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Startups criam tecnologias para cidades inteligentes

Com potencial de mercado de US$ 1 trilhão na América Latina, área estimula desenvolvimento de soluções de conectividade

CRIS OLIVETTE

17 Dezembro 2017 | 07h47

Diogo Tolezano. Foto: Rafael Arbex/Estadão

Independentemente do tamanho, quando uma cidade se torna inteligente ela fica ‘menor’, porque passa a ser conectada, mais acessível ao cidadão e a oferecer mais qualidade de vida.

“Para o gestor publico, as cidades inteligentes irão oferecer inúmeros dados e eles terão de saber utilizá-los para criar políticas públicas mais eficientes”, diz o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Guto Ferreira.

Segundo ele, a transformação dos municípios em cidades inteligentes está começando no Brasil e no mundo. “Quanto mais acelerarmos o processo, melhor será a qualidade de vida das pessoas e mais eficaz será a administração pública.”

Estimativas da ABDI indicam que a América Latina tem potencial de mercado de US$ 1 trilhão, montante que faz brilhar os olhos e aguçar a criatividade de empreendedores de startups da área de tecnologia.

Entre eles, o sócio da Kraft, Diogo Tolezano, que desenvolveu o Pluvi.On, solução de inteligência climática com monitoramento local, em tempo real e que oferece previsão do tempo em alta resolução.

“Criamos um dispositivo barato o suficiente para ser espalhado pela cidade, porque vimos que faltavam dados de clima para alimentarmos nosso modelo preditivo, que permite antecipar eventos como enchentes e deslizamentos.”

Tolezano diz que já tem 90 estações meteorológicas de baixo custo espalhadas por casas e empresas da cidade de São Paulo, que são conectadas em rede de celular 3G ou Wifi e que enviam informações para a central de dados da Kraft.

“Mas o número ideal para cobrirmos toda a cidade é de 400 estações. Quanto mais dados tivermos, melhores serão as recomendações. Trabalhamos muito próximos da Defesa Civil.”

Quando o modelo estiver completo, a população vai contar com um assistente virtual chamado São Pedro. “Vamos oferecer serviço gratuito para a população, com dados de chuva, temperatura e umidade. Para as empresas vamos fazer projetos e cobrar pela implantação de rede de sensores nos pontos que desejarem monitorar. Vamos cobrar mensalidade para alimentarmos seus painéis de controle e sistemas de alerta.”

Danilo Delfim. Foto: Yuri Edmundo/Agencia i7

A Ti.Mobi, de Júlio Figueiredo e Tarcizo José, desenvolveu um sistema inteligente para gestão, controle, venda e fiscalização de estacionamento público municipal chamado Rotativo Digital.

Gerente de produtos e novos negócios da empresa que está há três anos no mercado, Danilo Delfim conta que a solução está presente em sete municípios de três Estados: Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo. “Hoje, nosso faturamento anual é de R$ 4 milhões.”

Segundo ele, o processo para conquistar clientes públicos é lento e burocrático, por isso, a Ti.Mobi também desenvolveu soluções para a gestão de frotas, pátios e estacionamentos privados.

“Estamos fazendo testes em condomínio empresarial e residencial. Nosso sistema de leitura de placas proporciona mais segurança de quem entra e sai das vagas. Há grande demanda por esse tipo de monitoramento. O veículo recebe uma tag e o sistema identifica de quem é o carro antes de abrir a cancela.”

Em abril de 2016, o engenheiro Guilherme Cassemiro criou a Das Coisas, que atua na área de infraestrutura de conectividade para cidades inteligentes.

“Desenvolvemos gateways (semelhante a um roteador), que é responsável por receber os dados dos sensores e encaminhá-los à nuvem.”

Guilherme Cassemiro (de verde). Foto Ascom/Inatel

Ele explica que as soluções conectadas para cidades inteligentes geram dados a todo momento. Esses dados precisam ser tratados em servidores com alto poder de processamento, antes de serem enviados à nuvem. “O gateway é responsável por receber e encaminhar esses dados.”

Cassemiro diz que as soluções conectadas possuem métodos diferentes de se comunicarem com o gateway, esses métodos são conhecidos como protocolos de comunicação.

“Desenvolvemos protocolos de comunicação, gateways e tecnologia chamada Wi-Sun – rede metropolitana para cidades inteligentes –, em cima dessa rede vão rodar aplicações como medição remota de água, gás, energia e iluminação pública.”

