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Startups de ensino atraem investidores

Educar com uso de tecnologia e jogos é forma adotada por negócios para conquistar usuários, que são recompensados com prêmios

CRIS OLIVETTE

26 Março 2018 | 09h33

Marco Fisbhen. Foto: Renan Angelici

O Brasil tem se revelado um grande mercado para negócios tecnológicos de educação. Isso se deve ao tamanho da população e a carência de formas alternativas e mais baratas de ensino. Além disso, o formato dos negócios online é visto como mais envolvente.

O rápido crescimento da plataforma de educação digital Descomplica, de Marco Fisbhen, comprova o potencial desse mercado. Em seis anos, o negócio criado pelo professor de física se tornou uma empresa com 200 funcionários. Por mês, a plataforma recebe cinco milhões de visitantes únicos.

Segundo ele, o aporte de cerca R$ 100 milhões concedidos por fundos americanos, em quatro rodadas, foi essencial para o crescimento. “Percebi rapidamente que precisava de sócios investidores para ganhar escala, melhorar a infraestrutura e ampliar o conteúdo oferecido.”

Fundador da plataforma Qranio, Samir Iasbeck de Oliveira diz que usa recursos de gameficação para oferecer aprendizado lúdico e qualificado. Ele também recebeu aporte.

“Obter o primeiro investimento, em 2012, foi muito bom porque nos tirou de Minas Gerais e nos lançou na rota de São Paulo. Depois disso, fizemos outra rodada. Até agora, recebemos R$ 4,2 milhões”, conta.

Samir Lasbeck de Oliveira. Foto: Eric Machado

Segundo o empresário, um dos desafios do segmento tradicional de educação está relacionado ao fato de convivermos o tempo todo com tecnologia muito avançada. “Mas quando os alunos entram na sala de aula, encontram um modelo de ensino do século passado e não se sentem estimulados. Por isso, trabalhamos formas disruptivas de ensino.”

Oliveira diz que a ideia do negócio é uma resposta a sua busca para tornar o aprendizado mais divertido. “Tanto que o nosso mote é ‘estudar é chato, mas aprender pode ser divertido.’ Primeiro, criamos um aplicativo gratuito, que tem mais de 1,3 milhão de usuários. Eles jogam e aprendem diversos conteúdos, enquanto acumulam a nossa moeda virtual Qi$, que pode ser trocada por coisas reais como CDs, livros, camisetas, cursos etc.”

Ele lembra que aprender por meio de jogos é uma atividade antiga. “Platão falava que essa é a melhor forma de ensinar. Por isso, criamos um misto de entretenimento e educação, misturando conteúdo de games e séries, com matemática e física, por exemplo.”

O empresário conta que a receita da empresa vem de clientes corporativos, para os quais elabora projetos específicos. “Desenvolvemos um aplicativo para o Bradesco treinar 125 mil colaboradores por meio do celular. O resultado foi ótimo. A partir dessa experiência, outras empresas nos procuraram”, conta.

No momento, a Qranio tem 25 colaboradores e 15 clientes corporativos. “Nos próximos três anos, queremos alcançar 100 empresas de grande porte.”

Plataforma. Criada em 2011, por quatro sócios que formavam grupo de pesquisa a respeito de inovação na área de educação, no Instituto Oi Futuro, a plataforma de ensino à distância Tamboro, também usa a gameficação para aproximar o ensino da linguagem do jovem contemporâneo.

Maíra Pimentel, uma das sócias, afirma que a empresa já recebeu aporte de R$ 6 milhões concedidos por três investidores. De acordo com ela, os recursos foram empregados na produção de mais conteúdo e na melhoria das funcionalidades da solução.

Maíra Pimentel. Foto: Masao Goto Filho

“Trabalhamos muito com análise de dados e algoritmos, para avaliar o aprendizado dos usuários. Com os aportes, pudemos contratar um grupo de estatísticos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para nos ajudar na sofisticação do algoritmo, um dos principais ativos da plataforma, além de investir em comunicação e marketing.”

Ela conta que, no início, a ferramenta era voltada apenas aos alunos do ensino fundamental. “Trabalhamos muito com a rede pública. Só nos municípios paulistas de Sumaré e Santos atingimos 11 mil alunos. Agora, estamos fechando com escolas públicas de Cataguases (MG) e Nova Friburgo (RJ).

As premiações aumentam em 400% o nível de engajamento.” Maíra conta que há três anos, a Tamboro também passou a focar no ensino superior, para trabalhar o desenvolvimento das habilidades do século 21: comunicação, resolução de problema, colaboração, pensamento crítico etc. “Temos metodologias e ferramentas para desenvolver tais habilidades em escala, com o uso de tecnologia, sem perder o rigor da avaliação.”

A marca também criou aplicativo para o desenvolvimento de consultoras da Natura. A Tamboro tem 22 funcionários, encerrou 2017 com 46 mil usuários e espera dobrar esse público até o final deste ano.

