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Impacto social voltado à área de saúde

Empresas nascentes que desenvolvem produtos e serviços inovadores e de baixo custo passam por programa de aceleração

CRIS OLIVETTE

20 Agosto 2017 | 07h33

Caio Moreira Guimarães . Foto: Felipe Gabriel

No Brasil, o segmento de saúde vive uma revolução, aponta mapeamento setorial feito pela aceleradora de negócios de impacto social Artemisia. O estudo identificou a existência de 171 empresas nascentes, muitas das quais usam tecnologia para oferecer serviços e produtos voltados à saúde e bem-estar.

“Esse segmento tem se mostrado um campo fértil para o empreendedorismo e novos modelos de negócios estão sendo criados para complementar ou qualificar a oferta pública”, diz a diretora, Maure Pessanha.

Para impulsionar essas iniciativas a entidade realiza em parceria com o Instituto Sabin, o Artemisia Lab. “Das 171 empresas mapeadas, selecionamos 17 para participarem do programa.”

Entre as startups que acabam de passar pelo Artemisia Lab está a Beone Tech, que desenvolveu tecnologia voltada aos portadores de diabetes que sofrem com feridas que não cicatrizam.

O produto da Beone trata feridas do “pé diabético” e evita amputações. “Esse problema não tinha solução eficaz, apenas tratamentos meramente paliativos. O paciente fica com a ferida aberta por meses, uma porta de entrada para bactérias. No mundo, 100 milhões de pessoas sofrem com o problema e estão prestes a perder membros”, diz o ex-aluno de engenharia elétrica da Universidade de Pernambuco, Caio Moreira Guimarães, que deixou o curso para empreender.

“Em 2013, fui para Nova York me especializar em engenharia bioelétrica, área que une engenharia e medicina”, explica.

Nos Estados Unidos, trabalhou no laboratório Wellman Center. “A unidade é uma fusão da escola de medicina de Harvard com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e desenvolve tecnologias para a área médica.”

Guimarães desenvolveu pesquisa usando plataforma de tratamento de fotobiomodelação. “Trata-se do uso de luz, ou seja, de comprimentos específicos de ondas eletromagnéticas que conseguem dar comandos genéticos ao tecido e matar bactérias e micro-organismos presentes em infecções e ferimentos.”

O trabalho rendeu prêmio de inovação de Harvard e MIT. “Em 2014, voltei ao Brasil e montei uma equipe de pesquisa multidisciplinar para prosseguir o estudo, com foco no tratamento de “pés diabéticos”.”

Segundo ele, a diabetes é a maior causa de amputações de membros no mundo. “Em 2015, criamos a Beone Tech para começar a gerar impacto de verdade, porque o produto tem potencial de ajudar muita gente.”

Após ensaios clínicos realizados em hospitais, a tecnologia está pronta para chegar ao mercado. “Os resultados foram melhores do que esperávamos. Falta, apenas, registro da Anvisa.”

Segundo ele, uma empresa holandesa desenvolveu o designer e o conceito de viabilidade junto com sua equipe. “O paciente coloca o pé dentro do equipamento e realiza algumas seções por semana. Em 13 semanas, no máximo, a ferida estará fechada”, afirma.

Inicialmente, a ideia é vender o produto para hospitais e clínicas. “Dentro de cinco anos pretendemos vender para o paciente final, pois o preço será muito justo e acessível.”

Ele afirma que passar pelo Artemisia Lab foi um estímulo para que eles resolvessem pendências para a fabricação do produto.

Guimarães diz que não tinha noção do impacto social que a solução causaria nos pacientes. “Com a eficácia do tratamento, o paciente muda sua perspectiva de vida e volta a ter esperança de ter uma vida normal, também se interessa por fazer dieta e cuidar melhor da saúde.”

Onício Leal Neto (à esq.) e Jones Albuquerque. Foto: John Snow/Divulgação/Epitrack

A Epitrack, de Onício Leal Neto e Jones Albuquerque, também passou pela Artemisia. O primeiro produto da empresa foi o aplicativo Saúde na Copa, utilizado oficialmente pelo Ministério da Saúde na Copa do Mundo de 2014.

O app tem como base de trabalho o crowdsourcing – a construção da informação feita de maneira coletiva pelos usuários. “O objetivo era identificar, antecipadamente, epidemias que por ventura viessem a ocorrer no mundial. No mesmo ano, lançamos produto semelhante nos Estados Unidos e Canadá, para identificar epidemias de influenza”, diz Leal Neto.

Segundo ele, passar pela aceleração foi importante para reformular o modelo de negócio. “Desenvolver app voltado apenas aos governos envolve riscos. Formatamos um novo produto que será lançado neste ano.” O aplicativo batizado de Clinio é direcionado para consulta médica (R$ 79) em domicilio.

“A solução também permite a construção coletiva de informações sobre saúde em uma região, com base nos dados inseridos pelos médicos que atendem pelo app”, diz.

A Epitrack pretende vender os dados coletados nas consultas às empresas da cadeia de valor de saúde. “Os dados são analisados por meio de inteligência artificial que extrai informações que evidenciam o cenário de saúde de cada região.”

