Ousadia para investir fora da área de atuação
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Ousadia para investir fora da área de atuação

Empresários contam como criaram negócios em segmentos diferentes dos quais tinham formação ou haviam adquirido experiência profissional

CRIS OLIVETTE

30 Agosto 2015 | 06h58

Makoto Ikegama, fundador da Hatsu

Makoto Ikegama, fundador da Hatsu

Na hora de empreender, o melhor é optar por um segmento no qual já tenha experiência, ou que tenha relação com a sua área de formação. Esta, pelo menos, é a recomendação dos especialistas, mas há exceções.

Graduado em engenharia da computação, o fundador da loja online de óculos Hatsu, Makoto Ikegame, sempre desejou pertencer ao ecossistema de inovação. “Tanto que ao me formar, meu primeiro trabalho foi em um fundo de investimento. Sob essa influência, fiz mestrado e doutorado em economia voltada para inovação.”

O interesse pelo segmento de óculos surgiu quando morava no Japão. “Como usuário e curioso, me chamou a atenção a tecnologia ótica existente no país, e o fato de não encontrá-la no Ocidente.”


Posteriormente, trabalhando em um fundo de investimento em Londres, onde era responsável pela área geográfica da América Latina, observou o mercado de óculos brasileiro. “Vi que a oferta era homogênea em termos de tipos de produtos, materiais e técnicas de produção. Com o varejo trabalhando da mesma forma desde o século XIX.”

Para inovar no segmento, Ikegame lançou, há pouco mais de um ano, a Hatsu. “Introduzimos produtos feitos com materiais de ótima qualidade e inéditos no País. O preço é bem atrativo, a partir de R$ 300. O mais caro sai por R$ 2 mil. Na cadeia tradicional, esse produto chegaria ao Brasil por R$ 7 mil. Trabalhamos direto com o fabricante japonês, por isso o bom preço.”

Segundo ele, outra inovação é o serviço Experimente Hatsu. “Temos consultores que levam o produto para ser avaliado pelo cliente sem nenhum custo.”

Ele diz que o que aprendeu na faculdade é super útil no dia a dia. “Minha experiência profissional também foi importante para conseguir investimento.”

Segundo ele, a parte mais difícil até agora é a gestão de pessoas. “Embora tenha feito cursos, o que aprendemos em livros e na escola é diferente da prática. O fator humano é um dos mais delicados. Mas é muito gratificante construir um time.” O negócio tem 12 funcionários e deve contratar mais cinco até o final do ano.

MarianeTichauer,dona da Itté

MarianeTichauer,dona da Itté

 

A fundadora da distribuidora e importadora de artigos e produtos infantis Itté, Mariane Tichauer, também trocou a carreira de dez anos na área de telecom para empreender. Formada em administração, chegou a fazer especialização em roaming internacional.

“Ao deixar a empresa, minha ideia era atuar com turismo solidário. Fiz especialização em Ong e cursos de empreendedorismo. Mas fiquei grávida e tive de adiar esse projeto.” Ela conta que a ideia de criar o e-commerce para atender o varejo surgiu de um papo com uma amiga, que também tinha um bebê.

“Estávamos reclamando da falta de opções de produtos e de variedade de cores e modelos de roupas infantis, e resolvi fazer algo para mudar isso, mesmo não tendo nada a ver com a área que tinha atuado ou para a qual havia me preparado.”

Mariane diz que as ‘surpresas’ foram acontecendo, e mesmo tendo feito curso de importação, tomou algumas lambadas. “A regra é uma e a realidade é outra. O prazo de chegada dos produtos acaba sendo mais longo, o custo aumenta, um cliente não te paga e você entra em desespero. Vi que não estava preparada para isso, mas fui aprendendo aos poucos.”

Lançada em 2009, a Itté tem hoje oito funcionários, oferece 350 itens e mantém o bom desempenho mesmo com a crise. “Até agora crescemos 60% em relação a 2015. Já somos reconhecidos como uma empresa especializada no segmento.”

A engenheira de minas Renata Kurusu Gancev, diz que ela e o marido, o engenheiro mecânico Bóris Gancev, sempre desejaram empreender juntos. “Tivemos várias ideias mas nenhuma tinha saído do papel.”

Isso mudou quando ela foi fazer MBA em gestão empresarial e teve de desenvolver um plano de negócio. “Foi quando surgiu a ideia do Grão Gourmet, um serviço de assinatura de café.”

Ela conta que Bóris trabalhava na área de operação financeira de café e conhecia bem o mercado. “Discuti bastante o projeto com ele e resolvemos colocar a ideia em prática. Quando o site ficou pronto, no final de 20-12, deixei meu emprego.”

Renata Kurusu Gancev, Grão Goumert

Renata Kurusu Gancev, Grão Goumert

 

A empresária afirma que o crescimento tem sido constante e consistente. “Nesse mercado temos de trabalhar para educar o consumidor. Muitos não conhecem o café especial. Só trabalhamos com grão nacional porque não podemos importar grão verde de outros países. Fazemos a torra uma vez por mês em uma indústria parceira, assim, enviamos produto fresco aos assinantes, que no momento são pouco mais de 200.”