Com seis anos de atividade, a startup de educação digital Descomplica adquiriu status de empresa de grande porte. “Temos 200 colaboradores e estamos com 100 vagas em aberto. Pretendemos chegar a 400 funcionários até o início do próximo ano”, diz o CEO, Marco Fisbhen.

Segundo ele, a velocidade do crescimento foi impulsionada tanto pelos US$ 32,5 milhões (R$ 100 milhões) provenientes de quatro rodadas de investimento quanto pelo fato de o mercado de educação ser enorme no Brasil.

“A penetração da educação é muito baixa no País. No ensino superior é de apenas 18%. E a penetração do ensino médio é de 50%. Então, quando se tem um País com dimensões continentais como o nosso, com uma população enorme, somados à baixa taxa de penetração, faz com que o mercado digital educacional no Brasil se apresente como muito atraente para os investidores”, avalia.

O Descomplica oferece aulas online de cursinho para Enem, vestibulares, concursos públicos, reforço escolar e de disciplinas de faculdade e de pós-graduação. “A empresa dobra de tamanho todos os anos. Quando o negócio era menor, era mais fácil conseguir isso. Ao crescer, é preciso investir ainda mais para continuar alimentando o crescimento.”

Fisbhen conta que buscar investidores internacionais foi um misto de necessidade e escolha. “Hoje, o cenário está muito mais propício para obter investimento brasileiro em empresas de educação. Em 2012, o cenário era outro. Além de haver poucos investidores no País, naquela época, as pessoas estavam focadas em negócios relacionados a compras coletivas, redes sociais e e-commerce.”

Marco Fisbhen. Foto Renan Angelici

Por esse motivo, ele entendeu que seria mais fácil levantar investidores fora. “Fui para São Francisco e Nova York, fiz algumas reuniões e consegui o primeiro investimento.”
Segundo ele, quando o empreendedor consegue obter uma primeira rodada de investimento estrangeiro, é uma tendência natural as rodadas subsequentes ocorrerem lá fora e serem mais rápidas.

“O ciclo para obter financiamento nos Estados Unidos é mais ágil que no Brasil. Além disso, mesmo com o crescimento do número de investidores no Brasil, lá fora esse número é muito maior.” Fisbhen, que começou a dar aula de física em 1997, diz que passou 2011 planejando a criação do o negócio, porque queria ampliar o alcance de seu trabalho.

‘É necessário se diferenciar no mercado e ter bom plano’

Entrevista: Marcus Nakagawa, professor de graduação e MBA da ESPM

Qual é o cenário de negócios de educação no País?
O segmento tem crescido muito no Brasil. Grandes universidades internacionais estão comprando universidades brasileiras. No modelo tradicional, a educação tem sido um bom investimento no País.

E no modelo virtual?
Startups que adotam esse modelo estão crescendo ainda mais em função do impacto social que causam. Elas oferecem projetos que empoderam os alunos e os valores cobrados são mais acessíveis e dão oportunidade para estudantes que não têm condições de estudar em escolas elitizadas.

Existem muitos negócios surgindo na área?
Gosto de citar o mapa de impacto social e ambiental feito pela Pipe Social (vitrine de negócios que conecta startups com investidores). Eles mapearam 579 negócios e identificaram que 38% dos projetos são na área de educação. Realmente, existe a necessidade de ampliar o acesso à educação, por ela ser a base para as melhorias sociais. As startups juntam a necessidade de educação com a questão da escala, porque usando a internet podem atingir mais pessoas.

Aula online é mais atraente?
Sim, porque foge da forma tradicional de ensino com livros e aulas dadas por professores. As startups têm linguagem jovem, o que faz com que o público se identifique com o serviço. Elas usam muita gameficação, um misto de jogos e prêmios. Os alunos aprendem e ao mesmo tempo têm uma experiência legal.

Como entrar no segmento?
É sempre é necessário ter um bom plano de negócio. O empresário também deve se diferenciar no mercado, por isso, deve pesquisar muito bem o que existe no mercado, não só no Brasil como no exterior.

É preciso buscar ajuda?
O empreendedor nunca consegue saber de tudo, por isso é bom buscar apoio de uma incubadora, aceleradora, profissionais mais experientes, ou investidor anjo que também o ajude no planejamento e gestão.

Como divulgar o negócio?
É preciso participar de eventos voltados às startups e de todas as oportunidades de prêmios nacionais e internacionais. Essas são formas de dar visibilidade ao projeto. Mesmo que não ganhe prêmios, vale pela chance de apresentar seu projeto e obter retorno dos jurados, para ter outras visões do projeto e fazer os ajustes necessários. É importante participar do macro ambiente para aprender mais.

É preciso ter aprovação do MEC?
Somente se tiver como proposta o ensino formal ou a emissão de certificados.

Qual é a sua avaliação sobre esse tipo de negócio?
Sou entusiasta desses projetos, porque é por meio da educação que se desenvolve um país. Temos o exemplo da Coreia do Sul, que investiu na educação e conquistou grande desenvolvimento em 30 anos. Nesse caso, a iniciativa foi do governo. No Brasil, o incentivo tem vindo de investidores. Que bom que eles entendem a educação como o futuro.