Tese inspira a criação de produto

A Pickcells, de Paulo Melo e cinco sócios nasceu da tese de mestrado de André Caetano. “Ao ver como funcionava o processo de análise para detectar esquistossomose, achou o método atrasado e teve a ideia de automatizá-lo. Ele fotografou as lâminas do microscópio e aplicou a técnica ‘visão computacional’ nas imagens”, conta Melo.

Paulo Melo. Foto: Felipe Gabriel

Ele afirma que após tirar várias fotos de um agente causador de doença é possível ‘treinar’ o software para quando encontrar um objeto com tais características contorná-lo com um quadrado.

Desenvolvemos um equipamento para substituir o microscópio. Nossa câmera fotografa a lâmina, envia a imagem para a nuvem e o software identifica, marca e quantifica o patógeno.”

Até agora, a Pickcells pode identificar o ovo de Schistosoma que causa a esquistossomose e larvas do Trypanosoma cruzi, causador do mal de chagas. “Vamos incluir outras doenças negligenciadas como malária e tuberculose.”

Melo diz que doenças negligenciadas são as que não despertam interesse de laboratórios e os governos não tratam com prioridade, pois muitas são causadas por falta de saneamento básico e afetam, principalmente, a população de baixa renda.

Segundo ele, a plataforma permite o diagnóstico automatizado de forma rápida e precisa em tempo real e com baixo custo. “A solução propicia a otimização da rotina de trabalho e redução de custos em laboratórios de análises clínicas e demais serviços de saúde. Como nossa inteligência está na nuvem, podemos ter um equipamento na África fotografando as lâminas e um médico no Brasil dando o diagnóstico.”

A receita da empresa deve vir da venda da solução para laboratórios públicos e privados. “Passar pelo Artemisia Lab foi uma grata surpresa, pois nos descobrimos como negócio de impacto social. O acesso a exames de baixo custo evita complicações e mortes e impacta diretamente as regiões vulneráveis.”

‘Nosso objetivo é acelerar desenvolvimento do negócio’

A parceria da Artemisia com o Instituto Sabin teve inicio em 2014 e resultou na criação do programa de mentoria e aceleração Artemisia Lab. Nos dois primeiros anos, o programa realizou eventos voltados ao ecossistema de saúde para conectar os diversos atores. Em 2017, as entidades selecionaram 17 negócios de impacto social em fase inicial, que atuam na área de saúde. A seguir, a diretora executiva da Artemisia, Maure Pessanha, conta como o programa funciona.

Maure Pessanha. Foto: Léo Canabarro

Qual foi o critério usado para selecionar as startups?
Na análise dos negócios que foram mapeados no Artemisia Lab: Saúde e Bem-Estar, identificamos 171 empresas e nossa equipe voltou o olhar para soluções de prevenção e bem-estar. Na prática, a busca focou startups inovadoras que apresentassem soluções com potencial de qualificar e/ou complementar a oferta pública oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Quanto tempo dura?
Nosso programa é realizado ao longo de seis semanas. Ele é dividido em dois workshops presenciais e dois webinars (web conferência) temáticos.

O que é oferecido?
Nosso objetivo é acelerar o desenvolvimento do negócio. Avaliamos o modelo de negócio e oferecemos ferramentas e conteúdos com o propósito de promover a reflexão sobre o impacto que a solução se propõe a causar. Discutimos mecanismos para que o negócio se torne mais eficiente e assertivo na resolução do problema da saúde, olhando para o cliente, usuário e para sua proposta de valor, bem como o modelo de receita. Também estabelecemos conexão com especialistas de negócios e troca com empreendedores da nossa rede.

Quando foi o encerramento?
O último workshop foi realizado em São Paulo nos dias 10 e 11 de agosto. Neste encontro, selecionamos três negócios de destaque que continuarão recebendo mentorias feitas por membros da equipe Artemisia. Os selecionados são: Beone Tech, Pickcells e Fófuuu.

O número de soluções de impacto social na área de saúde está aumentando realmente? O motivo é a crise?
Novos modelos vêm surgindo nos últimos anos e podemos cruzar essa tendência com a situação que vivemos no País. Vemos um impacto significativo causado pelo desemprego, que fez milhões de pessoas perderem planos de saúde privados. Em um ano, aproximadamente 1,6 milhão de brasileiros deixaram de ter planos de saúde. Além disso, esses planos tiveram reajuste de 16%, sendo que há três anos eles lideram o ranking de reclamações por conta da insatisfação com os serviços prestados.

Então o cenário é propício?
Diante de um cenário desafiador como este, surgem oportunidades de desenvolvimento de negócios de impacto social que tragam acesso a serviços de saúde com preços acessíveis, atendendo uma população que hoje está desatendida pelos planos e que, em muitos casos, não querem enfrentar as dificuldades do SUS. Este é o ‘poder de escolha’ que trabalhamos para oferecer à população de menor renda. Dessa forma, pacientes mais vulneráveis podem optar se querem ser atendidos no SUS ou em um serviço privado de qualidade, baixo custo e com formas diferenciadas de pagamento.