Compartilhamento de veículos altera a  mobilidade urbana
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Compartilhamento de veículos altera a mobilidade urbana

Negócios voltados ao acesso rápido a automóveis por meio de aplicativos proliferam, ganham adeptos e mudam comportamentos

CRIS OLIVETTE

05 Junho 2016 | 07h02

Bruno Rondani, Sócio-fundador da Wenovate - Centro Open Innovate

Bruno Rondani, sócio da Wenovate – Centro Open Innovate

A recente regulamentação do compartilhamento de carros por meio de aplicativos na cidade de São Paulo reflete a mudança de comportamento em relação à mobilidade urbana, que ocorre no mundo todo. “O conceito do compartilhamento é baseado na eficiência da informação, que permite acesso direto ao consumidor que usa celular mobile”, diz o sócio do Wenovate – Centro de Open Innovate, Bruno Rondani.

Segundo ele, a revolução do mobile com os aplicativos está apenas começando. “O modelo largamente explorado pela indústria automotiva, orientado ao consumo, está sendo revisto. Tanto, que a General Motors fechou parceria com a Lyft, concorrente do Uber na prestação de serviço de táxi, para o desenvolvimento de uma rede de automóveis autônomos, com investimento de US$ 500 milhões”, conta.

Rondani lembra, ainda, que outra gigante que está apostando no compartilhamento de veículos é a Apple. A empresa investiu US$ 1 bilhão no aplicativo chinês Didi Chuxing, de reserva de táxi, que conta com 300 milhões de usuários na China.”


Ele ressalta que o desafio para quem deseja desenvolver esse tipo de aplicativo é criar uma proposta de valor com algumas especificidades. “Ainda tem um espaço grande para aplicativos de carona, por exemplo, porque não existe um grande player como o Uber atuando nesta área.”

Adepto da ideia cada vez mais disseminada entre os jovens de não ter um veículo particular, o diretor da filial brasileira da francesa Blablacar, Ricardo Leite, conta que o aplicativo de carona intermunicipal chegou ao País no final do ano passado.

Diretor da Blablacar no Brasil, Ricardo Leite

Diretor da Blablacar no Brasil, Ricardo Leite

“Viagens compartilhadas e caronas fazem parte da minha vida. Ao terminar meu MBA em Chicago (EUA), queria trabalhar nessa área. Consegui contato com o headhunter da Blablacar e eles estavam procurando um diretor-geral para atuar no Brasil. Deu certo. Eu estava no lugar certo, na hora certa.”
Ele diz que até o momento o uso do aplicativo no Brasil é gratuito para condutores e passageiros. “Em alguns dos 22 países nos quais a Blablacar opera é cobrada do passageiro uma taxa de reserva. É provável que futuramente esse modelo de cobrança seja adotado por aqui.”

Leite explica que após fazer cadastro na plataforma o condutor informar, por exemplo, que na sexta-feira sairá de Moema (SP), em tal horário, com destino ao Leblon (RJ). O passageiro interessado em fazer a mesma rota pede para ir junto. O condutor confere o perfil da pessoa e autoriza ou não a viagem. Até agora, a média dos trajetos no País é de 300 km.

“Eles compartilham os custos de combustível, pedágio e a experiência da viagem em si. É do bate- papo durante a viagem que vem o nome Blablacar”, diz.
Segundo ele, o aplicativo faz o cálculo e sugere o valor de contribuição de cada passageiro, mas o condutor tem flexibilidade para diminuir ou aumentar o valor até certo limite. “Colocamos o limite para evitar que exista qualquer possibilidade de lucro entre os usuários.”

Leite afirma que o aplicativo desenvolvido em 2006 também nasceu com a proposta de proporcionar benefícios ambientais. “Além do objetivo mercadológico, há vantagens reais para a sociedade. Numa viagem para o Rio, o usuário economiza R$ 250 e contribui para reduzir a emissão de poluentes. Na Europa, a média de pessoas por veículo nas estradas é de 1,7. Entre os que usam o aplicativo, a média sobe para 2,8.”

Ele conta que globalmente, nos últimos 12 meses, cerca de 500 mil toneladas de CO2 deixaram de ser emitidas. “No Brasil, calculamos que nos primeiros 100 dias de atuação, evitamos a emissão de mil toneladas de CO2. É um ganho ambiental muito tangível.”

Já a brasileira Zazcar, que chegou ao mercado em 2012, oferece compartilhamento de veículo sem motorista. O fundador, Felipe Barroso, conta que a ideia surgiu quando ele deixou Curitiba (PR) para morar na capital paulista. “Ao ver a quantidade de carros circulando pela cidade vi uma oportunidade de diversificar meu negócio de terceirização de frotas. Fiz estudo de mercado e identifiquei que na América Latina ainda não havia esse tipo de serviço.”

