Garagem é ponto de partida para o início de muitos negócios
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Garagem é ponto de partida para o início de muitos negócios

Pessoas com poucos recursos adotam essa opção para começar um empreendimento; quem já está no mercado aprova o modelo

CRIS OLIVETTE

08 Abril 2018 | 07h50

Elisabete Monteiro. Foto: Nayara Pires

Neste ano, a Feira do Empreendedor, que ocorre até a próxima terça-feira, 10, no Pavilhão de Exposições do Anhembi, conta com o espaço ‘negócios de garagem’, no qual consultores do Sebrae estarão dando orientações a quem vai empreender em espaço reduzido.

“Essa é a realidade de muitas pessoas que não têm recursos para criar um negócio e aproveitam a própria casa para começar”, diz a analista de negócios do Sebrae, Carina Tasaka.

Inaugurada há dois meses, a Mercearia Vieira’s, de Cilsa Sandra Silva dos Santos, nasceu dessa maneira. “A garagem de casa estava alugada para uma igreja, mas como eles entregaram o espaço e eu estava desempregada há bastante tempo, meu marido e eu resolvemos montar um mercadinho no local.”

Administradora, Cilsa trabalhava como auxiliar administrativa. “Meu marido é motorista e sempre sonhou em montar um mercadinho para nós. Agora, me ajuda nas horas vagas.”

Moradora de Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, ela aposta na conveniência do ponto para atrair a freguesia. “Aqui, tudo fica longe. Começamos oferecendo itens da cesta básica, alguns produtos congelados e material de limpeza. Nos primeiros dias, pegamos 30 pãezinhos na padaria para revender. Hoje, estamos vendendo 150 pães por dia. Acho que esse número representa um grande avanço”, avalia.

A empresária pretende instalar mais prateleiras para que possa ampliar o sortimento de produtos, além de comprar um freezer para oferecer mais opções de congelados.

Cilsa levou um ano para montar o negócio. “Compramos as prateleiras, pagamos, depois compramos a máquina de frios. Por último, compramos os produtos e abrimos as portas. A experiência está sendo uma grande surpresa, porque eu não imaginava que teria um relacionamento tão bom com o público.”

Cilsa Sandra Silva dos Santos. Foto: Paulo Vieira/Divulgação

Em estágio mais avançado está a marca Tio Coxinha, criada em 2013 por Elisabete Monteiro. O negócio nasceu na garagem de sua casa, em Caraguatatuba.

Elisabete era promotora de vendas em supermercado e sonhava em montar um negócio. “Como tenho talento para cozinha, comecei a fazer trufas que eram vendidas em alguns pontos do comércio local. A ideia da coxinha surgiu depois que fiz salgadinhos para a festa de 15 anos da minha filha.”

Logo depois da festa, ela diz que seu marido soube que havia uma máquina para rechear e formatar salgados como coxinha e bolinhas de queijo. “Financiamos um equipamento e passamos a vender mini salgados na Feira do Rolo de Caraguatatuba. Foi um sucesso. Só tiramos dinheiro do nosso bolso para pagar a primeira parcela, depois, o faturamento foi suficiente para pagar o financiamento.”

Elizabete diz que a máquina fazia três mil salgados por hora. “Com o tempo, compramos mais máquinas e aumentamos a produção. Também saímos de casa e fomos para um pequeno galpão. Depois, construímos uma fábrica com espaço cinco vezes maior.”

Hoje, a marca produz 150 mil salgadinhos por dia e emprega 13 pessoas. “Chegamos a ter três lojas próprias. Mas o nome ficou muito forte no Litoral Norte e muitas pessoas nos procuraram para vender o produto com a nossa marca. Há um ano, começamos a franquear. Agora, temos uma loja própria e 13 franqueadas no Litoral Norte e no Vale do Paraíba.”

Em Heliópolis, na capital, Enilson da Rocha Guimarães e Vanessa Dantas da Silva, criaram a lanchonete Mega Burguer, depois de terem passado dois anos fazendo salgadinhos na cozinha da casa onde moram.

“Com o aumento das vendas, pudemos alugar a garagem de um vizinho e montamos uma pequena lanchonete, há dois anos. Com o tempo, passamos a oferecer, além de salgados, lanches variados, beirutes e fogaças, porque o público pediu mais variedades”, diz Enilson.

O empresário conta que conheceu sua mulher quando trabalhavam em uma lanchonete. “Eu trabalhei 23 anos como empregado e a Vanessa, seis anos. Nós dois tínhamos o sonho de ter negócio próprio, quando ficamos desempregados resolvemos apostar nessa ideia.”

