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Estudo aponta oito campos para atuar na área de energia

Parceria entre Artemisia, Eletropaulo e AES Tietê pode ajudar a orientar investidores e nova geração de empreendedores

CRIS OLIVETTE

18 Março 2018 | 07h41

Fábio Carrara. Foto: Felipe Rau/Estadão

Oito oportunidades para empreender no segmento de eficiência energética foram identificadas em estudo feito em conjunto pela AES Tietê, Eletropaulo e a aceleradora de negócios de impacto social Artemisia.

Acesso à energia; geração e distribuição descentralizada de energia; inteligência de dados para eficiência energética; eficiência energética por meio da adequação de imóveis e equipamentos; eficiência energética na gestão e em equipamentos públicos; energia para produção no campo; meios de financiamento para acesso a serviços de energia não convencional; e capacitação e oportunidades para profissionais são as oportunidades detectadas.

Gerente de projetos da Artemisia, Paula Sato afirma que os parceiros do estudo esperam que o resultado obtido sirva de base para que quem quer investir no segmento, o faça com mais eficácia. “Esperamos que especialistas em energia, empresas, organizações sociais e uma nova geração de empreendedores identifiquem essas oportunidades e passem a fomentar mais esse campo.”

Paula Sato. Foto: Felipe Gabriel/Divulgação

Fundador da Solstar, o engenheiro Fábio Carrara, conta que o negócio criado há três anos passou, nos últimos seis meses, por uma transição. “Deixamos de ser apenas uma empresa de engenharia que implanta sistemas de captação de energia solar, para nos transformarmos também em uma empresa de serviços financeiros.”

Carrara diz que a Solstar oferece linha de financiamento inovadora para o mercado de energia solar no Brasil. “Antes, implantávamos a solução para que residências e comércios produzissem a própria energia. Agora, também oferecemos linha de crédito, porque muitos clientes não conseguiam implantar os projetos por falta de financiamento atrativo. Queremos democratizar o acesso de energia solar no Brasil.”

O empresário diz que tentou trabalhar com várias instituições financeiras, mas desistiu porque os juros seriam exorbitantes. “Os bancos não enxergam que esse é um crédito de muita qualidade, porque a pessoa que investe em um sistema de energia solar não precisa tirar dinheiro do salário para pagar o empréstimo, o próprio sistema gera economia e se paga.”

Segundo ele, o financiamento que oferece é acessível à baixa renda, por não comprometer a renda. “Quem paga R$ 100 de conta de energia, com a geração de energia solar passa a pagar R$ 80 pelo financiamento.”

Ele diz que o preço de um sistema pequeno é de R$ 10 mil. “No nosso modelo, a pessoa paga entrada de R$ 1 mil e o restante é pago com a própria economia de energia em 84 meses. A partir do sétimo ano, com a quitação do financiamento, o cliente deixa de pagar conta de energia pelos próximos 20 anos, no mínimo, pois a vida útil do sistema é acima de 30 anos, podendo chegar a 50.”

Além disso, o excedente de energia gerada é injetada na rede e vira crédito financeiro para o proprietário. “Como a conta de energia tem subido muito, além de gerar economia, a pessoa deixa de ter de arcar com os novos aumentos.”

Neste ano, a Solstar projeta financiar entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões. Para 2019, a projeção é alcançar R$ 100 milhões em financiamento. A receita da empresa vem da instalação do sistema de captação de energia solar e da taxa de juros dos financiamentos, que variam entre 1,1% e 1,4% ao mês.

Pedro Bittencourt. Foto: Rafael Morse/Divulgação

A GreenAnt, de Pedro Bittencourt, aposta no segmento de inteligência de dados para eficiência energética. Ele conta que a empresa opera desde 2016. “No momento, operamos mais em clientes corporativos como shoppings, redes de supermercado, empresas de logística etc. Mas sempre tivemos o viés de atuar também no segmento residencial.”

Bitteencourt desenvolveu um medidor de energia que é instalado na entrada do quadro de eletricidade da propriedade, junto aos disjuntores. “O equipamento manda os dados via Wi-Fi para nossa plataforma na nuvem e aplicamos uma série de algoritmos de inteligência computacional para gerar informações úteis para o consumidor sobre como ele pode economizar, ao identificar, em tempo real, os equipamentos que estão consumindo mais energia.”

O empresário afirma que está estudando forma de viabilizar o uso da plataforma na área residencial. “Queremos fazer parcerias com as distribuidoras de energia para atender todos os consumidores. Junto com a AES e Eletropaulo estamos desenvolvendo modelo para viabilizar o sistema de gestão energética com foco na baixa renda.”

No momento, a GreenAnt faz testes em residências de Niterói (RJ) e em dois condomínios Minha Casa Minha Vida instalados em Avaré e São José do Rio Preto, no interior de São Paulo.

“Fizemos a instalação nas casas para avaliarmos o impacto da informação sobre o consumo de energia, na mudança de hábito das pessoas. Queremos quebrar a caixa preta da conta de luz, porque com o aumento das tarifas as pessoas não sabem quanto irão pagar no final do mês. Ao fornecermos a informação em tempo real, os consumidores podem gerir o gasto.”

