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Paulo Whitaker/Reuters

Economia

Por que o 'desinvestimento' se tornou uma estratégia importante para as empresas?

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27 de Setembro de 2016 | 00:00
Atualizado 04 de Novembro de 2016 | 19:43

Paulo Whitaker/Reuters

No último mês a Petrobrás anunciou seu novo plano de negócios, que prevê dois anos de austeridade e redução nos investimentos da companhia na ordem de R$ 19,5 bilhões. A decisão tomada pela estatal - 4ª maior empresa do País, segundo a Forbes - ilustra a estratégia que vem sendo adotada por boa parte das médias e grandes companhias brasileiras: a desaceleração nos investimentos. A escassez de crédito e a queda na demanda interna são alguns dos aspectos da crise econômica brasileira que podem explicar essa decisão das empresas de enxugar despesas administrativas e reduzir suas atividades.  

Levantamento do Centro de Estudos do Instituto Ibmec com 605 grandes companhias do País, divulgado em reportagem publicada pelo Estado, mostra que a geração de caixa tem sido suficiente para cobrir apenas 58% das despesas financeiras. Endividadas e perdendo a capacidade de honrar seus compromissos, as empresas brasileiras têm se tornado cada vez mais inadimplentes, aumentando as renegociações com credores e os pedidos de recuperação judicial. 

O Brasil registrou de janeiro a julho 1.098 pedidos de recuperação judicial de empresas, 75,1% a mais do que as 627 solicitações registradas no mesmo período de 2015, apontou o Indicador Serasa Experian de Falências e Recuperações. Em julho, as recuperações judiciais subiram 4,2% ante junho e avançaram 29,6% ante o mesmo mês do ano passado.

De acordo com a Serasa, há sinais de leve melhora da economia, mas ainda pesam sobre as empresas o fraco nível de atividade no País e os juros altos no sistema de crédito financeiro.

O Estado convidou especialistas para analisar as causas que desencadearam o "desinvestimento" e o que proporcionaria uma reversão desse movimento.

Alguns dos fatores que influenciaram a tendência foram a desvalorização do real, que fez com que empresas postergassem seus planos de investimento em máquinas e equipamentos estrangeiros; o aumento da taxa de juros, que fez os empréstimos ficarem mais caros; e a redução da demanda, consequência da crise. 

Paulo Funchal, sócio da Grant Thornton, explica que a união desses elementos fez com que o custo dos investimentos não fosse compatível com o retorno que eles trariam. 

"No ínicio deste ano, várias empresas refizeram seus cálculos e, em muitos casos, reduziram drasticamente o nível de investimento. Esta retração de consumo atingiu vários setores, que chegaram a ter reduções de 50% nos investimentos", diz.

Um dos setores mais atingidos foi o industrial. Segundo o professor da Faculdade de Administração da UFRJ Alexis Cavicchini, muitas empresas fizeram uma saída planejada ou reduziram drasticamente sua produção para investir em outras atividades, no setor de serviços ou em aplicações financeiras. 

O professor explica que a primeira razão para essas companhias serem as mais atingidas está no fato de ser "o segmento mais tributado do país". Uma segunda explicação está na perda da competitividade, decorrente do pouco investimento em tecnologia, máquinas e equipamentos. O professor explica que durante o período de "cotação artificialmente baixa do dólar", muitas indústrias perderam o mercado interno e se converteram em distribuidoras de produtos importados. 

"O desinvestimento feito pelas famílias que controlavam negócios industriais era a decisão certa em termos de negócios. O resultado, porém, foi trágico para uma multidão de trabalhadores industriais, que estavam entre os mais bem remunerados no país e hoje engrossam os 12 milhões de desempregados", explica.

Para os especialistas, uma eventual retomada da produção industrial e, consequentemente, do emprego está na redução da taxa de juros. Porém, também é preciso que as companhias sigam os princípios de boa governaça para que as empresas funcionem de forma eficiente.