Cuidados. A consultora do Sebrae Mariane Primazelli afirma que o primeiro passo para empreender na garagem é a formalização do negócio.

“É importante porque, entre outros motivos, e a lei de zoneamento urbano define algumas áreas como estritamente residenciais. Ao iniciar um negócio, mesmo não estando formalizado, poderá ter problemas. É preciso procurar a prefeitura para saber sobre a lei de zoneamento, porque essa informação ainda não está integrada com o Portal do Empreendedor.”

Ela afirma que ao montar o negócio na garagem de casa, o empreendedor deve fazer entrada separada para a residência. “Também deve pensar na roupa que vai usar para trabalhar e estabelecer horário de funcionamento, que deve ficar exposto em local visível, na fachada do estabelecimento, incluindo os seus contatos.”

Mariane destaca a importância de prestar atenção ao controle financeiro e manter separadas as finanças da empresa e os gastos pessoais.

Empresas adaptam produtos para atender os pequenos

O crescimento no número de empreendedores que começam a jornada empresarial em pequenos espaços dentro de suas próprias casas fez com que empresas como a FC Gôndolas, que fornece prateleiras e gôndolas para supermercados, e a Bralyx, fabricante de maquinas para salgados e doces, adaptassem os seus produtos para atender esse público.

Eduardo Zanardo. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Eduardo Zanardo, um dos sócios da FC Gôndolas, conta que estava acostumado a fabricar equipamentos mais pesados, porque o foco do negócio eram os grandes supermercados, portanto, as gôndolas tinham de aguentar mais peso.

“Quando começamos a receber demanda de pequenos, percebemos que era possível reduzir a espessura da chapa e dos demais itens. Isso foi importante porque pudemos reduzir o custo e, consequentemente, atender mais empreendedores”, afirma.

Segundo ele, os pedidos de pequenos costumam ser feitos a partir de R$ 4 mil. “Como nosso produto pode ser dividido em módulos, muitos clientes compram uma parte, pagam e depois compram mais itens. Eles não gostam de contrair dívidas”, ressalta.

Zanardo afirma que o segmento representa 60% da receita atual da empresa. “Hoje, o negócio vive do fornecimento para pequenos. Dos grandes, estamos fugindo, porque eles faturam os pagamentos para até 120 dias, não temos condições de esperar tanto. Esse prazo leva a empresa para o buraco. Os pequenos pagam à vista, no cartão de crédito e alguns usam cartão do BNDES”, conta.

As maiores demandas da FC Gôndolas são de empreendedores que querem montar lojas de doce, mercadinho, loja de R$ 1,99, pet shop e farmácias de bairro. “São negócios, em geral, instalados em espaços de 4 m X 4 m”, diz. A empresa participará, pelo terceiro ano consecutivo, da Feira do Empreendedor.

Gerente de marketing da Bralyx, Vanessa Camunhas conta que a empresa trabalha com linha completa de máquinas para a fabricação de salgados e doces. “Temos máquinas que preparam a massa, chamadas masseiras, mas o carro-chefe é a máquina que formata e recheia os salgados. Este é o equipamento que mais atrai os pequenos empreendedores”, afirma.

A marca tem modelos compactos tanto de masseira quanto de formadora/recheadora, que ocupam pouco espaço e podem ser usadas em uma bancada ou até mesmo sobre a pia da cozinha.

“A formadora compacta pode fazer até dois mil salgados por hora. Também temos uma empanadeira que completa a linha voltada aos pequenos empreendedores mas, geralmente, quem está começando prefere empanar na mão.”

A gerente diz que as versões compactas começaram a ser fabricadas depois que a empresa participou da Feira do Empreendedor pela primeira vez, em 2014.

“Criamos a Picolina e a Picola. As duas, em termos de produção, fazem a mesma quantidade, mas a Picolina faz salgados menores, de até 45 gramas. Enquanto a Picola faz salgados de até 180 gramas, comuns nas vitrine de lanchonetes.”

Vanessa diz que a Picola foi lançada no evento de 2015 e a Picolina na feira de 2016. “Ambas têm preços a partir de R$ 17,6 mil e a masseira custa a partir de R$ 9,9 mil.” Segundo ela, o porcentual de participação das vendas de máquinas pequenas na receita mensal da empresa representa 20%.

A gerente conta que a Bralyx estará na Feira do Empreender apresentando uma novidade. “Desenvolvemos uma máquina pequena que tem um kit que permite montar salgados com dois recheios, como coxinha com catupiry, por exemplo. A novidade segue a tendência da marca de apoiar e dar versatilidade para quem está começando um negócio”, afirma.