Empresas lucram com negócios de apelo social
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Empresas lucram com negócios de apelo social

Desejo de mudança vira estímulo para criar serviços que beneficiam as classe C, D e E

Redação

03 Agosto 2014 | 08h03

 

Cris Olivette

Mesmo tendo um negócio na área de promoção de eventos, Guilherme de Almeida Prado procurava uma atividade que tivesse um propósito maior. “A desigualdade social brasileira sempre me incomodou. Nos últimos anos, percebia que o aumento da renda e a facilidade de acesso ao crédito das classes C e D não refletiam, necessariamente, em uma vida financeira melhor”, afirma.

Partindo dessa reflexão, ele formatou e lançou o site Konkero, no qual ajuda pessoas de baixa renda a lidar melhor com o dinheiro. “Nossa inovação é falar fácil, somos tradutores de finanças. Já publicamos mais de mil matérias sobre finanças pessoais e produtos financeiros.”


Prado diz que somando os porcentuais de analfabetos funcionais com aqueles que têm alfabetização básica, 74% dos brasileiros não entendem o que o gerente do banco fala. Por isso, no site da Konkero esse público encontra orientações e dicas sobre como gastar menos, como negociar dívidas, entre outras.

Lançado em outubro de 2012, o site já teve 3,6 milhões de acessos. “Neste período, ensinamos 180 mil pessoas a preencher cheques. Por mês, respondemos cerca de 600 dúvidas.”

Ele diz que a rentabilização ocorre pela geração de leads. “A pessoa entra na Konkero para comparar taxas de cartão de crédito. De lá, entra no site de uma empresa de cartão. Somos remunerados por essa indicação. Agora, após ampliar a base de usuários, faremos parcerias com empresas que oferecem produtos financeiros.”

Assim como Prado, outros empreendedores que também querem contribuir para a melhoria da sociedade lançam negócios que geram impacto social. “Eles criam soluções escaláveis para resolver problemas enfrentados pela população de baixa renda. Só em 2013, identificamos 1,2 mil startups com essa característica”, diz o diretor de aceleração da Artemisia, Renato Kiyama. 

Segundo ele, a Artemisia é pioneira na disseminação e no fomento de negócios de impacto social no Brasil. “Nos últimos três anos, articulamos R$ 24, 8 milhões para 47 negócios que selecionamos para serem acelerados.” Além da Konkero, outra empresa que atua com objetivo social e também passou pela Artemisia é a Saútil, do médico Fernando Fernandes.

Ele conta que a sua vivência profissional o estimulou a criar o negócio. “Trabalhei muitos anos com prevenção domiciliar. Nesses atendimentos, sempre perguntava se os pacientes estavam tomando os remédios regularmente. Muitos, mesmo tendo plano de saúde, diziam não ter dinheiro para comprar os medicamentos.”

Da vontade de ajudar as pessoas a saberem mais sobre seus direitos, e de ensiná-las como funciona a retirada de remédios no Sistema Único de Saúde (SUS), surgiu a ideia de criar um buscador gratuito de serviços do SUS. O lançamento ocorreu em 2011, na capital paulista.

“No primeiro mês, tivemos dez mil acessos. Hoje, abrangemos quase todo o Brasil e mais de 1,6 milhão de pessoas já usaram os serviços. Nunca fizemos divulgação, o crescimento é orgânico. Mesmo assim, crescemos entre 40% e 50% ao ano, tanto em número de acessos quanto em faturamento.”

O serviço também divulga campanhas de vacinação e mutirões como os de mamografia. “O site tem um chat para o qual convidamos profissionais especializados para tirar dúvidas sobre diversos temas.”

Segundo Fernandes, o faturamento da empresa vem de um outro serviço oferecido à pacientes crônicos, a particulares e a funcionários de empresas. “Temos uma central onde enfermeiras orientam e controlam o tratamento por telefone e chat. Acompanhamos cerca de 20 mil vidas dessa forma.” Ele diz que outra fonte de renda vem de parcerias com prefeituras. “Neste caso, o município nos dá acesso às agendas de consultas, que podem ser confirmadas pelo site. Também nos dá acesso à quantidade de medicamentos em estoque e onde estão disponíveis. Assim, damos informações com mais qualidade aos cidadãos.”

Educação é opção para transformação

A vontade de transformar a realidade por meio da educação fez surgir a Edukar, de Roberto Tesch. Após trabalhar dez anos no mercado financeiro, o economista criou um modelo de negócio para que jovens possam obter diploma de nível superior.

“A Edukar oferece financiamento estudantil, acompanhamento de carreira e coach. Os recursos que proporcionamos também podem ser usados para pagar moradia, estudo de idiomas ou alimentação. Depende da necessidade de cada jovem selecionado”, explica. 

Segundo ele, o prazo de pagamento do financiamento é contado a partir da primeira contratação na carreira escolhida, e as taxas de juros podem variar de 0,5% a 12% da renda.

Ele diz que o Brasil é um dos países onde ocorre o maior salto de salário em função da educação. “Aqui, quem tem o ensino médio ganha cerca de R$ 16 mil por ano. Para quem tem diploma de ensino superior, a média sobe para R$ 42 mil. E se o diploma for de qualidade, a média atinge R$ 130 mil por ano.”

Tesch diz que o objetivo da Edukar é levar oportunidades para quem não tem acesso. “Atendemos, principalmente, vestibulandos e quem já entrou na faculdade e está com dificuldade para se manter. Com nosso apoio, essa pessoa poderá concluir a faculdade, ter ganho de salário e crescimento pessoal. E, então, ao devolver parte desse ganho, os investidores também serão beneficiados. O importante é calibrar de forma adequada do modelo de devolução.”

Em operação desde junho de 2012, a Edukar está atendendo 18 estudantes. “Captamos R$ 1 milhão com investidores anjo. Agora, negociamos com fundos de investimento a captação de R$ 15 milhões. No futuro, queremos constituir um fundo de educação para que cada pessoa física do País possa investir diretamente em educação.”

Ele diz que os bancos investem em crédito para educação, já a Edukar investe em educação. “São naturezas completamente diferentes. Eles não acompanham e não selecionam os estudantes, e cobram taxa fixa de juros. Nós investimos em quem tem determinação e potencial. Elementos necessários para o crescimento.”

Antes de se tornar empreendedor-chefe da Joy Street, Fred Vasconcelos, deixou a sociedade que tinha em uma empresa de jogos eletrônicos para se dedicar à nova empreitada. “O negócio nasceu com o objetivo de reduzir a taxa de desistência escolar, a pedido da secretaria de educação de Pernambuco”, conta.

Segundo ele, o primeiro passo foi formar um consórcio unindo empresas de jogos eletrônicos e profissionais de diversas áreas, que resultou na criação de uma plataforma de jogos digitais para ser usada como ferramenta de aprendizado em escolas públicas. “Fizemos um piloto em 2009, com 20 escolas. No ano seguinte, ampliamos para 1,1 mil escolas. Os resultados comprovaram que era uma boa proposta e criamos a Joy Street. Nosso objetivo é trazer as crianças de volta à escola, para isso oferecemos aprendizagem com diálogo e diversão.”

Segundo ele, o negócio obtém recursos com a venda de produtos para grandes players de educação do País, e para as secretarias municipais e estaduais de educação. “Também criamos a Olimpíada de Jogos Digitais e Educação (OJE), uma gincana virtual para alunos de escolas públicas e privadas, que está sendo usada por mais de 100 mil alunos e professores.”