‘Saí do meio acadêmico e fui empreender’
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‘Saí do meio acadêmico e fui empreender’

Sucesso de startup criada por jovem para desenvolver serviços e produtos a partir de resíduos da indústria dá novo rumo a sua carreira

Redação

13 Novembro 2017 | 07h54

Gabriel Estevam Domingos. Foto: Tiago Queiroz / Estadão

Cláudio Marques
Gabriel Estevam Domingos tem 29 anos e já se tornou um nome conhecido e respeitado no segmento de sustentabilidade. Quando ainda era bolsista do primeiro ano do curso de engenharia ambiental da Unimes, na Baixada Santista, em 2011, criou a GED Inovação, Engenharia e Tecnologia. Logo, oito colegas de faculdade já eram seus funcionários nos serviços de consultoria e criação de soluções para resolver passivos ambientais.

“Eu sou um empreendedor, porque fundei a empresa sozinho, fiquei cinco anos no mercado sem investidor, sem nada, prestava consultoria para grandes empresas”, conta.

Esse espírito empreendedor é uma das características de Gabriel. “Desde criança, gostava dessa coisa de inovação, sustentabilidade. Gostava de produzir coisas que eu fosse consumir. Por exemplo, sabonete, pasta de dente, xampu. Eu via a informação e tentava fazer com os recursos disponíveis, como flores, casca de eucalipto. Eu conseguia fazer e usava. Era muito amador. Fazia sistema de captação de água da chuva, toda a parte de drenagem de esgoto.”


Na faculdade, começou a “profissionalizar” suas pesquisas. As aulas começavam às 7h15 e, depois que terminavam, ia para os laboratórios por sua conta – não por uma exigência curricular. Participou do “Battle of Concepts”, em que empresas como Whirpool, Natural, Grupo Ultra, entre outros, expunham seus problemas ambientais reais e os concorrentes – professores, pesquisadores, estudantes – tinham de apresentar soluções. Eram situações que envolviam questões ambientais. “Fui nessa linha. Fui participando, ganhei um, ganhei outro e fui indo.”

Ele lembra que as propostas tinham de apresentar todos os requisitos de viabilidade técnica e econômica. Dez trabalhos eram escolhidos. “Davam premiação em dinheiro. O único problema é que fazia a transferência de propriedade intelectual. Mas foi assim que me inseri nesse mundo da inovação.”

Gabriel foi responsável por vários projetos, um deles lhe deu a primeira patente internacional. “Criei um projeto que teve uma popularidade bem expressiva, a ecotinta. Ganhei até um prêmio da ONU. É uma tinta ecológica feita com um dos maiores passivos ambientais das indústrias de fertilizantes, o fosfogesso, um resíduo.” De acordo com ele, para cada tonelada de fertilizante produzido há de 4 a 6 toneladas de resíduo. E tudo isso tem um custo alto para a indústria.

Posteriormente, criou uma ração ecológica, utilizando um dos maiores passivos da indústria pesqueira da Baixada Santista: a casca de camarão. Embora, a indústria de rações para pet já utilizasse restos de peixe no produto, ele foi pioneiro no uso do camarão. “Descobri que a farinha com a casca do camarão é rica em micronutrientes como cálcio e ferro, por exemplo, que são essenciais para a saúde dos animais.

São esses micronutrientes que encarecem as rações comuns, porque são feitos de forma inorgânica.”
Em relação à eventual alergia a camarão, diz que fez testes de palatabilidade e que seguiu os parâmetros da Anvisa e Inmetro. “Mas é claro que tudo tem de ter uma dosagem. Em excesso, são prejudiciais.”

Os serviços e produtos de Gabriel chamaram a atenção do mercado, e o grupo Ambipar acabou comprando 51% da empresa, que foi rebatizada de GEDI Desenvolvimento e Inovação. E o fundador também se tornou diretor técnico do grupo. “A GED era uma startup, uma empresa pequenininha.

osso diferencial eram nossos ativos de propriedade intelectual, nossas patentes, nossos cases.”
Para ele, o motivo de seu sucesso foi mudar o paradigma do pesquisador que fica no mundo acadêmico. “Saí dessa área e fui empreender minhas ideias e não ficar naquele meio científico, que praticamente as universidades doutrinam. E conseguir colocar meus projetos em prática.”

Os projetos ganharam novo impulso com a união com a Ambipar. “Estou com os três maiores players da indústria de cosméticos (como clientes), para valorização de seus resíduos. Eles vão desde embalagens contaminadas até tudo o que sobra de restos de cremes, de cosméticos, etc. Hoje, estamos fazendo com esse material amaciantes de roupa, limpador multiuso e iniciamos teste para fazer lustra móveis.”

Outro produto é o aplicativo chamado Carbon Z, que calcula a quantidade de carbono que uma pessoa, empresa ou evento gera a na atmosfera, bem como a quantidade de mudas que é preciso plantar para neutralizar esse carbono.

“A grande sacada deste projeto é que temos áreas mapeadas em Cubatão e São Paulo para plantio. E a pessoa clica lá, pode escolher a espécie nativa, nós plantamos, fornecemos a geolocalização, tudo pelo aplicativo, tiramos fotos, colocamos o query code com a data de plantio. Se um dia a pessoa quiser ir conhecer sua muda, ela consegue ir lá e achá-la. Também mandamos um certificado para ela, assinado por uma pessoa qualificada, como eu (risos).”

Ele diz que o mercado em que atua é promissor. “Se não mudarmos o jeito atual de consumo, vamos precisar de uns quatro planetas para dar vazão. Então, para os empreendedores que estão seguindo essa linha, acho que é um mercado muito promissor. Há espaço para todo mundo. É uma questão de sobrevivência (do planeta).”

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