O empreendedorismo e a maternidade
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O empreendedorismo e a maternidade

Mães criam negócios para conquistar autonomia financeira e independência para adequar horário de trabalho com criação de filhos

CRIS OLIVETTE

08 Maio 2016 | 07h08

 

HR1654 SÃO PAULO/SP 02/05/2016 MÃES EMPREENDEDORAS OPORTUNIDADES - Vanessa Wander, sócia da e-Moda. FOTO: HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

Vanessa Wander, fundadora do Emoda

Em um universo com mais de cinco milhões de mulheres empreendedoras, que comandam 43% dos negócios em atividade no País, selecionamos as histórias de algumas que também são mães como forma de celebrar este Dia das Mães.

Viúva aos 21 anos e com dois filhos para criar, um com dois anos e outro com 40 dias, Vanessa Wander viu no empreendedorismo uma alternativa para enfrentar a nova realidade. “Fui morar em Maringá (PR), onde havia um polo de confecção e minha irmã atuava com organização de desfiles. Chegando lá, descobri que ela cobrava R$ 3 mil para organizar os eventos. Achei muito pouco pelo trabalho que demandava”, recorda.


Vanessa propôs à irmã que oferecesse o serviço para empresas maiores. “Em duas semanas, vendi um desfile por R$ 100 mil”, afirma. Assim como tantas outras mães empreendedoras, a sua decisão de criar um negócio teve como objetivo obter autonomia financeira e liberdade para acompanhar o crescimento dos filhos.

“Entrei no setor de moda e me apaixonei. Fiz de tudo. Dei consultoria, montei showroom, realizei eventos, organizei feiras, vendi, fui representante. Boa parte dessas empresas tinham como sede a minha casa. Meus filhos foram criados na cultura empreendedora obrigatoriamente”, brinca.

Tanto ela quanto a irmã tiveram a ajuda da mãe para cuidar das crianças quando precisavam viajar. “Nos finais de semana, quando estávamos fora, as crianças viajavam sozinhas para nos encontrar. Elas se acostumaram com essa vida. Acho que por ser viúva, não sentia muita culpa. Mas é claro que perdi algumas coisas. Hoje, 20 anos depois, eles já estão adultos, tanto que na semana passada, contra a minha vontade, o mais velho foi morar sozinho”, reclama.

A empresária conta que desde 2014 está com negócio novo. “Resolvi digitalizar o segmento de moda e criei, junto com outras mulheres, a plataforma Emoda. É um shopping de venda online para varejistas.”

No momento, está finalizando tratativas para receber investimento. “O projeto está crescendo e nosso tíquete médio é de R$ 9 mil, sendo que alguns varejistas já compraram cinco coleções no Emoda. Estou feliz por estar transformando um sonho em realidade.”

Outra mãe empreendedora que batalhou para criar quatro filhos é Leila Oda, fundadora da marca Terra Madre – Orgânicos e Saudáveis. Antes de lançar o negócio de produtos naturais, administrava seu consultório de psicologia e dava plantão em uma clínica.

“Com 24 anos já tinha três filhos”, diz. O quarto filho foi adotado alguns anos depois. “Sempre arrumei tempo para ser mãe, ajudar nas tarefas da escola e dedicar um cuidado especial com o preparo de uma alimentação saudável. Tenho orgulho em dizer que eles nunca precisaram ser internados.”

Leila Oda, dona da Terra Madre - Orgânicos e Saudáveis

Leila Oda, dona da Terra Madre – Orgânicos e Saudáveis

Hoje, com 55 anos, Leila usa sua experiência para dar dicas a mulheres mais jovens que estão construindo um negócio. “É preciso saber administrar o tempo para dar conta de cuidar da família e fazer networking. Uma coisa que aprendi é ter disciplina. Outra, foi fazer com que meus filhos fossem independentes. É muito gratificante vê-los administrando suas próprias vidas atualmente.”

A empresária afirma que erros e pontos fracos têm de ser transformados em pontos positivos. “Primeiro, é importante admitir que errou. Além disso, é necessário ter muita criatividade para administrar tudo isso e ainda lidar com os imprevistos, com o relacionamento com familiares e funcionários. O jeito é tomar decisões rápidas, enfrentar os problemas e não deixar nada para depois.”

A psicóloga ressalta que mulher gosta de controlar tudo. “Mas temos de conter esse desejo porque muitas vezes não damos conta de cuidar de tudo sozinhas. Delegar é uma coisa que nós mulheres precisamos aprender, porque nos ensinam exatamente o contrário. Na família, a responsabilidade maior sempre é da mulher. Mas nos negócios temos de delegar a parte operacional para que seja possível cuidar das demais tarefas”, recomenda.

