Luz no fim do túnel da política?

Zeina Latif

13 Julho 2017 | 05h00

O ajuste da economia envolve reavaliar políticas públicas e, assim, contrariar interesses, e isso depende da capacidade de negociação de acordos e resolução de conflitos. Dependeremos, portanto, da política para avançar na agenda econômica.

A sociedade, no entanto, está desencantada com a classe política, e isso vai além da corrupção. Não se pode negar a sua responsabilidade pelo desastre econômico dos últimos anos. Os partidos da base de Dilma foram coniventes e sócios dos erros de política econômica, enquanto os partidos de oposição foram omissos.

Colhiam os frutos do quadro externo excepcional e dos acertos de política econômica da década passada, sem se preocupar com a terrível herança a ser deixada, mesmo com os alertas de muitos de que a guinada da política econômica no fim do governo Lula e aprofundada por Dilma era insustentável. Plantavam também a crise.

Certamente as estruturas políticas frágeis e o excessivo poder do Executivo na intervenção econômica contribuíram para o desastre econômico. As circunstâncias, porém, tiveram papel decisivo.

O quadro econômico excepcionalmente favorável da década passada fez mal ao País, pois gerou acomodação e condescendência na classe política, e também na sociedade.

Houve uma combinação de uma presidente da República ideológica e intervencionista e lideranças regionais e do Congresso que ou procuraram se beneficiar desse quadro, ou não queriam ser mais realistas que o rei. Inebriados, todos negavam a realidade.

Assim, os últimos anos não nos servem de guia para refletirmos sobre nosso futuro. Devem ser tratados mais como acidente ou desvio de percurso, do que reflexo de políticos incorrigíveis que teriam o DNA da irresponsabilidade.

Essa reflexão joga luz sobre a discussão da capacidade do País de avançar na agenda econômica nos próximos anos, para ao menos voltar a crescer em linha com o mundo e melhorar os indicadores sociais.
A classe política é mais pragmática do que ideológica e tem capacidade de reação. Há políticos fazendo bom trabalho.

Vale citar alguns exemplos de destaque. No Espírito Santo, de Paulo Hartung (PMDB), um corajoso ajuste fiscal, parcerias público-privadas em saneamento e agenda de privatizações. Em Alagoas, de Renan Filho (PMDB), a nova lei de Previdência dos funcionários públicos e regras para impor disciplina fiscal aos três Poderes, antes restrita apenas ao Executivo. No Ceará, de Camilo Santana (PT), a regra para teto de gastos e aumento de contribuição previdenciária.

Será essa reação algo provisório por conta da crise ou o início do enfrentamento da difícil agenda econômica? O caminho adiante será de avanço contínuo ou pularemos de crise em crise, com avanços tímidos e emergenciais diante de contingências? A julgar pelos avanços desde a democratização, não há muito o que celebrar, mas há razões para uma visão construtiva.

Do lado melancólico, a produtividade do trabalhador no Brasil está praticamente estagnada desde então, oscilando entre 25-30% da do trabalhador nos EUA, segundo o Conference Board. O crescimento econômico seguiu mais ou menos em linha com o mundo até 2010, mas em boa medida por conta da demografia favorável (que se reverterá em apenas 10 anos), o que significa mais pessoas trabalhando.
De qualquer forma, períodos de acerto na política econômica, como na década passada, foram seguidos de aumento de produtividade e investimentos.

Além disso, não foram apenas as crises que motivaram as reformas econômicas. Havia também a ambição de modernizar a economia, como na abertura comercial feita por Collor, nas privatizações de Collor e FHC, na Lei de Responsabilidade Fiscal de FHC e na importante agenda microeconômica de Lula. Cada um deixou seu legado na economia e o País avançou.

Se a história serve de guia, é provável que o País esteja retomando seu caminho após o desvio dos últimos anos, Ironicamente feito por uma não-política com fama de gerente. Que a eleição de 2018 não represente novo desvio.