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Dificuldade pessoal pode virar negócio e preencher lacunas

Empresários contam como identificaram brechas no mercado a partir de necessidades próprias e criaram empresas de sucesso

CRIS OLIVETTE

22 Outubro 2017 | 07h56

Rafael Bigarelli, fundador da Alboom. Foto: Marco Godinho

Quem tem espírito empreendedor costuma manter o radar ligado para identificar lacunas no mercado e criar um produto ou serviço que supra essa necessidade. Muitas vezes, essa inspiração também pode vir de uma necessidade pessoal.

“É muito comum que ao identificar uma brecha no mercado, o empreendedor fique encantado com a sua ideia e acredite que aquilo poderá deixá-lo rico. Mas é preciso ter cautela, fazer planejamento, realizar análise de mercado e testes de viabilidade”, alerta o consultor e sócio da Prosphera Educação Corporativa, Haroldo Eiji Matsumoto.

No caso do fundador da Alboom Pro Site, Rafael Bigarelli, a ideia de criar a plataforma online voltada a profissionais que produzem fotos e vídeos, na qual é possível criar portfólios e galerias personalizadas, surgiu de uma necessidade pessoal.


“Comecei a fotografar aos nove anos, profissionalmente aos 12. Depois de várias tentativas frustradas de ter um site profissional bonito e de fácil atualização, pedi a dois amigos que pensassem em uma solução.”

Em 2015, quando a plataforma ficou pronta, estava perto da data de uma palestra que ele faria no congresso anual de fotografia Wedding Brasil, que reúne mais de 2,5 mil profissionais.
“Conseguimos colocar um estande lá e foi assim que testamos a viabilidade do negócio. Para nossa surpresa, vendemos 70 sites durante o evento.”

Hoje, a Alboom Pro Site emprega 22 pessoas e está presente em 17 países, incluindo vários da América do Sul, Japão, Holanda e Estados Unidos.

“Estamos desenvolvendo duas soluções inovadoras. Uma delas terá realidade aumentada. Pretendemos liderar o mercado de tecnologia para artistas visuais e ampliar nossa internacionalização. Inclusive, acabamos de concluir o processo de fusão com a multinacional Clicster, especializada na gestão de negócios para fotógrafos e videomakers”, conta.

Os fundadores da Ecommet, Frederico Flores e Fernando Montera Filho, começaram a empreender aos 18 anos. “Sempre fomos ligados em tecnologia e queríamos fazer negócios pela internet”, diz Flores.

Fernando Montera Filho (à esq.) e Frederico Flores, fundadores da Ecommet. Foto: Renan Oliveira

Durante alguns anos, mantiveram loja virtual dentro da plataforma do Mercado Livre, na qual comercializavam eletrônicos que vinham diretamente da China para a casa dos clientes.

“Com o tempo, o modelo passou a ser copiado por muitas outras lojas e percebemos que não valia continuar tendo tanto trabalho para lucrar tão pouco. Resolvemos competir oferecendo um atendimento melhor, profissionalizando todo o processo, respondendo a perguntas o quanto antes etc.”

Os sócios, então, imaginaram que se conseguissem unir a qualidade do serviço com o preço oferecido pelos concorrentes, seriam imbatíveis. “Em 2010, percebemos que em vez de concorrer com esses empreendedores, poderíamos trabalhar juntos, como parceiros e passamos a oferecer consultoria.”

O empresário diz que em 2012, a margem de lucro voltou a ficar apertada, também não estavam conseguindo escalar a operação. “Em busca de eficiência passamos a desenvolver softwares para automatizar as operações de e-commerce. O modelo se mostrou ‘escalável’. Essa foi nossa segunda virada.”

Desde então, a Ecommet se tornou uma empresa de tecnologia e não parou mais de crescer. “Batemos recorde de faturamento todos os meses. Neste ano, devemos faturar R$ 24 milhões. No ano passado, o faturamento foi de R$ 17 milhões.”

A ideia de criar o aplicativo Pet Booking surgiu em 2015, a partir de uma necessidade do administrador Robert Dannenberg. “Cheguei em casa à noite e percebi que havia esquecido de agendar o banho de meus cachorros. Tentei ligar no pet shop e ele já estava fechado.”

Robert Dannerberg, fundador do Pet Booking. Foto: Cris Berger

Ele também pesquisou no Google e não achou nenhum serviço que tivesse agendamento online. “Assim, nasceu a ideia do aplicativo, que permite agendamento online de banho, tosa, consulta com veterinário, enfim, todos os serviços oferecidos por pet shops e clínicas veterinárias. Com o Pet Booking ficou muito fácil agendar e pagar esses serviços”, defende.

Dannenberg conta que o aplicativo é gratuito para os usuários e os proprietários de clínicas e pet shops pagam taxa de conveniência sobre cada negócio fechado pelo aplicativo.

Desde o ano passado ele se dedica 100% ao negócio, que tem 16 funcionários, 17 mil profissionais cadastrados e mais de 11 mil agendamentos realizados.

“Temos muito espaço para crescer, porque no Brasil há 50 mil pet shops. Agora, estamos expandindo para outras regiões do País e existe a possibilidade de fecharmos parceria com uma rede americana.”