Ela diz que a marca virou franquia no final de 2015. “Neste mês, vamos inaugurar uma unidade em Goiânia e já assinamos contratos para a instalação de unidades no Rio de Janeiro e Brasília. Estamos fechando negócio em São Paulo e mais outro em Brasília. E até setembro abriremos mais duas lojas próprias, em Goiânia.”

Aos 39 anos, a administradora Daniela Marchini tem especialização em logística, é mestre em engenharia de produção e doutoranda em engenharia mecânica. Mãe de dois filhos, ela atua como professora da Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo (Fatec), em Americana (SP), tem um consultório de coach e acaba de se tornar franqueada do CERS – Centro de Estudos – braço de franchising do CERS Cursos Online, que oferece cursos preparatórias para candidatos que irão participar de concursos para a carreira jurídica.

Ela conta que para empreender reduziu a carga horária das aulas. “Decidi montar o consultório e a franquia para ter flexibilidade de horário. Assim, posso estar presente nos momentos importantes da vida de meus filhos. Isso eu valorizo muito e faz muita diferença na formação deles. Não quer dizer que eu esteja trabalhando menos. Pelo contrário, muitas vezes a carga horária é maior. Mas posso conciliar os meus horários de acordo com a agenda das crianças.”

 

Daniela Marchini, franqueada Cers

Daniela Marchini, franqueada Cers

Daniela ressalta que no dia a dia tem a ajuda do marido. “Ele me dá muito apoio. Estamos dividindo a administração da unidade do Cers para que um de nós sempre possa estar em casa com as crianças. Moldei minha vida para ter tempo de me dedicar à família.”

CEO cria empresa em busca de liberdade para cuidar de gêmeas

Mãe de gêmeas que estão com seis anos, a CEO da Timokids, Fabiany Lima, conta que se tornou empresária quando as meninas estavam com dois anos.

“Tomei a decisão de empreender quando era diretora de uma startup e vivia uma situação conflitante com a questão da maternidade. Saía de casa quando elas estavam dormindo e voltava quando já tinham ido pra cama. Resolvi deixar o emprego e montar um negócio para ficar mais em casa.”

Fabiany conta que a Timokids desenvolve aplicativos de livros e jogos educativos para smartphone e tablet. “Nossos produtos podem ser usados por crianças que falam português, inglês, italiano e espanhol. Já estamos em 190 países. Nossa proposta de oferecer uma ferramenta de suporte para pais e professores está sendo entendida e valorizada.” Entre funcionários e terceirizados a empresa conta com 22 pessoas.

Segundo ela, ao se tornar empreendedora conquistou liberdade de horário, apesar de trabalhar mais do que trabalharia se fosse funcionária e cumprisse horário convencional. “Hoje, posso trabalhar em qualquer horário e de qualquer lugar.”
A empresária também é autora de 17 livros com temática socioeducativa para o público infantil. “Na verdade, faço várias coisas. Sou palestrante e mentora de empreendedorismo em startups. Estou indo para o meu quarto programa de aceleração, já participei de programas no Brasil e no exterior, recebi investimento anjo, participei de programa de governo, enfim, tenho bastante bagagem e posso ajudar quem está começando.”

Fabiany Lima, Ceo da Timokids

Fabiany Lima, Ceo da Timokids

Como se não bastasse, Fabiany também escreve colaborativamente para sites, dando dicas para empreendedores. “É uma questão de organização. Sigo uma agenda bem planejada. Quando estou com minhas filhas, aproveito ao máximo esse tempo. Quando estou trabalhando, foco na atividade. Estando concentrada faço as coisas de forma rápida e eficiente.”
Ela conta que aos domingos é quando tem mais tempo para fazer coisas com as meninas por várias horas seguidas. “Mas durante a semana vou levá-las e buscá-las na escola e ajudo na lição. Mas posso sempre contar com o apoio de meu ex-marido e também de familiares”, diz.

Fabiany é apoiadora de movimentos que incentivam o empreendedorismo feminino. “Vejo que existe muita dúvida e culpa das mães em relação a essa jornada. Uso muito o exemplo de que se elas fosses diretoras de uma empresa também teriam carga horário a cumprir, responsabilidades e teriam de conciliar com a maternidade. Não é uma questão de ser empreendedora ou não ser.”

Segundo ela, a realização pessoal faz parte da vida das mulheres que são mães. “Não precisa abrir mão disso em função de seus filhos, precisa sim, encontrar a melhor forma de adaptar a agenda e explicar às crianças que esse trabalho é importante para sua vida. Quando temos pouco tempo disponível, damos mais valor para o momento em que estamos com os filhos. Pense na qualidade dos momentos e vá criando memórias que as crianças levarão para a vida. Isso é o que importa.”