As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Serviços vão acelerar alta do setor pet

Segmento movimentou cerca de R$ 23 bilhões em serviços, comércio de animais, produtos veterinários e alimentação no ano passado

Claudio Marques

24 Dezembro 2017 | 07h09

Foto> Tiago Queiroz/Estadão

Túlio Kruse
ESPECIAL PARA O ESTADO
Quando assumiu o cargo de gerente nacional do laboratório veterinário Mundo Animal, Priscila Martins tomou uma decisão incomum. Um dos produtos mais rentáveis da empresa, que prevenia contra pulgas e carrapatos, deixou de ter prioridade nas vendas enquanto novas linhas ganharam destaque. A estratégia deu resultados: o creme antiparasitário estava prestes a perder espaço no mercado após inovações de concorrentes. Com itens novos, o laboratório surfou na onda do mercado pet, que teve um dos crescimentos mais consistentes durante a crise econômica.

Entre 2014 e 2016, mesmo durante a recessão, o faturamento cresceu em média 7,7%. Só no ano passado, o segmento movimentou cerca de R$ 23 bilhões em serviços, comércio de animais, e produtos veterinários, alimentação e acessórios, segundo dados do Instituto Pet Brasil. Neste ano, o faturamento deve crescer 7% novamente.

Com taxa de crescimento de aproximadamente 15% ao ano, a Mundo Animal aposta em novos segmentos para se manter competitiva. A marca começou há 32 anos como fabricante de xampu para cães e gatos, mas investiu na criação de remédios, vacinas, creme dental e até suplementos alimentares para animais. Reforçados com ômega 3 e vitaminas, por exemplo, os suplementos ajudam na prevenção de doenças e absorção de nutrientes.

“Lançar novos produtos é uma maneira de crescer”, diz Priscila, que hoje é diretora comercial do laboratório. “É ilusório achar que vai sempre crescer em todos os itens. É preciso encontrar maneiras de substituir esse faturamento.”

Na condição de média empresa, o laboratório acaba de comprar uma fabricante de produtos focados na manutenção de aquários, a Atlantys. Para 2018, um dos planos mais ambiciosos é exportar alguns produtos pela primeira vez.

Potencial. O bom desempenho do laboratório não ocorre por acaso. Os animais de estimação no Brasil são mais numerosos que a população de crianças. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), elaborada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há mais de 52 milhões de cães domésticos no País. Já a população de 0 a 14 anos é menor que 44 milhões, segundo o IBGE. Há também mudança no comportamento do consumidor. A demanda por serviços mais especializados – como hotéis, creches, babás e transporte – e profissionais melhor qualificados aumentou.

“Quando se traz um animal para dentro de casa, oferece um habitat diferente, um ambiente social, e precisa cuidar da higiene, afinal, ele convive com a família”, diz o vice-presidente de comércio e serviços do Instituto Pet Brasil (IPB), Nelo Marraccini Neto. Para ele, a oferta de cuidados especiais para os pets vai crescer nos próximos anos. “As pessoas ainda não fazem a manutenção e o acompanhamento como devem. Essa fase do total care, do cuidado com o animal como se deve, ainda está longe de ser como deve ser.”

Nos últimos anos, a competitividade no setor aumentou. Quem estuda o mercado pet alerta que novos empreendimentos devem dar prioridade a serviços inovadores. Com a proliferação das pet shops nos bairros, a chance de novos negócios terem vida curta aumenta se não tiver diferenciais claros.

“Hoje o pet garagem já não tem mais espaço, é muito difícil ele sobreviver”, diz Marraccini Neto, sobre lojas sem planejamento e infraestrutura ruim. “Mas você pode ganhar clientes no serviço. Tem gente que procura e encontra o seu nicho, e o serviço é muito importante para conseguir atender seu cliente e fidelizá-lo.”

Mudanças na composição das famílias brasileiras, aumento no número de pessoas que moram sozinhas, e um novo papel do animal de estimação na vida urbana. Os sinais de que o setor pet continuará crescendo nos próximos anos são muitos, segundo representantes do setor e especialistas.

Mais de 17% dos lares são compostos por casais sem filhos, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número de pessoas que moram sozinhas já representa 14,6% das residências, e a proporção de mulheres que vivem sem cônjuges com os filhos já atinge quase 13%. Esses porcentuais têm aumentado nos últimos anos, enquanto a quantidade de famílias tradicionais, com casal e filhos, já representa menos da metade das residências.

Para o coordenador do Centro de Excelência em Varejo da Fundação Getúlio Vargas (GVcev), Maurício Morgado, essa transformação na demografia do País explica o bom momento dos negócios voltados para os animais de estimação. Fatores como o envelhecimento da população – e o consequente aumento no número de viúvos e viúvas – e a diminuição dos lares comandados por casais fizeram com que mais pessoas buscassem companhia nos bichos. Tanto as mudanças na composição da família brasileira quanto o bom desempenho do setor durante a crise, com crescimento médio acima de 7% nos últimos três anos, segundo o professor, sinalizam que o mercado pet veio para ficar. “Não é moda, de jeito nenhum. É algo que com certeza vai continuar”, ele diz sobre a expansão do mercado.

“As famílias diminuíram, e isso dá espaço para se agregar outros elementos à família como um todo”, explica Morgado. “Temos uma configuração que facilita o acesso a esses animais. E, na realidade, a mentalidade em relação aos animais também evolui culturalmente.”

Além de um aumento na quantidade de pets, a exigência por serviços e produtos com mais qualidade aumentou, segundo representantes do setor. Como o animal passa a ser encarado como um membro da família, também ganha prioridades na hora das compras.

Esse fenômeno tem motivado o surgimento de novos negócios voltados para o segmento. Segundo a coordenadora do Centro de Empreendedorismo da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), Alessandra Andrade, o investimento em “tudo ligado ao mercado pet” é uma das tendências que deve se manter nos próximos anos. Alessandra prevê maior atividade no setor de comércio no primeiro semestre de 2018, devido à demanda reprimida pela recessão. “A tendência agora é que os serviços e o varejo se destaquem”, diz a professora.

Economia. Para Carolina Rocha, sócia-fundadora do site Pet Anjo, o mercado pet sofreu menos durante a crise em comparação com outros setores, mas os clientes ficaram mais seletivos e exigentes durante a recessão. “É uma tendência que o cliente busque cada vez mais conhecimento e informação em relação aos animais.” Já para Marracini Neto, do IPB, o desafio do setor é convencer investidores e governo sobre a importância do mercado. “Nosso segmento não é supérfluo”, diz. “O consumidor nos vê como imprescindíveis.”

A melhora na economia deve ajudar o varejo e o mercado pet, ao menos nos primeiros meses de 2018. Para o coordenador do GVcev, Maurício Morgado, o setor será o primeiro beneficiado com um pequeno ganho de renda, proporcionado pela queda da inflação durante o ano. “As ‘pequenas recompensas’ para os animais com certeza vão se beneficiar para essa tendência: o maior otimismo que o mercado parece que vai ter no ano que vem”, ele diz. “Se você pensar em bens mais duráveis, como automóveis, geladeiras e eletrodomésticos como um todo, isso demora um pouco mais para chegar, mas nos mercados pet isso vem mais depressa.”

Para quem planeja investir no mercado, Morgado recomenda investir em segmentos especializados e fugir dos serviços que já são oferecidos pelas grandes redes. “O lojista pode ficar tão conhecido naquele segmento, naquele grupo de clientes, que vira referência.” /T. K