Erros de medição atrapalham

Zeina Latif

18 Maio 2017 | 05h00

Poucas vezes a atividade econômica no curto prazo foi tão relevante. O setor produtivo anseia pela volta da normalidade e o governo e seus aliados estão ansiosos para colher os frutos do ajuste na política econômica. Enquanto isso, o Banco Central avalia a calibragem da política monetária.

O PIB mensal calculado pelo BC a partir de pesquisas do IBGE mostra uma inflexão da atividade no primeiro trimestre. No entanto, o resultado não reflete adequadamente a realidade da economia. Do crescimento de 1,1% em relação ao quarto trimestre de 2016 (descontada a sazonalidade), não é possível discriminar entre o efetivo comportamento da economia e o impacto das mudanças nas pesquisas de faturamento de serviços e comércio decorrentes do aumento do número de empresas consultadas. O IBGE acerta na iniciativa, mas erra ao não ajustar a série histórica. Os dados de 2017 e 2016 não são satisfatoriamente comparáveis.

As novas séries foram iniciadas em janeiro de 2017, produzindo uma elevação de patamar naquele mês. Na divulgação inicial, o comércio varejista e os serviços haviam recuado 0,2% e 2,2% em janeiro em relação a dezembro. Nas séries revisadas os valores saltaram para crescimento de 3,1% e 0,2%, respectivamente.

Caso mantivéssemos os valores originais de janeiro, mês da transição, encadeando em seguida as variações de fevereiro e março pela nova pesquisa, teríamos uma variação de +0,1% e -2,2% no trimestre, e não os +3,4% e +0,2% reportados para comércio e serviços, respectivamente. Assim, a variação do PIB mensal do BC teria ficado no campo negativo no período, o que pode ser mais compatível com outros indicadores da economia.


A indústria, primeiro setor a sentir a crise e a dar sinais de estabilização (desde o final de 2015), ainda não aponta para uma retomada. O crescimento de 0,7% no primeiro trimestre refere-se provavelmente a oscilações de curto prazo e não a uma retomada. As sondagens no setor sugerem que o resultado foi influenciado por aumento de estoques, gerando um descompasso entre a produção e o fraco consumo. Em linha com essa leitura, o investimento seguiu fraco, com tendência de contração.

Outro dado é que os consumidores continuam reduzindo seu endividamento, em um contexto de crédito restrito e níveis recordes do medo de perder emprego, o que não condiz com o aumento expressivo nas vendas do varejo apontado.

Não havia no primeiro trimestre motor para a retomada, exceto pela contribuição da safra agrícola recorde, que deverá contribuir para uma leitura positiva do PIB oficial calculado pelo IBGE. O quadro econômico no primeiro trimestre ainda refletiu as condições monetárias bastante apertadas do segundo semestre do ano passado, tendo em vista o efeito defasado da política monetária. Além disso, um importante canal da política monetária, o mercado de crédito, ainda não estabilizou, com inadimplência em alta e concessões de crédito com tendência de queda.

Assim, pelos modelos de projeção, a demanda do setor privado no primeiro trimestre teria recuado, ainda que em ritmo mais moderado por conta da melhora da confiança de consumidores e empresários.

O aumento da confiança pode ser reflexo de elementos concretos, como a queda da inflação e da taxa de juros. Assim, enquanto no ano passado a recuperação dos indicadores de confiança era muito concentrada na sua componente de Expectativas, hoje a componente de Situação Atual ganha tração. O quadro agora é mais sólido.
Uma possível consequência da recuperação da confiança são os sinais crescentes na direção da estabilização no mercado de trabalho. Empresários mais confiantes seguram demissões, a despeito de condições econômicas ainda frágeis.

O paciente saiu do coma. Como não há instrumentos precisos para verificar seus sinais vitais, não é possível avaliar se o quadro está estável ou se já há recuperação. Pela aparência geral, a medicação está correta e conseguiu estabilizar o paciente. Uma melhora efetiva provavelmente ainda não veio.