‘Inspiração vem da observação e contato com as pessoas’

Como confirmar a viabilidade de um produto ou serviço?
É preciso fazer o teste de viabilidade chamado Minimum Viable Product(MVP), que deve ser testado em potenciais clientes para que avaliem e deem retorno informando se comprariam ou não o serviço/produto e por quais motivos. Caso este teste não seja bem feito pode causar um viés na avaliação e subestimar o mercado potencial, ou levar o empreendedor a investir muito sem que haja demanda real.

Como deve ser esse MVP?
O teste do produto ou serviço tem deve ser muito próximo do modelo real, mas sem a necessidade de investir recursos e tempo em demasia. Durante a realização dos testes, verifique se as premissas de valor e benefício estão sendo percebidas pelo público-alvo.

Haroldo Eiji Matsumoto, fundador da Prosphera Educação Corporativa. Foto: Andreia Halliday

Como identificar brechas no mercado?
O empreendedor deve buscar as oportunidades na observação e contato com as pessoas, para que possa antecipar tendências. Por exemplo, a bola da vez é a alimentação saudável, que se tornou a necessidade prioritária de muita gente. Então, o empreendedor pode avaliar o que pode criar para aproveitar este momento.

Pode dar exemplos?
Montar um restaurante, fazer entrega de alimentos frescos e orgânicos, produzir cursos de gastronomia. Esses são apenas alguns exemplos de oportunidades e nichos que podem surgir a partir da brecha existente no segmento de alimentação.

Como quem quer empreender e busca ideia original deve observar o mercado?
Não é uma questão fácil. A pessoa pode ter experiência no segmento ou pesquisar e analisar o máximo possível para compreender a área na qual quer atuar. Entrar simplesmente porque acha que a ideia é boa ou acredita que terá chance é um erro que pode provocar prejuízo e frustração.

Como avaliar?
Verifique quem já atua no mercado e atende, de alguma forma, a ideia que teve. Essa dica impedirá a pessoa de menosprezar os atuais concorrentes e também irá permitir que adote as melhores práticas que já funcionam. Se detectar erros dos concorrentes, melhor ainda, pois servirão de alerta para não cometê-los. Procure escutar clientes insatisfeitos dos concorrentes, afinal, eles são o termômetro e podem dar indícios de novas demandas a serem atendidas.

Qual o passo seguinte?
Depois de ter a ideia e analisar o mercado, precisa verificar se há demanda para que possa criar um bom negócio. Há duas décadas, quem entrasse no mercado ‘sem glúten’ não teria demanda suficiente. Hoje, existe um mercado expoente. Além disso, para manter o negócio no mercado é preciso que haja boa dose de inovação e busca contínua de melhoria

BUROCRACIA CEDE ESPAÇO PARA APP

Cansados de guardar notas fiscais e de preencher planilhas de reembolso, e percebendo o tempo gasto pelos funcionários com esse processo burocrático, Thiago Campaz e Bruno Pain criaram a solução VExpenses.

O aplicativo facilita a gestão de despesas corporativas, permite que as empresas economizem tempo, fiscalizem gastos e controlem possíveis fraudes. “Eu trabalhava em uma consultoria e tinha de viajar bastante. No final do mês, perdia um dia inteiro para fazer a prestação de contas. Com o tempo, percebi que o procedimento sempre tinha problemas e as pessoas nunca sabiam se estavam recebendo o valor correto”, conta Campaz.

Thiago Campaz, fundador da VExpenses. Foto: Fernanda Vasconcellos

Ele afirma que a ideia do negócio surgiu para dar mobilidade aos profissionais que passam muito tempo fora do escritório. Com a solução, o funcionário faz a prestação de contas quando quiser e onde estiver.
O empreendedor diz que a ideia contou com o apoio dos sócios da consultoria, que fizeram o investimento inicial para o desenvolvimento da solução. “Vimos que havia oportunidade de mercado para criarmos a ferramenta que iria substituir o processo manual.”

A ideia virou realidade após a contratação de uma desenvolvedora de software, que fez um teste piloto na própria consultoria, comprovando que a ferramenta realmente funcionava. “Junto com os fabricantes de software criamos a VExpenses e começamos a comercializar o produto”, conta.

Hoje, a solução já tem 7,5 mil usuários que atuam em mais de 100 empresas de todo o País. “Os clientes pagam mensalidade de R$ 14 por usuário ativo. Atendemos desde multinacionais até empresas de pequeno porte”, diz.

Campaz afirma que o aplicativo pode ser utilizado em plataformas Web, Android e IOS. “Desenvolvemos todas essas plataformas de forma nativa, para que acompanhem as atualizações desses sistemas.”
Segundo ele, a ferramenta proporciona confiabilidade e melhor controle das prestações de contas tanto por parte da empresa quanto dos funcionários. “Ela também gera economia de custo ao evitar que a pessoa perca um dia por mês para fazer o processo manual.”

Campaz diz que o aplicativo é integrado aos principais sistemas de gestão (ERPs) do mercado, permitindo que as despesas sejam lançadas automaticamente no sistema financeiro da empresa.
Ele conta que estudos feitos com os usuários apontam economia de até 88% do tempo. “Esse cálculo inclui o tempo de quem lança as informações, de quem insere os dados no sistema e de quem aprova. As empresas ganham tempo e consequentemente, dinheiro.”

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