Perseverança contra um ambiente hostil
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Perseverança contra um ambiente hostil

Brasil é 5º em ranking de determinação para empreender em um meio que envolve muitas dificuldades para um negócio prosperar

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26 Fevereiro 2017 | 07h01

Augusto Aielo, empreendedor e palestrante

Augusto Aielo, empreendedor e palestrante

Caroline Monteiro
ESPECIAL PARA O ESTADO
A burocracia brasileira tem fama. Lentidão e custos altos para um abrir negócio dificulta a vida do empreendedor. Mesmo assim, o País tem um grande números de novos empresários por habitante. Esse cenário fez o Brasil ficar em quinto lugar na pesquisa “Os Empreendedores mais Determinados do Mundo”, da startup americana Expert Market, sediada no Texas.

Para chegar ao resultado, a empresa cruzou outros dois rankings, ambos do Banco Mundial. Entre 130 nações, o Brasil é o 125º na lista que aponta a facilidade para se abrir um novo negócio. Enquanto isso, é o 48º em número de novos empresários per capita. Ou seja, apesar das dificuldades, há muita gente empreendendo.

Para a diretora de relações institucionais da Endeavor, Marcela Zonis, o quinto lugar não deve ser motivo de comemoração. “A pesquisa reitera que temos um dos piores ambientes de negócios do mundo, com burocracia em excesso, regras complexas e voláteis, que se alteram a todo instante, e com dificuldade de acesso ao capital”, diz. “Se com tantos problemas, o brasileiro continua empreendendo, imagina se o cenário fosse favorável”, argumenta Marcela.


Dificuldades. Um dos inconvenientes presentes na vida de qualquer empreendedor é a burocracia cartorial. Para o CEO do site de vendas de passagens de ônibus Guichê Virtual, Thiago Carvalho, de 34 anos, ir ao cartório é desperdício de tempo e dinheiro. “São processos que eu não exijo quando faço parcerias com outras empresas. Não vejo necessidade de autenticar assinatura, por exemplo”, afirma.

Segundo a coordenadora do Centro de Empreendedorismo da FAAP, Alessandra Andrade, poucos países da Europa exigem a visita ao tabelião. “Aqui, existe uma desconfiança natural em relação às pessoas. Você tem de atestar tudo o que você está fazendo e dizendo. Isso traz custos e ainda mais demora aos processos”, diz.

A obrigação de ir ao cartório é apenas um dos serviços complicados que o empreendedor enfrenta. A apuração e o pagamento de impostos pode ocupar 2.600 horas de trabalho de uma empresa, segundo dados do Banco Mundial. “É um tempo que o empresário poderia investir em gestão, mas tem de usar para entender e pagar os tributos”, diz Marcela.

O empreendedor e palestrante Augusto Aielo, de 25 anos, é sócio de três empresas, a Soul Urbanismo, que projeta parklets, a Soul Cultura, produtora de eventos, e a Eu Grande, que promove palestras motivacionais a respeito de empreendedorismo e negócios. Para Aielo, mesmo com algumas mudanças recentes no sistema fiscal brasileiro, a vida do pequeno empresário continua fatigante.

O Simples Nacional, regime tributário de micro e pequenas empresas, que unifica o pagamento dos tributos, facilitou o processo, mas ainda falta informação sobre ele, diz Aielo.

“Muito empreendedor ainda não entende a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), que rege os serviços que a empresa dele pode prestar.” O desconhecimento pode causar problemas com a fiscalização. “Sempre indico que as pessoas procurem contadores que conheçam a área de atuação, que entenda bem a burocracia daquele tipo de negócio”, acrescenta.

Marcela Zonis, diretora de Relações Institucionais da Endeavor

Marcela Zonis, diretora de Relações Institucionais da Endeavor

Essencial. Para continuar navegando de forma saudável nesse ambiente de negócios considerado ingrato pelos especialistas, a determinação do brasileiro, diagnosticada na pesquisa da Expert Market, é essencial. “Esse cenário não vai mudar tão cedo”, afirma Alessandra. “As pessoas que desistem por causa da burocracia, no fundo, não tem espírito empreendedor. Elas precisam começar a empreender sabendo das dificuldades.”

