Mulheres lutam para ter mais poder no mundo dos negócios
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Mulheres lutam para ter mais poder no mundo dos negócios

Na busca para fortalecer a presença feminina no empreendedorismo, evento deve reunir 1.500 empresárias na próxima terça-feira

CRIS OLIVETTE

17 Setembro 2017 | 07h33

Camila Achutti. Foto: Pedro Victor/Divulgação/Mastertech

Fundadora da Mastertech, escola que oferece ensino rápido de tecnologia, da agência de software Ponte 21 e do blog Mulheres na Computação, Camila Achutti atua para desmistificar o acesso à tecnologia e para fazer com que empreendedoras usem a tecnologia como aliada.

Formada em ciência da computação, com mestrado na mesma área pela Universidade de São Paulo, a empresária conta que logo no início da graduação percebeu a baixa diversidade de gênero na sala de aula.

“Eu era a única menina na turma de 30 alunos. Hoje, temos cerca de 13% de mulheres trabalhando com tecnologia no Brasil. Foi um pouco por essa questão de gênero que entrei na área de educação. Sinto grande necessidade de repassar meu conhecimento para outras mulheres. Não posso deixar as meninas de fora dessa coisa incrível que está mudando o planeta.”


Ela conta que a Mastertech não é exclusiva para mulheres, mas 61% dos alunos são do sexo feminino. “A nossa escola é reflexo da sociedade brasileira, composta 57% de mulheres. Temos cursos imersivos de oito horas por dia durante oito dias. Brinco que o aluno entra como intérprete de Libras e sai programador, pronto para suprir a demanda de mercado. Nossa taxa de empregabilidade é de 90%.”

Entre os cursos de curta duração, o mais famoso é ‘aprenda a programar em um final de semana’. “Em dois dias, ensinamos a fazer um site e um aplicativo. Nosso maior objetivo com os cursos menores é fazer a evangelização do mercado e mostrar que programação não é só para gênio”, ressalta.

Segundo ela conta, o negócio, que começou em 2016 com recursos da Ponte 21, hoje é sustentável, emprega 30 funcionários diretos e tem 50 professores parceiros.

Considerada referência nacional pelo trabalho de inclusão da mulher na tecnologia, Camila será uma das palestrantes da sexta edição do Fórum Empreendedoras, realizado pela Rede Mulher Empreendedora. O evento ocorrerá na próxima terça-feira (19), no hotel Maksoud Plaza, em São Paulo.

“Vou falar de diversidade e tecnologia, apontando o quão arriscado é a mulher se distanciar tanto da tecnologia, uma das áreas mais competitivas e que vai permear toda e qualquer carreira. Meu principal objetivo no Fórum é colocar a tecnologia como aliada da empreendedora que quer causar impacto”, afirma.

Criada com o propósito de garantir independência financeira e de decisão sobre negócios de mulheres e suas vidas, a Rede Mulher Empreendedora foi fundada por Ana Fontes, organizadora do fórum.

De acordo com ela, neste ano o evento vai reunir 1,5 mil mulheres, 50% amais do que a edição anterior. “Além da grade de conteúdo de palestras de mulheres empreendedoras, teremos uma sala com 20 mentoras que irão esclarecer dúvidas pontuais sobre negócios. A cada evento, realizamos de 120 a 140 mentorias.”

Ana Fontes. Foto Paula Lyn/Divulgação/RME

Ana conta que durante todo o dia o Facebook estará no local realizando oficinas para ensinar as empresárias a melhorar a comunicação de seus negócios nas redes sociais.

Ela acrescenta que o evento também contará com 30 estandes de negócios comandados por mulheres que estarão vendendo produtos ou serviços. “Nesse espaço, as empresárias também realizam negócios e fecham parcerias.” Mais informações sobre o evento e a compra de ingresso estão disponíveis em http://forumempreendedoras.com.br/ .

Outra empresária participante do fórum é a fundadora do canal de finanças Me Poupe!, Nathalia Arcuri. “Pretendo dar um panorama do que vivo no meu dia a dia como empreendedora. Tive de aprender a cuidar da gestão da empresa, a contratar pessoas, a cuidar do crescimento e ainda sou responsável por redigir textos, roteiros, cuidar da edição, enfim, estou me tornando empreendedora aos pouquinhos”, diz.

Nathalia Arcuri. Foto: Nilton Fukuda/Estadão

Segundo ela, reunir mulheres para discutir empreendedorismo é importante. “É muito bacana até para desmistificar alguns preconceitos que as próprias mulheres têm a respeito de competências e autoestima. Ainda temos muito a caminhar no sentido do empoderamento da mulher como empreendedora”, avalia.