Ele conta que esse protocolo conecta até cinco mil dispositivos em um único gateway, enquanto outros modelos conectam mil dispositivos. “É um ganho considerável. No próximo anos, vamos levar a solução para ser testada no campo de testes instalado em Xerém (RJ).

CEO da Aerometrics Tecnologia, Charles Roberto Stempniak desenvolveu o software Smart Matrix GIS-4D, usado para modelagem, visualização, planejamento, fiscalização e monitoramento contínuo por imagem.

“A tecnologia gera modelo de alta precisão, com dezenas de camadas cartográficas, a partir de imagens captadas por drones. Nosso sistema separa os objetos visualizados em camadas de informação gráfica já interpretada e devidamente classificada gerando, ao final, uma maquete em escala da cidade”

Além de ser útil para o planejamento das cidades, a tecnologia também é eficiente na fiscalização por imagem e monitoramento do território. “Entendo que o primeiro passo na direção de se criar uma cidade inteligente seja o de entender o estado atual e a dinâmica da cidade.”

Stempniak conta que está testando a tecnologia em São José dos Campos (SP) e executando alguns projetos em três cidades no Paraná. “Nossa meta é faturar pelo menos R$2 milhões no próximo ano.”

Guto Ferreira. Foto: Cesar Ogata

Entrevista

Guto Ferreira, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI)

O que está sendo feito para tornar as cidades mais inteligentes?
Três iniciativas do governo federal são fundamentais para a evolução do conceito. A ação do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) ‘Cidades Digitais’ tem por objetivo cabear as cidades e levar sinal de internet, porque não existe cidade inteligente sem conectividade.

Quantas cidades já foram beneficiadas?
Mais de 100 cidades pequenas e médias estão sendo atendidas por programas pilotos, pois esse investimento, na verdade, cabe ao município. O governo federal age como indutor.

Qual é a outra iniciativa?
A segunda ação é o Plano Nacional de Internet das Coisas, também desenvolvido pelo MCTIC. Ele foi lançado em outubro de 2017 e terá maior efetividade em 2018.

E a terceira ação?
É uma aposta do ministério da indústria por meio de parceria entre a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), que é uma cidade de testes em Xerém, no Rio de Janeiro.

Por que nessa cidade?
O Inmetro mantém uma unidade em Xerém e tem funcionários e pesquisadores que moram lá. Por ser um município, já possui os serviços que permitem que as tecnologias para cidades inteligentes sejam testadas. A planta de testes está na fase de implantação.

O que será implantado?
Fizemos um edital e mais de 400 empresas se cadastraram. Agora, temos cerca de 80 empresas na cidade iniciando a implantação de suas propostas, que vão desde iluminação inteligente, semáforos inteligentes, sensores inteligentes em tubulações para questões de água e esgoto, sensor de inundação, compartilhamento de carro etc.

Qual a abrangência dos testes?
As empresas têm de implantar a solução em um ou dois pontos para que os dados possam ser mensurados. Conforme o resultado, elas recebem ou não a validação do equipamento inteligente concedida pelo Inmetro e ABDI. Será bom para os gestores municipais terem uma referência na hora de contratar esse tipo de serviço.

Quanto tempo vai durar o período de testes?
Cerca de dois anos, para que possamos testar todas as soluções. Além de saber se a tecnologia funciona, precisamos saber se ela funciona em médio prazo, porque temos várias situações ao longo do ano como muita chuva e pouca chuva. O volume de produção de lixo também costuma variar em algumas épocas. Por isso, precisamos ter esses comparativos sazonais para que a métricas sejam claras. As soluções aprovadas irão receber selo de validação do Inmetro e da ABDI.

E no mundo, com está a evolução das cidades inteligentes?
Elas estão se desenvolvendo, prioritariamente, com o desenvolvimento e investimento privado. No Brasil, isso já é uma possibilidade. Já temos várias startups e pequenas empresas investindo em questões de conectividade, sensores, segurança, saúde etc. São pequenas coisas que interferem na construção de cidades inteligentes.

E quais são as perspectivas?
Elas são positivas para os próximos cinco anos, apesar de ainda não termos uma cidade inteligente. Mas precisamos evoluir em serviços básicos como o lixo eletrônico, um problema que em dez anos será mais contaminante que o lixo orgânico e hospitalar.

Qual o potencial desse mercado?
A América Latina tem potencial de US$ 1 trilhão. Dois países podem se destacar: Brasil e Chile. O Brasil pelo tamanho de seu mercado consumidor e poder de exportar tecnologia, pode se tornar o centro de cidades inteligentes na AL. E o Chile tem capacidade muito boa de trabalhar com startups.