Empresa leva equipamento a comunidades do Rio

O aspecto social decorrente da democratização do acesso à energia solar foi o que inspirou Henrique Drumond e Michel Baitelli a criarem a Insolar.

Henrique Drumond. Foto: Shell Global

“Pensamos no potencial de impacto que a tecnologia teria para o País. Ao instalar energia solar em uma creche, por exemplo, durante mais de 30 anos a instituição não terá de pagar conta de energia”, diz Drumond.

Ele conta que a ideia surgiu em dezembro de 2013, durante uma maratona de negócios sociais realizada pelo Sebrae-RJ. “No ano seguinte, iniciamos um projeto piloto na comunidade Santa Marta, para avaliar a receptividade da população.”

A iniciativa teve apoio de empresas e órgãos do primeiro, segundo e terceiro setores, e do consulado da Alemanha. “A ideia deu tão certo que replicamos as instalações em praticamente todos os espaços comunitários do Santa Marta, como escolas, centros culturais e centros esportivos.”

Segundo ele, a receita da Insolar vem da instalação de sistema de energia solar em residências e empresas, sendo que parte do faturamento é revertido ao projeto. Ele diz que acaba de obter apoio do fundo socioambiental da Caixa Econômica para expandir a ação para mais 14 comunidades do Rio de Janeiro.

“Com esse apoio pudemos, finalmente, implementar nosso modelo de negócio, agora com foco nas empreendedoras dessas comunidades. As novas instalações não serão mais patrocinadas, pois elas terão financiamento subsidiado.”

Ele explica que as beneficiárias poderão pagar o equipamento com o dinheiro que seria usado para pagar a conta de luz. “Para ganhar escala, não dá para oferecer o sistema de forma gratuita. Oferecer financiamento subsidiado é o modelo que consideramos economicamente viável, sustentável e escalável.”

Drumond afirma que esse tipo de iniciativa gera uma injeção direta de receita no capital de giro desses estabelecimentos. “É um meio de promover prosperidade, principalmente em territórios de vulnerabilidade. Além de ter o aspecto de proteção ambiental.”

Segundo ele, esses locais têm enorme potencial humano, social e tecnológico. “Percebemos que o potencial fica ainda maior quando levamos tecnologia de ponta de maneira acessível.”

Ele afirma que está em tratativas com a prefeitura de São Paulo para iniciar projetos semelhantes na cidade. “Também estamos conversando com BNDES e outras organizações para viabilizarmos linhas de crédito atrativas”, conta.

‘TIJOLO’ DE GESSO TRAZ CONFORTO TÉRMICO

Doutor em ciência e engenharia de materiais pela Universidade de São Paulo, Hebert Luis Rossetto se associou a Frank Souza para criar a Neogyp Construção, Tecnologia e Inovação com o objetivo de viabilizar o uso de alvenaria estrutural de gesso nos processos construtivos.

Frank Santos de Souza. Foto: Francinei Santos de Souza/Divulgação

Souza explica que o acadêmico criou novo método para processar o gesso que resulta em elevada resistência mecânica e à umidade. O produto proporciona maior conforto termoacústico e reduzi a temperatura interna das edificações em até 10 graus, segundo ele, proporcionando economia de eletricidade, ao reduzir o uso de ventiladores e ar-condicionado. É ideal para regiões com temperatura elevada.

“Os custos da construção também são reduzidos em até 30%, bem como o prazo de entrega, que é 75% menor que o tempo de uma obra convencional. Além de diminuir a geração de resíduos sólidos, pois os resíduos de gesso podem ser reaproveitados infinitamente.”

Segundo ele, a empresa tem por objetivo ser uma alternativa sustentável na cadeia produtiva da indústria da construção civil. “Estamos no estágio de homologação do produto e tentando colocá-lo no mercado de Tocantins. A certificação é importante para a concessão de financiamento dos imóveis”, diz.

Souza afirma que a dificuldade maior ainda é a barreira cultural, porque a matéria-prima sempre foi menosprezada. “As pessoas acreditam que gesso derrete, não suporta água, os estudos confrontam essa crença e provam o contrário.”

Ele conta que a empresa foi selecionada para participar do programa Conexões Startups e Indústrias. “Várias indústrias apresentaram suas demandas tecnológicas e foram conectadas às startups que estão desenvolvendo novas tecnologias. Nós fomos selecionados pela Dow Química do Brasil, que tem um braço que desenvolve materiais sustentáveis para a construção civil.”

Souza conta que junto com a Dow, a Neogyp está desenvolvendo uma prova de conceito que já obteve alguns resultados que comprovam que alvenaria de gesso faz sentido para a construção civil.

“A proposta da multinacional é desenvolver componentes para agregar ao nosso material, como argamassa e revestimentos. Após testar o uso conjunto de nossa alvenaria com os materiais produzidos empresa, eles deverão lançar sistema construtivo completo incluindo tintas, telhados, pisos etc.”