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Quando a necessidade é o ponto de partida

Cuidado: atividade paralela ao trabalho formal pode transformá-lo em empresário bem sucedido

Redação

13 Agosto 2017 | 07h07

Jeane Moura. Foto: Felipe Carneiro

Nem todas as empresas nascem a partir de uma ideia original que é amadurecida e transformada em plano de negócio. Ou da busca do sonho de ter o próprio negócio. Em alguns casos, a jornada empreendedora é iniciada pela necessidade de obter ou complementar a renda.

Estudo realizado em 2016 pelo Global Entrepreneurship Monitor (GEM) aponta que, no ano passado, a taxa média de empreendedorismo por necessidade no Brasil foi de 43%. A rede de franquias de semijoias e acessórios Mapa da Mina está entre os negócios que nasceram dessa forma.

Marcos Pertile, que desde 2013 é um dos sócios da marca, fez colégio técnico em mecânica e com 15 anos começou a estagiar em uma indústria de suco. Um ano depois, foi efetivado.


Ao completar 20 anos, o trabalho de um dos irmãos chamou sua atenção. “Ele fabricava bijuterias e estava se dando muito bem. Disse a ele que queria entrar nesse mercado para complementar minha renda. Ele sugeriu que eu fizesse um teste nas minhas horas livres.”

Marcos Pertile. Foto: Ana Paula Silva

Segundo conta, seis meses depois sua produção tinha crescido e ele resolveu montar uma pequena oficina no quintal da casa de seus pais. “Fiz acordo na empresa em que trabalhava e com o dinheiro do FGTS comprei duas máquinas.”

Quatro anos depois, a oficina estava instalada em uma casa alugada. “Um dia, recebi a visita de Eduardo Correa, um amigo que trabalhava com venda de semijoias. Ele me propôs sociedade para produzirmos bijuterias folheadas a ouro. Fizemos um pequeno aporte e passamos a finalizar a parte galvânica da produção e a vender o produto acabado diretamente aos lojistas. Essa ação foi importante para consolidar a empresa”, conta.

“Fornecemos para a Mapa da Mina por 14 anos. Até que em 2013, Jamil Machado, dono da empresa, nos propôs sociedade para formatarmos a marca para virar franqueadora. Topamos a proposta e, dessa forma, unimos a parte industrial com a comercial”, diz Petrile.

Elisângela e Jamil Machado, também entraram no ramo de semijoias para complementar a renda da família. Ela trabalhava como vendedora em uma loja de cosméticos e ele na área de tecnologia de uma editora. Nas horas vagas, ela vendia os produtos. A iniciativa paralela deu tão certo que em 1999 o casal abriu a primeira loja da marca.

O casal Jamil e Elisângela Machado. Foto: Sabrina Mota

Hoje, a Mapa da Mina tem 15 pontos de venda em lojas e quiosques nos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo e emprega 200 pessoas somando a área industrial e os pontos de venda.

“Em 2016, faturamos R$ 12 milhões e nossa expectativa é fecharmos 2017 com mais cinco operações em atividade. Também lançamos o modelo micro franquia, que utiliza torres de semijoias expostas em salões de beleza e perfumaria”, diz Petrile.

Trauma. A história empreendedora do fundador do Centro Brasileiro de Cursos (Cebrac), Wilson Giustino, não seguiu uma trajetória linear. Membro de uma família de ourives, antes dos 20 anos já tinha sua pequena oficina. Uma assalto violento, porém, o deixou traumatizado e com dívida de R$ 1 milhão.

“Além de roubarem meu ouro, também levaram as joias de diversos clientes que estavam lá para conserto e somavam cerca de R$ 350 mil. Fiquei em uma situação bastante delicada.”

Descapitalizado e com dívida, foi buscar trabalho para se reerguer. “Resolvi sair de São Paulo e fui para Campinas morar com um tio e tentar trabalho na empresa de alimentos na qual ele trabalhava como vendedor, onde recebia um bom valor mensal de comissão”, recorda.

A vaga, porém, estava demorando para surgir. “Eu estava ansioso, pois tinha de cobrir o prejuízo causado aos meus antigos clientes. Acabei levando quatro anos para liquidar essa pendência”, conta.
Após dois meses morando em Campinas, conseguiu emprego como vendedor de cursos de informática.

Em pouco tempo, descobriu que tinha talento para a função. As coisas ficaram ainda melhores quanto teve a ideia de vender os cursos em escolas. “A partir dessa hora, comecei a ganhar um bom salário”, afirma.

Depois de dois anos, porém, ele disse ao patrão que queria montar sua própria escola e perguntou se poderia contar com a ajuda do dono da empresa. “Ele me indicou seus fornecedores e usei o pouco dinheiro que tinha conseguido juntar para comprar móveis e equipamentos.”

Wilson Giustino. Foto: Matheus Henrique da Silva

A primeira unidade do Centro de Informática Caldense (CIC) foi montada em Poços de Caldas (MG). “Abri o negócio com a cara e a coragem, à base de cheques pré-datados. Mas tinha certeza de que o negócio era bom e daria retorno. Logo, passei a ganhar salário de proprietário. Cheguei a ter dez escolas próprias.”

