De olho no crédito

Zeina Latif

20 Abril 2017 | 05h00

A atividade econômica dá sinais de estabilização, e sua recuperação está contratada com o corte da taxa Selic pelo Banco Central. Há dúvidas, no entanto, sobre a velocidade de recuperação, em boa medida pela fraqueza do mercado de crédito e os obstáculos que limitam sua retomada.

O crédito é um importante canal da política monetária no Brasil. Da mesma forma que as condições restritivas de crédito agravaram a crise econômica, sua recuperação será importante para o bom funcionamento da política monetária.

A maior preocupação é com o crédito a empresas, que caiu para níveis inéditos. As concessões para pessoa jurídica (PJ) estão 44% abaixo do pico do início de 2008, descontada a inflação.

Há sinais de estabilização do mercado de crédito após três anos de deterioração, mas ainda muito frágeis. A taxa de inadimplência e as concessões de crédito ensaiam alguma estabilidade, mas por conta do aumento de reestruturações e renegociações de dívidas (12% do crédito total para a PJ ao final de 2016). As baixas e prejuízos nos bancos voltaram a crescer (3,1% para a PJ; 6,7% para pequenas e médias empresas) e a participação de ativos problemáticos (inadimplência, reestruturações e crédito com elevado risco) segue em alta (8,6% para a PJ; 14% para PMEs).


O quadro é mais preocupante para PMEs, que são justamente as que mais dependem do crédito bancário. A taxa de inadimplência atingiu 6,7% no final de 2016 (8,25%, incluindo reestruturações), contra 1,1% das grandes empresas.
O crédito sumiu. Em parte, por conta da queda na demanda de crédito para investimento e aquisição de bens pelas empresas. Mas há também restrições do lado da oferta dos bancos. O crédito para capital de giro despencou, comprometendo o funcionamento das empresas. Estas acabaram procurando socorro em linhas mais caras que dependem menos da decisão dos bancos de emprestar, como o cartão de crédito, que disparou nos últimos anos.

Outro sinal da restrição da oferta de crédito é a rigidez do spread bancário (diferença entre os juros finais e o custo de captação dos bancos), desde meados de 2015. O descompasso entre a taxa Selic em queda e o spread em alta, além do sugerido pelo aumento da inadimplência, dá uma noção do mau humor dos bancos. O risco na oferta de crédito aumentou particularmente com o maior ativismo do Judiciário, que tem um viés pró-devedor, elevando a insegurança jurídica. O resultado é crédito escasso e mais caro.

Esse quadro sugere uma reação lenta do crédito ao relaxamento monetário do BC, adiando a recuperação da economia. A demanda de crédito poderá ganhar tração – ainda que não para investimentos, devido ao elevado endividamento e à elevada ociosidade nas empresas. No entanto, a oferta talvez não se recupere na mesma velocidade, diferente do que ocorria no passado.
A oferta de crédito bancário é bastante sensível a outras variáveis e não apenas à taxa Selic. Se por um lado a queda dos juros pode ter um efeito positivo na capacidade (melhora do balanço) e no desejo (melhora das expectativas) dos bancos de emprestar, por outro há evidências de que outras variáveis, como a inadimplência elevada e risco país ainda pressionado, podem agir no sentido contrário. Pelo menos os bancos estão sólidos, com boa saúde financeira. Se fosse diferente, o quadro seria grave.
A volta do crédito poderá ser lenta. Pior que isso, a oferta de crédito, que ajudaria as empresas em sua travessia até a recuperação, poderá seguir restritiva por um tempo.

Desta vez não será possível contar com a ajuda de bancos públicos, pois eles sofrem as consequências dos excessos do passado. No caso de PMEs, a inadimplência (9,9%) é ainda maior do que nos bancos privados (7,2%). Reduzir compulsórios tampouco ajudaria, pois não há problema de liquidez nos bancos.
Medidas emergenciais poderão ser necessárias, a começar pelo reforço das garantias aos bancos para reduzir o risco do crédito.

Reduzir a Selic é importante, e muito, mas não resolve.