Engenheiro troca carreira pelo setor de serviços

Formado em engenharia da computação, o fundador da GetNinjas, Eduardo L’Hotellier, trabalhou dois anos com consultoria estratégica no mercado financeiro, antes de empreender no setor de serviços com a plataforma de contratação de prestadores de serviços.

Ao entrar na faculdade, porém, queria seguir carreira como engenheiro. “Mas logo senti atração pela área de negócios. A ideia da empresa surgiu de uma necessidade minha. Tive dificuldade para contratar serviços pela internet e achei que fazia sentido criar a plataforma para ocupar esse espaço.”

Fundada há quatro anos, a GetNinjas cresce 15% ao mês, tem 55 funcionários e 120mil profissionais cadastrados. “Sem dúvida, foi uma decisão acertada, estou muito mais feliz agora do que quando trabalhava no mercado financeiro. O negócio impacta na vida desses profissionais. Nós contribuímos para aumentar a renda dessas pessoas ao mandar até 30 clientes para eles por mês. Estamos gerando um impacto muito legal na economia”, avalia.

Eduardo H'Lotellier, da Getninjas

Eduardo H’Lotellier, da Getninjas

 

L’Hotellier diz que a receita da empresa vem do pagamento mensal de assinatura para manter o perfil no site. “Oferecemos serviços de todas as áreas, desde pintor e encanador até professor de inglês e fotógrafo. O custo depende da categoria. Vai de R$ 49,90 a R$ 99,90. Os profissionais chegam a tirar de R$ 5 mil a R$ 10 mil por mês. O custo benefício é muito bom”.

Segundo ele, a taxa de crescimento acelerada é surreal se comparada com a economia do País. “Movimentamos R$ 10 milhões por mês para os nossos profissionais. Há dois anos, era menos de R$ 1 milhão.”

‘Atitude ocorre entre aqueles que têm visão empreendedora’

Segundo o diretor da consultoria Vecchi Ancona – Inteligência Estratégica, Paulo Ancona Lopez, para empreender em uma área na qual não tem formação e nem experiência, a pessoa precisa ter espírito empreendedor. “Profissionais da área da saúde, por exemplo, como médicos e dentistas, não têm aprendizado sobre administração no período da faculdade. Diferente de quem faz engenharia ou administração de empresas, que já adquire certa base durante a formação”, diz.

O consultor afirma, no entanto, que esse fato não impede que a pessoa tenha uma visão empreendedora. “No mercado de franquias temos os exemplos das redes China in Box e Moldura Minuto, que foram fundadas por dentistas. Para quem tem visão empresarial é mais fácil e mais tentador eles se imaginarem tocando um negócio fora de sua área de atuação. Muitos já sonham com isso mesmo durante a faculdade.”

Paulo Ancona Lopez, sócio da consultoria Vecchi Ancona - Inteligência Estratégica

Paulo Ancona Lopez, sócio da consultoria Vecchi Ancona – Inteligência Estratégica

Ele afirma que para quem não tem essa visão e perfil empreendedor, criar negócio fora da área de atuação é um risco. “Por perfil empreendedor entendo que o principal ponto seja não ter medo de arriscar. Se ele não tiver em seu DNA atração pelo risco, por ousar e arregaçar as mangas para criar um negócio, não recomendo que siga esse caminho. Pode optar por franquia de uma marca que seja muito bem estruturada, na qual terá suporte e acompanhamento.”

O consultor acrescenta que em qualquer um dos casos, a pessoa tem de escolher muito bem o segmento. “Ele deve se identificar e se realizar nessa atuação, porque terá de investir toda a sua energia e também o seu dinheiro. Não pode ser algo que não lhe dê prazer no dia a dia, caso contrário, fará mal para ele. Além disso, também tem de ter habilidade para exercer a atividade”, diz.

Lopez lembra, ainda, que em alguns negócios, o empresário terá de ter contato direto com os clientes. “Neste caso, o empreendedor tem de gostar de falar, de se relacionar e fidelizar pessoas. Outros negócios podem exigir capacidade muito grande de controle, seja financeiro, administrativo ou de negociação. Por isso, é importante se identificar com o tipo de trabalho que o segmento vai demandar, e não com o produto que irá comercializar.”

Segundo ele, essa é uma grande falha que ocorre com frequência. “A pessoa se identifica com o produto e não considera as demandas de trabalho que envolvem o dia a dia da operação, como controle de estoque, relação com funcionários, treinamento e fluxo de caixa.”

Outra coisa necessária, afirma o consultor, é estudar o segmento, quais são os concorrentes e se há espaço nesse mercado. “Também tem de definir se vai optar por uma franquia, ou se tem capital suficiente para criar um negócio novo. Se não tiver capacidade de avaliar tudo isso, deve contratar alguém para fazer o estudo, porque a falta dessa avaliação resulta em negócios que vão mal.”