‘Sempre evito a palavra crise no trabalho’
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‘Sempre evito a palavra crise no trabalho’

Executivo prevê que mercado interno de implantes dentários vá duplicar em cinco anos e também planeja aumentar as exportações

Redação

14 Janeiro 2018 | 07h02

Bianca Soares, especial para O Estado

O alemão Matthias Schupp, de 53 anos, tem uma trajetória profissional fortemente baseada em experiências internacionais. Formado em administração em seu país de origem, o atual CEO da Neodent, fabricante de implantes dentários, já trabalhou em multinacionais no Equador, em El Salvador, Portugal e na Suíça. “Após um período na América Latina, voltei à Alemanha. Naquela época, eu achava que minha carreira estava muito focada em países latinos, queria fazer algo diferente, que me abrisse novos horizontes”, conta. Foi aí que aceitou o convite para liderar a operação da grupo de cosméticos Wella em solo russo.

Schupp conta que o período foi delicado, já que a ex-União Soviética ainda sentia as mudanças liberalizantes introduzidas na era do presidente Gorbachev e a posterior crise econômica do governo de Bóris Yeltsin, no final dos anos 1990. “Cheguei durante uma fase muito delicada, de forte recessão, e tive de liderar a operação. Aquele momento me recorda a atual situação do Brasil.”

Em 2007, entrou para o grupo Straumann, líder mundial de implantes dentários. Posteriormente, seu caminho voltou a passar pela América Latina: a empresa suiça comprou a nacional Neodent, maior player brasileiro do segmento. E em 2014, ele mudou-se para Curitiba a fim de dirigir a companhia no Brasil. Mais uma vez, assumiu um negócio em meio a um ambiente econômico turbulento.


Dessa vez, a missão foi aceita porque ele a enxergou como uma possibilidade de fixar raízes no país onde cresceu. Schupp passou a adolescência com os pais no Rio de Janeiro, onde estudou no colégio alemão da cidade. Depois, aos 18, retornou à Alemanha para começar os estudos universitários.

CEO da Neodent, Matthias Schupp Foto: Fernando Ziviani

Apesar da aquisição pela Straumann, a Neodent mantém sua identidade, uma ideia do próprio Schupp, que organizou toda a operação de compra. Também foi ele quem, durante a recessão brasileira, liderou a expansão da marca em um projeto dividido em duas etapas. Na primeira, foram investidos R$ 60 milhões. Atualmente, está em andamento a segunda fase, com aporte de mesmo valor e contratação de 120 funcionários.

A marca possui 1.200 colaboradores em 21 filiais distribuídas, além do Brasil, por Chile, Argentina, Colômbia, México, Portugal, Espanha, Estados Unidos, Itália, Alemanha e Canadá. Os investimentos feitos e a criação de novas filiais procuram aumentar a capilaridade da Neodent pelo mundo. O objetivo é produzir anualmente 9 milhões de de peças, componentes e implantes dentários. Segundo Schupp, já em 2018 a empresa pretende exportar pelo menos 50% de sua produção.

Chegada. Antes de 2012, que foi o ano em que compramos 49% da Neodent, a América Latina praticamente não existia para nós, da Straumann. Depois, em 2013, vim para o País para analisar melhor a empresa. Foi quando decidimos pela aquisição total para a internacionalização da companhia. Foi também aí que começou o meu projeto para essa etapa.

Condições. Eu não queria sair novamente da Europa, estava trabalhando na nossa sede na Suíça. Quando surgiu a oportunidade da internacionalização, apresentei o meu projeto para o conselho da Straumann. Minha proposta era manter a autonomia da Neodent e, aproveitando a nossa rede de logística, transportar a imagem da empresa a nível internacional. Somente aceitei o cargo de CEO aqui depois que eles aceitaram a minha sugestão.

Estratégia inicial. Desde o primeiro dia, deixei muito claro para onde vamos, o que queremos alcançar e quais as estratégias para isso. Para mim era, e ainda é, fundamental não fazer uma segunda Straumann, mas manter a imagem da Neodent, mostrar para o mundo que o produto feito aqui é de altíssima qualidade. Aliás, o Brasil tem os melhores dentistas do mundo. Hoje, com os resultados que estamos atingindo, estou ainda mais seguro disso.

Experiências internacionais. Sem dúvida (as temporadas em países diferentes), me deram uma bagagem muito importante, que me fez entender diferentes culturas e aprender com dia a dia em situações diferentes. E a minha vivência plural não é só no âmbito profissional. Por causa da minha trajetória, a minha família acabou sendo multicultural também: minha mulher e um filho são salvadorenhos e uma filha é alemã.

Crise e expansão. Cheguei à Rússia num momento muito difícil da economia, que comparo com a atual situação do Brasil. Mas nunca gostei de ouvir a palavra crise: quem trabalha comigo sabe disso. Sempre a evito no ambiente de trabalho. Aqui, apostamos na compra dos concorrentes e na expansão num momento de recessão. Tem dado certo porque, há três anos, a Neodent detinha 42% do mercado brasileiro; hoje, temos mais de 50%.

Foco interno. No médio e longo prazo queremos aumentar as exportações, mas sempre com a ideia muita clara de que o Brasil é, e vai continuar sendo, o nosso maior foco. Nos próximos quatro ou cinco anos o mercado interno vai duplicar. Atualmente, ele é o segundo maior, com 2,3 milhões de implantes vendidos por ano. Fica atrás apenas dos Estados Unidos, com 2,5 milhões.

Futuro. Nos próximos anos, o Brasil vai ultrapassar os EUA. E estimamos que, em cinco anos, o Brasil será o maior mercado de implantes dentários. O motivo é que a sua população está envelhecendo (até 2025, o Brasil será o sexta país mais envelhecido do mundo) e 20% dos brasileiros já perderam pelo menos um dente.

Cenário. Nosso objetivo é levar tratamento dentário para todas as faixas, não apenas classes A e B. Temos um projeto chamado Neo Sorriso. Com ele, viajamos dentro de uma trailer oferecendo tratamento gratuito para pessoas carentes. Descobrimos pacientes que, aos 40 anos, nunca tinham ido ao dentista. E não apenas porque não têm recursos financeiros, mas também porque têm medo e estavam mal informadas.

Desafio. Então, nosso desafio é fazer divulgação, mostrar que ir ao dentista não é super caro, que nosso produto tem um preço acessível. Aliás, o Brasil tem um preço muito atrativo, inclusive na comparação com outros países latinos. O implante dentário aqui custa metade do valor praticado nos Estados Unidos. Um tratamento dentário idêntico custa entre quatro e cinco vezes mais na Rússia.

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