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A importância de conhecer os parceiros ao fechar negócios

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18 de Julho de 2016 | 13:44
Atualizado 18 de Julho de 2016 | 13:44

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Em meio aos escândalos de corrupção vivenciados no país, as empresas brasileiras têm apertado o passo para se adequar às regras de compliance. Mas para ficar em dia com as boas práticas de gestão e ganhar credibilidade no mercado, já não basta olhar apenas para o próprio quintal, é preciso estar atento à conduta dos parceiros comerciais. 

A ampliação das regras e controles para empresas terceirizadas também beneficiam os negócios, que ocorrem com menos incertezas. O sistema financeiro nacional já está acostumado com essa rotina e até tem normas para guiar essas parcerias. No entanto, os outros setores ainda precisam dominar melhor o conceito de Know Your Costumer (KYC) - conheça seu cliente, na versão em português.

Segundo levantamento da Thomsom Reuters com cerca de 300 empresários brasileiros, somente 20% dos executivos consideram o programa KYC como uma política eficiente. Antes destinado apenas aos cuidados com os consumidores, o termo também vem sendo utilizado para frisar a importância de criar controles para o fechamento de contratos com terceiros. 

A ampliação das regras de compliance para parceiros é essencial para evitar negócios com empresas envolvidas em atividades ilícitas, mas ainda precisa evoluir no Brasil. Especialistas consultados pelo Estado dão sua opinião sobre o assunto. Deixe seu comentário e participe também da discussão.

 
Integridade é primordial
Integridade é primordial

Newman Debs

VP jurídico da Unilever Brasil

Em um mundo volátil que enfrenta desafios socioambientais, as empresas têm um importante papel na solução dessas questões. Por isso, trazer a sustentabilidade em todos os processos de negócios com o propósito de tornar este tema parte do dia a dia é a única forma de garantir um futuro melhor para todos. Pautada por esta atuação cada vez mais sustentável, dedicada a reduzir o impacto ambiental e aumentar o impacto positivo na sociedade, as questões que envolvem o tema de compliance são cada vez mais relevantes nas empresas.

Estruturalmente integrada à área jurídica da empresa, o compliance e o plano de sustentabilidade da companhia permeiam todas as suas áreas e devem fazer parte do dia a dia de cada colaborador, fornecedor e outros públicos estratégicos. 

Com aproximadamente 4.700 fornecedores no Brasil e atuando em 190 países, o nosso grande desafio é incentivar estes públicos a conduzirem suas atividades de forma adequada. Na empresa existe um Código de Princípios de negócios, que é como uma Constituição Federal, que se apoia em 24 políticas mandatórias aplicadas em todos os países onde a empresa atua, sem exceção. Mas como as diferenças culturais são imensas, há situações em que temos que adaptar a aplicação do código global à realidade e costume locais. Um exemplo é a política de presentes e hospitalidade. 

Globalmente temos uma regra que desestimula a troca de presentes. Entretanto, há uma norma local complementar que respeita a cultura onde essa política pode causar algum desconforto. Então, estipulamos um valor limite para evitar conflitos de interesses.  

Outra política global, só que bem mais rígida, é a de Fornecimento Responsável. Uma questão que sempre verificamos em nossos fornecedores diretos de matéria-prima e embalagens é se seus negócios são conduzidos dentro das leis e com integridade, bem como se as práticas de cultivo e produção respeitam o nosso Código de Agricultura Sustentável. O cumprimento destas normas impacta diretamente na política de crescimento sustentável da empresa, pois quando nos propomos a levar produtos que melhorem a vida das pessoas, é básico saber se algum fornecedor tem trabalho escravo, infantil ou se fere a legislação ambiental, por exemplo. Essas políticas são públicas e informadas logo no primeiro contato. 

Para fazer com que essas práticas cheguem a todos os funcionários, desenvolvemos um aplicativo que pode ser baixado gratuitamente em celulares, com perguntas e respostas sobre as práticas da companhia como, por exemplo, o relacionamento com fornecedores. O aplicativo de mensagens, tem limite de caracteres, proporcionando uma comunicação simples e efetiva. Sabemos que nossos funcionários são agentes transformadores e têm um papel fundamental na disseminação e engajamento do nosso Plano de Sustentabilidade junto aos nossos fornecedores e clientes, por isso a importância de muni-los com informações de qualidade.

 
Newman Debs,

Vice-presidente jurídico da Unilever Brasil

Moda com impacto positivo
Moda com impacto positivo

Elio Silva

VP de operações e marketing da C&A

O varejo de moda passa por uma grande transformação, que vai além da oferta de produtos de qualidade a preços justos. Consumidores cada vez mais conscientes buscam uma moda com impacto positivo, e que lhes permita expressar sua identidade e preferências, livres de estereótipos ou imposições sazonais de tendências. Assim, empresas de varejo de moda precisam desenhar modelos inovadores de gestão, fortalecer a parceria com a rede de fornecedores e gerar um ambiente de negócios justo, ético e profissional.