O empresário mantém frota própria distribuída em 50 pontos do centro expandido de São Paulo. Ao fazer o cadastro, o cliente recebe um cartão que permite abrir qualquer veículo da frota e pegar a chave no porta-luvas. “O serviço funciona 24 horas por dia. Basta fazer a reserva no site, usar o carro pelo tempo previsto e devolver o veículo no mesmo local. A cobrança é feita no cartão de crédito. Não há intermediação nem burocracia. O serviço é muito conveniente para quem aluga por curto espaço de tempo.”

A marca tem 7,5 mil usuários cadastrados até o momento. Os clientes pagam a hora utilizada e a quilometragem rodada. “No serviço já está incluído o combustível e o seguro. O valor da hora começa em R$ 3,90 e o km percorrido custa R$ 0,89. É um preço bem interessante. Já para uma diária o custo é compatível com o praticado no mercado.”

Ele conta que o perfil de seu público é de pessoas que abriram mão de ter carro e já equacionaram a questão de como ir para o trabalho. “Deslocamento para o trabalho representa 70% do uso do veículo próprio. Nós chegamos para ocupar os 30% de tempo restante no uso do automóvel. A pessoa economiza até R$ 800 por mês usando a Zazcar.”

Segundo ele, neste ano o seu objetivo é abrir mais pontos em outras regiões. “Nos próximos anos queremos chegar em cidades como Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Estamos em um período de transição da posse para o acesso ao carro. Nosso objetivo é oferecer da forma mais conveniente possível acesso à direção do veículo”, diz.

O gestor de operações da Cabify Brasil, Daniel Bedoya, conta que o serviço entrará em operação a partir de amanhã, na capital paulista, após um rígido processo de recrutamento dos condutores. “Os interessados em trabalhar com o nosso aplicativo têm de preencher um cadastro, passar por capacitação, treinamento para usar a plataforma e de boas práticas em relação ao cliente e a manutenção do veículo”, afirma.

Gestor de operações da Cabify, Daniel Bedoya

Gestor de operações da Cabify, Daniel Bedoya

Além de passar por exame médico, os condutores também realizam exame psicométrico para avaliar se a pessoa tem personalidade idônea e se não é agressiva, por exemplo. “Após esse processo, dependendo dos resultados, homens e mulheres são habilitados a trabalhar usando o aplicativo e utilizando carro próprio.”

Bedoya conta que cada viagem tem cobrança de tarifa calculada a partir da quilometragem. “Um diferencial nosso é que só cobramos pela rota ótima (mais curta). Mesmo que o condutor desvie, o passageiro só vai pagar o trajeto mais curto. Isso permite que o cliente já saiba quanto vai pagar pela viagem quando pega o carro, e o motorista também sabe quanto vai ganhar. A Cabify recebe porcentagem sobre esse valor, que pode variar entre 20% e 25%.”

A empresa trabalha com várias categorias de veículos como a econômica, executiva e van. “No Brasil, vamos começar com a categoria Cabify Light, que custa menos que um táxi e compete com o Uber. Mas a marca tem foco muito grande no atendimento de clientes corporativos. No futuro, também vamos operar com o modelo Cabify Executivo.”

Ele conta que o negócio tem crescido bastante em cidades da América Latina. “O cenário tem sido muito positivo, tanto, que recebemos US$ 120 milhões de investimento. Recurso que nos dá fôlego para chegarmos a novas cidades.”

O executivo conta que o negócio foi criado pelo espanhol Juan de Antonio, quando estava fazendo MBA na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. “Ele estava pesquisando vários modelos de mobilidade e viu um nicho interessante para pedido rápido de carros com chofer, por meio de aplicativo. A Cabify nasceu em 2011, quando ele retornou à Espanha.”

Depois receber investimentos de alguns fundos, o negócio iniciou expansão pela América Latina, em 2012. “A vantagem do modelo em relação ao táxi convencional está na qualidade do serviço, protocolos de atendimento dos choferes e carros de alta qualidade. Além do fato de ser pedido por aplicativo.”

Bedoya afirma que a chegada ao Brasil neste ano se deve ao movimento regulatório positivo que está ocorrendo no País, além da maturidade da empresa, o que contribui para a conquista de novos mercados.

Antes de atuar na Cabify, Bedoya trabalhou na área de mobilidade, no segmento de viagens compartilhadas. O engenheiro agrônomo de 26 anos conta que após ter uma experiência em sua área de formação, chegou a criar uma empresa de caronas, que foi vendida a um grupo de aceleração de startups. “Antes de assumir a Cabify, cheguei a assumir uma outra empresa de viagens compartilhadas.”