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Horário flexível leva mulheres aos negócios

Pesquisa aponta que vontade de ter mais tempo com a família impulsiona decisão

Claudio Marques

04 Março 2018 | 07h07

Márcia Delatorre. Foto: Hélvio Romero / Estadão

Estudo da Rede Mulher Empreendedora (RME), entidade de apoio ao empreendedorismo feminino, aponta que a cada 100 empresas abertas no Brasil, 52 são lideradas por mulheres.

A pesquisa, realizada em agosto e setembro de 2017, indica que 79% delas possuem nível superior ou mais, 55% têm filhos, 44% são chefes de família, 61% são casadas e a idade média ao empreender era 38,7 anos.

O estudo ouviu 1.365 empreendedoras de todo o Brasil e também apurou o motivo que levou essas mulheres a criarem o negócio. A flexibilidade de horário impulsionou 50% delas e 30% alegaram o desejo de ter mais tempo com a família.

“É importante deixar claro que a busca por flexibilidade de horário e o desejo de estar mais perto da família e dos filhos é quase uma pegadinha. Eu passei por isso e desde então, acompanho esse movimento de mulheres deixando o mundo corporativo para abrir o próprio negócio”, conta a fundadora da RME, Ana Fontes.

De acordo com ela, a flexibilidade de horário é um fato, mas em pouco tempo as empreendedoras constatam que para o negócio dar certo devem se dedicar e trabalhar muito.

“Independentemente do tempo de dedicação ao negócio, as mães empreendedoras conquistam liberdade para administrar o tempo. Hoje, tenho a flexibilidade, mas também a responsabilidade e preciso compensar momentos de ausência de alguma forma, porque o negócio depende de mim.”

Antes de se tornar franqueada da Casa de Bolos, a administradora Márcia Delatorre atuou no mercado formal por 22 anos. “Eu liderava equipe com 70 pessoas na área de facilities. O ambiente era um pouco hostil, com muitas cobranças e pouca flexibilidade.

Eu estava na segunda gestação e sabia que as coisas ficariam mais complicadas quando o bebê nascesse. Empreender foi uma alternativa.”

Márcia diz que realmente conquistou mais tempo com a família. “Foi uma mudança positiva. É claro que ter menos trabalho não costuma acontecer com quem empreende, mas tenho muito mais flexibilidade e posso estar com meus filhos quando há uma necessidade maior. Também podemos tirar momentos de descanso em dias alternativos, coisa que no mundo corporativo não seria possível.”

A empresária diz que o sonho de empreender atingiu várias pessoas da família. “Hoje, minhas duas irmãs, meu irmão, meu marido e meu cunhado estão no negócio. Temos cinco unidades. Trabalhamos juntos e crescemos juntos.”

Márcia aplicou a experiência corporativa ao negócio, para que a operação ficasse bem estruturada. Segundo ela, quem pensa em empreender costuma ser alguém que gosta de desafios. Ela recomenda que antes de definir a área de atuação, a pessoa avalie bem o que quer e busque muitas informações.

“Para tocar o negócio é preciso grande dedicação, muito foco, amor e respeito pelo que faz. Uma coisa é estar no mundo corporativo e receber relatórios prontos para analisar, outra é ser dona de um negócio e, caso seja necessário, estar disposta até a lavar o banheiro, porque no começo não dá para escolher as tarefas. Tem de ter estrutura emocional. Também é importante não focar na questão financeira. Se preocupe em desempenhar um bom trabalho, porque o resultado financeiro é consequência disso.”

Lívia Grees. Foto: Rodrigo Escarlate

Lívia Gress de Oliveira aproveitou o período de licença maternidade para elaborar o seu plano de negócio. “Durante a licença, o mercado de trabalho no Rio de Janeiro ficou muito ruim, principalmente na área de óleo e gás, na qual eu atuava”, conta a franqueada da escola Makevator Service. “Muitas pessoas foram demitidas e concluí que era grande a chance de ser dispensada quando retornasse ao trabalho. Vi que era o momento de dar um rumo diferente à minha carreira para ter mais tempo para acompanhar o crescimento da minha filha.”

Hoje, ela tem a possibilidade de distribuir o seu tempo como lhe convém. “Não que eu tenha mais tempo, mas tenho como me organizar melhor. Fico com minha filha parte da manhã, antes de levá-la à creche. Quando ela tem médico, não preciso pedir autorização para ninguém para levá-la à consulta, basta remanejar minha agenda, porque como dona do negócio devo estar sempre presente.”

Ela diz que está satisfeita com a escolha. “Também posso acompanhar meu marido em algumas viagens profissionais, coisa que antes era impossível. Mas minha dedicação é muito maior. Costumo trabalhar aos sábados, em alguns dias fico até às 22h na loja e uso os domingos para fazer pauta de reunião.”

Lívia conta que o carro-chefe da Makevator é a formação profissional em maquiagem, mas também oferece cursos de designer de penteados e de sobrancelhas, alongamento de cílios e cursos de aperfeiçoamento em todas essas áreas.