Com o decorrer dos anos, no entanto, os cursos de informática ficaram ultrapassados e ele teve de se reinventar criando o Cebrac. Fundado em Ourinhos, no interior de São Paulo, a escola chegou ao mercado para oferecer cursos de contabilidade e secretariado informatizados.

“Fui o primeiro a oferecer cursos profissionalizantes e tive um ótimo resultado. Vendo a grande demanda de alunos, alguns professores se empolgaram e quiseram entrar no negócio. Passei a licenciar o uso da marca. A primeira unidade licenciada foi fundada em 1998, em Maringá, no Paraná.”

Giustino afirma que em 2003 já tinha 42 unidades licenciadas em operação. Foi quando ele percebeu que havia a necessidade de profissionalizar o negócio.

“Convidei um desses associados para ser meu sócio na formatação da franqueadora. Ele passou a cuidar da parte pedagógica e dos treinamentos dos franqueados e eu fiquei com a área comercial.

Transformamos as unidades licenciadas em franquias e nos associamos à Associação Brasileira de Franchising (ABF)”, diz.

Até agora, o Cebrac já formou mais de 2 milhões de alunos em suas 150 unidades distribuídas pelo Brasil. “Hoje, temos um prédio de oito andares instalado em Londrina (Paraná). Temos três andares destinados à escola piloto, onde ocorrem os treinamentos. O restante é ocupado pela administração da rede.”

Vontade de empreender deve superar desilusões e fracassos 

Quem possui trabalho fixo e não tem condições financeiras de deixar o emprego para empreender, pode mesmo assim tentar iniciar um negócio. Além de oferecer a possibilidade de renda extra, a experiência servirá para validar a ideia.

Foi isso que Thiago Sarraf, fundador da consultoria Dr. e-commerce, fez. “Enquanto trabalhava em uma multinacional, tentava criar negócios paralelos para complementar a renda e ver se a ideia vingava.”

Primeiro, criou um provedor de hospedagem de sites. “Até consegui atrair clientes. Mas não tinha tempo de me dedicar ao negócio e nem noção de gestão. Deu tudo errado e fiquei com dívida em dólar.”

Thiago Sarraf. Foto: Juliana Queissada

Depois de se recompor financeiramente, abriu uma agência de link patrocinado. “Dessa vez não perdi dinheiro, o que para mim já foi uma vitória. Mas também não ganhei muito e o custo benefício não compensava. Resolvi encerrar a atividade.”

Ao completar 25 anos, Sarraf se casou e criou um e-commerce de lingerie para ser administrado por sua mulher. “Descobri que eu era um péssimo comprador. Não consegui boa condição para comprar os produtos e nossos preços não puderam ser competitivos. O site saiu do ar depois de seis meses.”

Sarraf conta que o primeiro projeto que deu certo foi uma agência de marketing para e-commerce. “Mesmo dando certo, não era um projeto que me dava satisfação. Ganhei algum dinheiro, mas vendi a empresa para investir no sonho de oferecer consultoria.”

Para não correr riscos, planejou muito bem a nova empresa. “Passei três meses fazendo o planejamento. Criei processos, contratos, propostas, apresentação e material de divulgação. Tudo o que não fiz para as outras empresas, fiz para o DR. e-commerce.”

Segundo diz, por mais que tenha tido desilusões, acumulou aprendizado. “Hoje, as pessoas me pagam para evitar erros”, diz o empresário que em 2016 faturou R$ 1 milhão.

Formada em administração e com MBA em franchising, a fundadora da rede DNA Natural, Jeane Moura, também começou a empreender enquanto trabalhava como gerente geral de três unidades de uma rede de lojas de calçados.

“Em 2005, quando um novo shopping estava sendo lançado em Florianópolis, negociava a abertura de mais uma loja da rede de calçados quando me ofereceram um ponto na praça de alimentação, que poderia ser financiado.”

Pesquisando as marcas existentes no mercado, ela viu que não havia nenhuma de alimentação natural. “Sou adepta desse tipo de alimentação e desenvolvi um projeto, criei o conceito de uma marca e mostrei aos administradores do shopping. A ideia foi aprovada e montei a primeira unidade DNA Natural. Mas continuei gerenciando as lojas por mais três anos.”

Durante esse período, ela teve de se desdobrar para tocar as duas atividades. “Foi uma loucura. A maior parte da receita do restaurante era revertida para pagar tudo o que eu tinha financiado, desde o ponto até o projeto arquitetônico, bem como os custos da operação.”

Depois de seis meses, Jeane teve a oportunidade de abrir um segundo ponto em uma loja de rua. Foi nesse momento que surgiu a ideia de formatar a marca para poder replicar o modelo. Hoje, a franqueadora está com 49 lojas pelo País e emprega mais de 500 pessoas.

Jeane conta que também criou uma consultoria que atende novas marcas de outros segmentos. “Agora, estou desenvolvendo uma nova marca na área de alimentação com pratos mais elaborados e a instalação terá um ambiente bem aconchegante. A proposta é atrair casais em momentos de comemorações”, conta.