Inovação é  chave para  negócio ser ‘escalável’
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Inovação é chave para negócio ser ‘escalável’

Para crescer ao longo do tempo de forma sustentável empresas recorrem a ineditismo

CRIS OLIVETTE

16 Abril 2017 | 07h47

Caio Bonatto. Foto: Marina Bassfeld

Caio Bonatto. Foto: Marina Bassfeld

O termo scale-up caracteriza empresas que crescem continuamente ao longo do tempo e de forma sustentável. “Esse crescimento é possível porque o empreendedor criou um produto inovador ou desenvolveu um modelo de negócio inovador. Isso significa que ele não está apenas surfando em uma onda ou em uma conjuntura econômica”, diz o diretor geral da Endeavor – organização que apoia empreendedores de alto impacto –, Juliano Seabra.

A Tecverde, de Caio Bonatto e dois sócios, está enquadrada nesse modelo. A ideia surgiu em 2009, quando cursavam engenharia e criaram um projeto para inovar o processo de construção civil. “Vislumbramos os desafios da área relacionados à mão de obra, excesso de resíduos, desperdício e ineficiência gigantesca, e trabalhamos para mudar essa realidade.”

O negócio, que começou com seis pessoas e capacidade de produzir 12 casas por ano, emprega atualmente 250 funcionários e produz três mil casas por ano. “Viemos dobrando de tamanho nos últimos anos.. Neste ano, nossa projeção é de mantermos esse patamar.”


Fundada em 2012, a Pitzi do americano Daniel Hatkoff, entrou em operação tendo apenas ele na atividade. Hoje, emprega 110 pessoas. “Sempre crescemos entre 10% e 20% ao mês, desde a fundação. “Em 2016, a empresa triplicou em termos de número de clientes e também de faturamento”, afirma ele, que no entanto não revela o faturamento.

A ideia do negócio surgiu quando Hatkoff passava férias no Brasil. “Vi que as pessoas aqui têm celulares muito caros e quando acontecia algum problema o aparelho ficava muito tempo na assistência técnica. Acabei desenvolvendo o negócio que tem como objetivo oferecer agilidade nesse processo”, conta. (Mais informações no texto abaixo).

Juliano Seabra. Foto: Ana Paula Figuiroa

Juliano Seabra. Foto: Ana Paula Figueroa

Seabra ressalta que além de manter crescimento contínuo, esse desempenho também deve ser alto e se estender ao longo de muito tempo. “Normalmente, são negócios à prova de crise. Além disso, muitas dessas empresas conseguiram se reinventar, desenvolver produtos novos e reformular o modelo de atuação, o que deu a elas um nível de vantagem competitiva.”

Bonatto, por exemplo, conta que o modelo de negócio da Tecverde tornou o segmento da construção civil uniformizado e sustentável. “Construímos casas e prédios em fábrica, da mesma forma que uma montadora monta um carro. Fornecemos edificações de qualidade, incluindo casas para o público de baixa renda, com o dobro de conforto térmico e acústico, e em uma velocidade maior que a de uma casa convencional.”

Em relação à sustentabilidade, o engenheiro afirma que sua empresa reduz em 80% as emissões de CO2 e em 85% a geração de resíduos. Segundo ele, além de ter um produto que vá de encontro ao que o mercado precisa, o dono de uma empresa de alto crescimento deve ter visão clara de negócio e inovar.

“A inovação é a essência para manter o bom desempenho. Nossa empresa é totalmente voltada à inovação, tanto que vencemos os principais prêmios dos últimos anos em nosso setor. São indícios de que estamos no caminho certo.”

Montar um time alinhado com os objetivos e estratégias do negócio também faz parte do processo. “Uma empresa é feita de gente. É preciso ter um time forte, com visão muito clara e com grande ambição, para que a máquina continue girando e crescendo.”

Segundo ele, o empreendedor precisa despender energia para manter esse time motivado e ambicioso. “São essas pessoas que nos ajudam a dar o próximo passo de crescimento. Elas é que trazem ideias novas, desenvolvem novos produtos e abrem novos mercados.”

Para manter a equipe informada sobre tudo o que ocorre na empresa, ele mantém vários canais de comunicação. “Usamos e-mail, murais com os nossos indicadores e uma vez por mês produzimos um comunicado mais profundo da diretoria, entre outras estratégias.”

Segundo Seabra, toda scale-up é uma empresa de alto crescimento, mas nem toda empresa de alto crescimento é uma scale-up, porque ela pode não conseguir manter vantagem competitiva sustentável ao longo de muito tempo.

No mercado desde julho de 2015, a Baby&Me é considerada uma potencial scale-up. “As fundadoras têm o DNA de querer fazer algo diferente e que não seja possível ser copiado, além de estarem resolvendo problemas que são comuns entre mães de bebês”, diz Seabra.

karen (à esq.) e Ana Carolina. Foto: Paulo Liebert

karen  Kanaan (à esq.) e Ana Carolina Vaz. Foto: Paulo Liebert

Fundada por Karen Kanaan e Ana Carolina Vaz, a Baby&Me desenvolve produtos práticos para facilitar o dia a dia das mães. A ideia surgiu quando Karen estava grávida de nove meses e iniciou desfralde do filho.