Para nós, o valor do que oferecemos diariamente aos nossos clientes está também na forma como esses produtos foram feitos. Em 1996, criamos nosso primeiro código de conduta para fornecimento de mercadorias, cuja aceitação é obrigatória em contrato, com foco em garantir práticas trabalhistas adequadas. Em 2015, o código foi atualizado e reforçou temas como conformidade legal, cuidados com o meio ambiente e práticas anticorrupção. Para garantir o cumprimento do código, em 2006, estruturamos um sistema de monitoramento da rede de fornecimento, que, ao longo de dez anos, realizou mais de 13 mil auditorias e contribuiu para a melhoria dos processos de gestão e do alinhamento aos princípios estabelecidos pela empresa. Formamos a equipe de auditores para que exerçam o importante papel de agentes de mudança durante os contatos com nossos fornecedores. 

Periodicamente, profissionais da nossa área comercial podem acompanhar as auditorias, a fim de compreender os desafios da produção têxtil no País. Promovemos, ainda, encontros com fornecedores, para reforçar a corresponsabilidade deles na evolução do setor. 

Diante de uma indústria que emprega mais de 1 milhão de pessoas no Brasil, fica claro o nosso papel de influenciar e liderar importantes transformações, como a maior formalização do setor, a inovação tecnológica e o respeito absoluto dos fornecedores aos seus trabalhadores. Foi assim, quando assinamos, em 2010, o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, para incentivar que empresas de nossa rede também aderissem à iniciativa. É assim hoje, quando atuamos em parceria com nossos fornecedores para desenvolver produtos com menor impacto ambiental, como a linha de jeans mais sustentável, lançada no início do ano, que usou algodão cultivado de forma mais responsável do ponto de vista socioambiental e foi mais eficiente no consumo de água durante sua fabricação.

Essa forma de fazer negócios é o reflexo da nossa cultura, pautada pela busca de relações éticas e sustentáveis. Acreditamos que a qualidade de um produto está diretamente relacionada à qualidade das relações que são estabelecidas em seu ciclo de produção. Esse é um dos princípios da nossa plataforma global de sustentabilidade. E é dessa forma que estamos nos preparando para continuar a crescer e liderar nosso negócio.

 
Elio Silva,

Vice-presidente de operações e marketing da C&A

Compliance: uma bússola para uma boa gestão
Compliance: uma bússola para uma boa gestão

Denis Rodrigo Jacob

Commercial Compliance da BD

A ética e a luta contra a corrupção têm tomado destaque nos noticiários do mundo inteiro. Ao contrário do que possa parecer, compliance não é a solução para todos os problemas das empresas. A base vem dos valores e da cultura corporativa: fazer a coisa certa, primar pela integridade ética como um valor incorporado a seu modo de ser e agir. Portanto, o código de conduta corporativo nada mais é que a formalização dos comportamentos (condutas) esperados dos colaboradores. O programa de compliance atua como um norte, uma bússola que indica em qual direção seguir, facilitando o processo de tomada de decisão, sejam estas rotineiras ou críticas. 

Um programa de Compliance estabelece políticas, processos e procedimentos que minimizam incertezas e facilitam a condução dos negócios. Porém, ele só será considerado efetivo quando os valores corporativos forem exercidos de maneira plena, através do exemplo da liderança e da cultura da empresa. Vários são os reflexos positivos do desenvolvimento de instituições e empresas alinhadas com as expectativas da sociedade referentes à ética e à boa governança. Empresas com atuação ética atraem e retém melhores talentos e constroem uma reputação mais sólida nos mercados em que atuam. Do ponto de vista econômico, empresas de alta reputação apresentam maior facilidade e custos reduzidos na captação de recursos externos viabilizando investimentos e inovação. Por isso, um programa de compliance operacionaliza as expectativas relacionadas ao comportamento ético das empresas e contribui como vantagem competitiva e um dos pilares do arcabouço de governança corporativa. 

Na área da saúde e equipamentos médicos, por exemplo, vemos cada vez mais laboratórios, hospitais, distribuidores e clientes em geral buscarem o apoio das grandes empresas e indústrias multinacionais, que de maneira geral foram pioneiros na implementação de programas de compliance no Brasil, a fim de obter orientação, compartilhamento de melhores práticas e troca de experiências. A discussão de problemas que afetam o segmento da saúde e a atuação conjunta dos diversos participantes reforça a relação estratégica e instituicional, gerando beneficios de longo prazo para as empresas e a sociedade em geral. 