Segundo ela, a opção por essa área de atuação ocorreu porque já tinha feito curso de maquiagem. “Nos finais de semana, já estava atuando como maquiadora em ensaios fotográficos e produtoras, e também atendia clientes particulares. Investi no mercado da beleza porque é um trabalho que me traz satisfação pessoal e profissional, sensação que já tinha perdido na área em que atuava.”

MÃE VIRA EMPRESÁRIA  PARA FICAR PERTO DO FILHO

Em 2009, com o nascimento de seu filho, Walesca Pinheiro Soares teve de repensar sua vida profissional. “Trabalhava no centro da cidade e morava na Barra da Tijuca. Perdia muitas tempo no trânsito. Além disso, não tinha hora para sair do trabalho”, conta.

O desejo de conviver com o filho e acompanhar seu crescimento, reascendeu nela um antigo desejo de empreender. “A escolha do negócio surgiu por acaso, quando procurava um imóvel maior para comprar e vi a planta do Shopping Metropolitano. Fiquei muito interessada em adquirir um espaço para montar uma loja.”

Walesca Pinheiro Soares. Foto: Andressa Fernandes

Conversando com o corretor, ele sugeriu que ela fizesse pesquisa na lista de marcas da Associação Brasileira de Franchising. “Busquei uma marca que não tivesse unidades no Rio de Janeiro e encontrei a Calçados Bibi. Fomos visitar a sede da empresa em Parobé, no Rio Grande do Sul, e voltamos com contrato assinado para montarmos duas lojas, uma no Shopping Metropolitano e outra no Barra Shopping.”

Hoje, ela e o marido administram quatro lojas da marca. “Ele cuida da gestão financeira e eu faço gestão de pessoas, treinamento, análise de estoque etc. Também faço parte do conselho administrativo da Bibi.”

Walesca diz que com o tempo, o casal aprendeu a delegar. Agora, contam com gerentes de confiança e supervisora que visita as lojas semanalmente para olhar números, verificar desempenho, realizar reuniões etc.

“A gestão é o segredo do negócio. Nosso dinheiro está no estoque, é preciso administrar bem e verificar o que não está girando, além de repor os produtos com boa saída rapidamente, para não perder vendas.”

A empresária afirma que hoje, pode participar de reuniões de pais, levar o filho ao médico sem precisar dar maiores satisfações. “Quando ele fica doente, posso me dar ao luxo de ficar com ele. A flexibilidade também beneficia o casal e podemos ir ao cinema durante a semana, ou jantar fora.”

Aceleradora e financiadora só para os negócios delas

CEO da Gradual Investimentos, Fernanda de Lima diz que é a única mulher dona de uma corretora de valores no Brasil. Recentemente, ela se uniu a Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, para criarem a aceleradora e financiadora W55, que vai capacitar, acelerar e financiar empresas fundadas ou lideradas por mulheres.

Ana Fontes (à dir.) e Fernanda de Lima. Foto: Leonardo Soares

“A iniciativa envolve o lançamento de fundos de private equity, os primeiros do Brasil criados com o objetivo exclusivo de fomentar recursos de médio e longo prazos para empresas com este perfil”, afirma Fernanda.

Segundo Ana, a W55 é um negócio complementar a Rede Mulher Empreendedora e que o primeiro edital será lançado neste mês. “Em breve, faremos a chamada da primeira turma de aceleração de mulheres. Vamos começar com seis empreendedoras, pelo período de seis meses. A segunda turma, talvez, tenha uma quantidade um pouco maior de empresárias.”

Ana diz que ao final da aceleração, as empresárias estarão preparadas para receber recursos. “Quem passar pela aceleradora pode ou não receber aporte, depende do estágio do negócio, assim como as empresas que não passarem pela aceleradora poderão pleitear recursos. São atividades separadas”, conta.

Segundo ela, está havendo crescimento significativo de mulheres interessadas em empreender na área de tecnologia. “Queremos mais mulheres no empreendedorismo de alto impacto, esse é o nosso desafio.”

Perfil. Formada em economia e matemática, com especialização em estatística, Fernanda acumula mais de 25 anos de experiência no mercado de capitais, nove deles no exterior.

A executiva participa do grupo Mulheres do Brasil, que reúne empresárias e lideranças femininas que realizam iniciativas pelo empoderamento feminino, diversidade e responsabilidade sócio ambiental.

A trajetória de Fernanda na luta pelos direitos das mulheres começou na década de 1990, quando liderou o Movimento das Mulheres do Centro Financeiro de Londres, que reivindicava a criação de espaço para abrigar os filhos de executivas que trabalhavam como gestoras nas grandes companhias.

Ao voltar para o Brasil, fundou o site InfoMoney, portal gratuito dedicado à educação financeira e orientação ao pequeno investidor, hoje controlado pela XP Investimentos.

Fernanda diz que muitas vezes a empreendedora pede para um homem ser responsável pela parte mais burocrática da empresa, como o departamento financeiro e RH. “Por isso, defendo a disseminação da educação financeira como fator fundamental para a independência e o empoderamento feminino.”