Lançado em 2015, na rede social YouTube, o canal Me Poupe! tem atualmente 800 mil inscritos. “A medida que o canal cresce, ganhamos mais corpo em todos os sentidos e penso em expandir para outros campos de negócios como a realização de eventos presenciais e cursos. No futuro, também pretendo investir na criação de produtos financeiros”, afirma.

Segundo ela, de janeiro a agosto de 2017 o Me Poupe! teve faturamento duas vezes maior que o obtido ao longo do ano passado inteiro. “O canal ganhou peso, mas o mercado ainda está engatinhando em relação a como lidar com influenciadores.”

A intenção de Nathalia é buscar um posicionamento para ser mais do que só uma influenciadora. “Procuro entender o que as marcas precisam e criar um conteúdo voltado para elas, tendo grande cuidado tanto com a imagem da empresa quanto com a nossa.”

Ela acaba de lançar um reality em seu canal para contratar um assistente de conteúdo, que será seu braço direito. “Quero mostrar o ponto de vista dos candidatos e como devem se preparar. E o lado do contratante e como avaliar. Será divertido e educativo.”

Organização do setor trabalha para atrair investidora anjo

Diretora executiva da Anjos do Brasil, organização de fomento ao investimento anjo, Maria Rita Spina Bueno já participou de várias edições do Fórum Empreendedoras e considera o evento relevante para o setor.

Maria Rita Spina Bueno. Foto: Paula Lyn/Divulgação

“Ele abre discussão sobre vários temas que podem ajudar as empresárias. No meu painel, por exemplo, não vou falar só de capital empreendedor, mas sobre fontes de financiamento de maneira mais ampla e do empoderamento feminino.”

Irmão de Maria Rita e fundador da Anjos do Brasil, Cassio Spina afirma que a participação feminina no universo empreendedor é relevante. “A exceção ainda existente é na área de tecnologia, mas a presença das mulheres tem crescido ao longo do tempo”, avalia.

Durante o fórum, ele vai abordar a questão da complementaridade de visão que o trabalho em conjunto entre homens e mulheres pode proporcionar e a importância de atrair cofundadoras para os negócios. “Quero deixar claro que essa diversidade é importante.”

Spina diz que pesquisa recente aponta que empresas que têm a participação de mulheres no comando têm índice de sucesso maior que negócios comandados apenas por homens. “Esse é um indicativo relevante que deve ser observado pelos investidores.”

Cassio Spina. Foto: Felipe Spina/Divulgação/Anjos do Brasil

Spina estima que 20% dos negócios que passam pela Anjos do Brasil têm participação feminina na liderança. “Ainda temos forte maioria masculina tanto do lado de empreendedores quanto de investidores. Mas trabalhamos para estimular a presença das mulheres como investidoras, por meio do movimento Mulheres Investidoras Anjo (MIA).”

Idealizadora do MIA, Maria Rita diz que em determinado momento de sua atuação na Anjos do Brasil passou a se sentir muito incomodada. “Demorei três meses para entender o que era. Então, compreendi que era o fato de só existir homens nesse ecossistema. Minha primeira impressão foi de que isso era uma questão brasileira. Mas pesquisei o assunto e descobriu que não, mesmo em ecossistemas muito mais maduros que o nosso há uma desproporção gigantesca.”

Ao mesmo tempo, ela conheceu iniciativas nos Estados Unidos para atrair mais mulheres a esse ecossistema. “Vi que eles estavam tendo resultados positivos e resolvi criar o movimento no Brasil.”
Iniciado no final de 2014, o MIA já impactou mais de 300 mulheres com potencial para serem investidoras. “Dessas, pelo menos 50 já participam ativamente do ecossistema”, afirma.

“Depois da criação do movimento, dentro da Anjos do Brasil, o número de investidoras anjo passou de sete para 24. Elas são, na grande maioria, mulheres que têm carreira corporativa”, afirma.

Maria Rita diz que a ideia não é ter uma rede exclusiva de investidoras. “Para construir um negócio com alto potencial de crescimento e que seja inovador é preciso ter muito apoio. Esse é um desafio tanto para empreendedores quanto para empreendedoras. O apoio necessário deve vir da diversidade, porque ela agrega muito valor.”

Segundo ela, ter o ponto de vista masculino e o feminino enriquece a discussão, porque eles têm maneiras diferentes de olhar o mundo. “Queremos atrair essas mulheres para que integrem as redes de financiamento já existentes.”