De forma cada vez mais intensa, nossas associações de indústria, como a ABIMED e ABIMO entre outras, têm servido como ambientes propícios à troca de conhecimentos na área de compliance no setor, elevando os padrões de atuação da indústria e aprimorando suas práticas.

É esperado, enfim, que a conjunção desses vários fatores: um arcabouço jurídico mais rigoroso e coercitivo, uma indústria mais preparada e atuante e uma sociedade mais exigente em empresas que sigam os padrões legais e éticos cada vez mais elevados, possam impulsionar o desenvolvimento dos mercados competitivos, com mais transparência e ética, em benefício não apenas de todos os operadores do ambiente de negócios, mas principalmente do usuário final de todos os produtos e serviços de saúde, o paciente.  

* Artigo escrito em parceria com Antonio José Treno Rita, Commercial Compliance Manager da BD

 
Denis Rodrigo Jacob,

Denis Rodrigo Jacob, Commercial Compliance Director da BD, e Antonio José Treno Rita, Commercial Compliance Manager da BD.

Multinacional norte-americana, a BD é uma das líderes mundiais na produção e comercialização de dispositivos médicos, equipamentos e reagentes.

 
Não há espaço para quem não é transparente
Não há espaço para quem não é transparente

Satoshi Fukuura

CEO da Siscom

Qualquer empresa que hoje se estabelece no mercado possui algumas normas a cumprir com base na legislação vigente. O Código de Defesa do Consumidor regularizou a relação entre consumidores e empresas, e o Código Civil brasileiro regulamenta as relações jurídicas de ordem privada. 

Vários segmentos, com destaque para o setor financeiro, já possuem regras específicas que regem os negócios e as condutas de diversas companhias. Além disso, também há a criação de regras de conduta a serem seguidas dentro de seus segmentos. O chamado compliance tem se tornado um fator quase obrigatório para que a empresa ganhe credibilidade e possa crescer em um mercado competitivo. 

Porém, não são todas as áreas que contam com uma legislação de compliance específica. Em relação à recuperação de crédito, por exemplo, esta prática ainda está em fase de desenvolvimento. Não há normas de condutas específicas entre as empresas desse segmento, mas muitas práticas da área estão ligadas a regulamentações rígidas que vêm sendo exigidas pelos clientes. 

Muitas regras seguidas por Bancos e Instituições Financeiras também são aplicadas às terceirizadas, já que boa parte dos saldos em cobrança está em suas mãos. Para isso, a prestadora de serviços se compromete quando falamos de assuntos relacionados à segurança da informação, conflito de interesses e cláusulas anticorrupção. Os próprios contratantes criam também mecanismos de controle como o acompanhamento de balanços e movimentações financeiras das recuperadoras de crédito, e até mesmo devem estar ciente da relação da empresa com seus colaboradores e fornecedores. 

Mais do que se adequar a exigências de clientes e do mercado, as companhias também podem utilizar o compliance internamente para as mais diversas áreas, como trabalhista, financeira, operacional, marketing e monitoria. A Siscom, por exemplo,  adota o método de apresentar seu Código de Ética logo no primeiro dia de trabalho para o novo colaborador que por meio disso, pode conhecer os valores e os procedimentos da companhia. Com uma política de monitoria bem definida e estruturada, é possível, por exemplo, que o negociador aperfeiçoe sua abordagem e consiga propor uma solução mais adequada e eficaz ao cliente. Outras soluções também foram aplicadas como a implantação de canais de comunicação com a diretoria, uma auditoria externa sobre nossos serviços e a divulgação ampla de práticas como a segregação de funções com alçadas claras para aprovação de despesas e uma política de meritocracia alinhada, que vai além de premiar boas práticas. 

Hoje não há mais espaço para empresas que são pouco transparentes e não adotam posturas éticas e claras a respeito de seus procedimentos e ações, seja em relação a colaboradores, fornecedores, clientes e até mesmo concorrentes. A adoção de regras internas também colabora para potencializar seus resultados. Em longo prazo, as práticas de compliance estarão entre os fatores responsáveis por garantir não apenas a boa reputação da empresa no mercado, como também sua sobrevivência e seu sucesso.

 
Satoshi Fukuura,

Satoshi Fukuura é especialista em gestão de risco de crédito e reestruturação de empresas familiares. Possui sólida experiência em participar de processos de turnaround em empresas e know-how em prevenção a fraudes em instituições como Credicard, Unibanco, Banco Bandeirantes e BBA-Fináustria. Desde 2015 atua como CEO da Siscom, player de recuperação de crédito.

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