Para Marcela, a oportunidade de crescimento para as empresas brasileiras é grande, porque o mercado consumidor do País é forte. Por isso, ter firmeza e ambição é importante.
“O brasileiro acaba aprendendo a se virar nesse ambiente hostil. Ele faz muito com pouco. No fim, o cenário, que é ruim, cria um empresário criativo e determinado.”

A determinação, no entanto, não é suficiente para sobreviver. O preparo também é essencial. Segundo a diretora da Endeavor, os brasileiros deveriam planejar melhor a direção que seus negócios devem seguir. “O brasileiro costuma ir na fé e na coragem, em vez de aprender sobre fluxo de caixa e gestão de pessoas, por exemplo.” Para Marcela, muitos dos erros cometidos poderiam ser evitados.

Desburocratização. A melhoria do ambiente de negócios brasileiro é a razão de existir de instituições como a Endeavor, que pressiona órgãos públicos para diminuir burocracias – ou se junta a eles para eliminar as dificuldades no empreendedorismo. Em 2016, junto com a prefeitura de Porto Alegre, criou um sistema que reduziu de 484 para 20 dias o tempo que se leva para abrir uma empresa na capital do Rio Grande do Sul.

A Contabilizei é outro exemplo de iniciativa para diminuir a papelada e o trabalho contábil de empresas. “Com preços bem mais baixos e operação digital, o escritório de contabilidade virtual me ajudou a fundar minha terceira empresa”, diz Aielo.

Edivan Costa, presidente da Sedi

Edivan Costa, presidente da Sedi

Edivan Costa, de 45 anos, é presidente da Sedi, assessoria e consultoria empresarial que ajuda outras empresas a se regularizarem, por meio do controle de licenças governamentais. No mercado há 20 anos, Costa explica em três pontos o cenário atual da papelada no Brasil.
À moda brasileira
“A burocracia do País é dividida entre tributação e abertura de empresa. Primeiro, de acordo com o Banco Mundial, são 83 dias para colocar um CNPJ em funcionamento, analisando apenas São Paulo e Rio de Janeiro. Depois, gasta-se tempo demais conhecendo, apurando e pagando impostos. Além disso, a legislação é sobreposta. Há a federal, a estadual e a municipal. Cada cidade trata os procedimentos de uma forma diferente. Se a pessoa tem uma matriz em São Paulo e quer abrir filial em Campo Grande (MS), todas as regras vão mudar.”
Linha de partida
“Com 13 milhões de desempregados, surgem muitos negócios, muitas franquias. E o governo tem um papel controlador. Esse controle faz com que as empresas paguem muitos impostos nos primeiros anos de funcionamento. O empreendedor ficar resiliente; começa do zero e ainda tem de se adequar à legislação cada dia mais pesada, além da responsabilidade fiscal e criminal muito grande. São muitas regras a cumprir, que dificultam o crescimento.”
Burocracia digital
“Estamos criando o que chamo de e-burocracia, ou seja, a papelada virtual. Um exemplo é a Rede Nacional para Simplificação do Registro e da Legalização de Empresas e Negócios, o Redesim, sistema com dados da Receita Federal, que funciona para Estados e municípios. Parece desburocratização, mas não é. A administração pública continua coletando informação demais e você perde em produtividade. A quantidade de tempo que o empreendedor gasta para atender a essas necessidades do governo é enorme. Ele continua precisando de uma organização muito grande para se adaptar à legislação. Migrar para o digital, hoje, significa que você deixa de ser fiscalizado por um fiscal físico, que bate na sua porta, e passa a ser controlado por um sistema. Mas todo o sistema continua sendo de coleta de informação. Em vez de disso, o governo deveria fornecer soluções para melhorar a produtividade no tratamento com essa burocracia; ou para acelerar as autorizações de funcionamento, por exemplo. No Brasil, há 200 tipos de CNAE, mais de 70 variações de tipos de empresa. Passar essa burocracia para a internet, sem de fato facilitar os processos, não resolve.”