquer contaminante.”