“Consultei uma comunidade de mães, da qual já fazia parte, para obter dicas sobre esse momento. Muitas pessoas recomendaram que eu comprasse tapetinho de xixi para cachorro, que é absorvente e mantém o colchão seco. Conversando com a Carol, resolvemos produzir esse item com material mais adequado para humanos.”

Hoje, na linha de descartáveis, a marca tem trocador, porta caca para guardar pequeno volume de lixo e protetor de assento para vaso sanitário, já patenteado. “Na linha de acessórios temos cadeirinha de pano para que crianças a partir do quinto mês fiquem junto aos pais sem a necessidade de ficar no colo ou em cadeirão. Já o tapete de brincar, quando fechado funciona como uma bolsa para levar brinquedos e aberto vira uma canga.”

A proposta da marca é que os itens comercializados sejam cocriação com outras mães, que passam a receber royalties na venda. “Nosso sonho é que a Baby&Me seja formada por uma comunidade de mães que criam e distribuem. Já temos a rede Happy Moms, formada por 12 mães divididas por bairros. Elas ganham com a revenda dos produtos e agilizam a entrega com menor custo”, diz Karen.

Para entender o que leva uma empresa a se tornar scale-up, a Endeavor e o Insper criaram uma cátedra envolvendo dez pessoas que irão produzir conhecimento sobre o tema.

“Queremos entender qual é o gargalo que impede o crescimento de empresas no País. Assim, poderemos indicar aos formuladores de políticas públicas e à sociedade alternativas concretas. Queremos mudar o cenário atual, que tem um oceano de empresas pequenas que não conseguem crescer”, diz Seabra.

Daniel Hatkoff. Foto: Beatriz Napoli

Daniel Hatkoff. Foto: Beatriz Napoli

A Pitzi, fundada por Daniel Hatkoff, está entre as 0,7% das empresas brasileiras que podem ser consideradas de alto crescimento. A empresa oferece plano de proteção para celulares no caso de quebra e danos, substituindo o aparelho em curto espaço de tempo. Para ter direito ao serviço, é necessário assinar um plano anual.

Criada em 2012, a empresa emprega 110 pessoas e mantém crescimento mensal que varia entre 10% e 20%.

Segundo o fundador, a chave para um negócio crescer continuamente é identificar um problema importante. “No nosso caso, aproveitamos o fato de os smartphones ocuparem um espaço muito importante na vida das pessoas, que não conseguem mais ficar sem o aparelho. Também conseguimos entender como usar inovação, designer e dados para criar uma solução que tem um modelo escalável”, diz.

Hatkoff afirma que muita gente cria um negócio que parece ser legal, mas a pessoa não tem ideia se vai conseguir escalar. Esse não é um modelo de negócio sustentável.”

Outra arma, segundo o empresário, é oferecer uma boa experiência ao cliente. “É preciso deixar a pessoa tão encantada com o atendimento e serviço que ela vai querer falar bem da empresa para os amigos.”
Ele afirma que desde o início investiu muito tempo para entender como criar experiências diferenciadas, que iriam surpreender as pessoas, e entregar algo a mais do que estava sendo prometido. “Além disso, investi nas pessoas que são essenciais para o negócio avançar.”

Hatkoff conta que a marca oferece vários planos. O principal é o plano de prevenção para acidentes e defeitos. “Recentemente, lançamos um produto novo em parceria com uma seguradora que inclui proteção contra roubo. Os valores dependem sempre do modelo do aparelho, mas a média é R$ 200 por ano”, diz.

Identidade. Diretor geral da Endeavor, Jualiano Seabra conta que a organização sempre produziu pesquisas sobre empreendedorismo e ambiente de negócios, mas com a parceria que acaba de realizar com o Insper, será possível produzir conhecimento com respaldo acadêmico.

“Vamos, por exemplo, analisar os empreendedores apoiados pela Endeavor em busca de traços comuns entre eles. Dessa forma, talvez possamos entender porquê alguns empreendedores conseguem construir escale-ups, outros só têm crescimento efêmero, enquanto outros nem crescimento conseguem ter.”

Segundo ele, esse será um dado super relevante. “Mesmo quando falamos em scale-up, estamos nos referindo a um grupo muito pequeno no universo de empresas brasileiras.”

O diretor diz que a diferença de uma empresa que vai crescer de forma sustentável por muito tempo, sofrendo menos com a conjuntura econômica ou setorial, é a capacidade do empreendedor de mudar o jogo, de transformar com produto novo, com modelo de negócio diferente, com forma diferente de produzir e que ninguém consegue copiar.

Seabra afirma que ainda neste ano a cátedra Endeavor/Insper terá alguns resultados para apresentar. “Essa iniciativa não é apenas um projeto, ela não se encerra. Vamos manter um espaço de pesquisa com gente dedica a estudar e produzir uma série de dados sobre o tema. Nos próximos anos teremos uma leva de informações sendo produzidas e divulgadas.”

Segundo ele, juntando o time do Insper e da Endeavor dez pessoas estão trabalhando exclusivamente para produzir conhecimento sobre empreendedorismo e crescimento de empresas no Brasil, fato que é inédito no País”, ressalta.