Segundo Luiz Marcatti, diretor de gestão da Mesa Corporate Governance, é preciso que haja consenso entre os sócios em relação às decisões e práticas usadas na companhia, tanto para manter a produtividade quanto para proteger o patrimônio da empresa e, assim, ajudar manter a solidez da economia.

Desinvestimento: mais do que uma alternativa à crise
Desinvestimento: mais do que uma alternativa à crise

Bruno Guarnieri

advogado do escritório Miguel Neto

Em meio a uma crise que se arrasta há pelo menos dois anos no Brasil, o “desinvestimento” tem se apresentado de forma recorrente nos veículos de comunicação como sendo uma medida indicativa de turbulência financeira, sendo abordado como mecanismo de correção de um mau investimento. 

Temos que lembrar que enquanto “investimento” é uma operação estratégica de aquisição de meios de produção ou aplicação de capital; o “desinvestimento”, por sua vez, significa uma operação de estratégia econômica que consiste na supressão de um ou mais investimentos em estruturas parciais ou totais de uma empresa. 

Muito embora exista a inequívoca percepção de que o desinvestimento é uma alternativa utilizada para conter uma dificuldade financeira da empresa, é importante lembrar que, assim como investimento, fazem, e devem fazer, parte do planejamento estratégico de qualquer empresa em qualquer setor do mercado. 

Em tempos de escassez de crédito, redução da demanda de produtos e serviços, bem como o aumento das taxas de juros, aliados a um contexto político conturbado, é natural que as empresas busquem formas de sobreviver e se planejar sendo o desinvestimento muitas vezes uma opção - ou - a opção. 

Nesse contexto, testemunhamos, nos últimos anos, uma série de operações de desinvestimento emblemáticas na economia brasileira: Grupo EBX, Petrobrás, OAS, Camargo Corrêa entre outros. Virou comum ver grandes players do mercado promovendo operações desta natureza (em valores recorde), as quais estamparam capas de jornais por todo o país. 

Não estamos negando que o desinvestimento eventualmente represente uma alternativa para reestabelecer a saúde financeira de uma empresa, no entanto, procuramos, como advogados, sempre assessorar/orientar estrategicamente os clientes (empresas) na estruturação de desinvestimentos, que, igualmente, é medida estratégica direcionada à manutenção da competitividade, ou até mesmo para impulsionar o crescimento e a expansão das operações. 

Como exemplo, a venda de ativos pode ter como finalidade a realocação das atividades centrais da própria companhia, representando um ganho de escala e uma especialização que a tornam referência em determinado segmento. Por outro lado, a destinação dos recursos gerados por meio da venda de ativos para novos produtos ou mercados pode viabilizar a abertura de um novo segmento que amplia a capacidade competitiva de tal empresa. Assim, a decisão de desinvestir não se restringe ao contexto de dificuldades econômicas, mas engloba aspectos significativamente mais complexos e profundos, tais como estabelecimento de metas de curto e médio prazo, estudo da concorrência, análise do seu portfólio de negócios, entre outros. 

A visão equivocada que muitas vezes absorvemos sobre tal mecanismo (assim como outros tantos) tem relação direta com a cultura brasileira do improviso, superficialidade e remediação, enquanto que deveríamos considerar a experiência de mercados que têm uma cultura voltada para o planejamento, profundidade e prevenção estratégica. Nesse contexto, nos parece equivocado falar genericamente em “encerramento do período de desinvestimento no Brasil” eis que o desinvestimento pode e deve constituir manobra estratégica contínua de atuação das empresas e deverá continuar a ocorrer mesmo com a melhora econômica, mas com o viés positivo. 

Importante lembrar que desinvestimento para players financeiros significa, como meta, a realização de um investimento feito no passado, ou seja - um ganho - mais do que um remédio à crise, o desinvestimento, assim como o investimento, deve ser planejado, estudado e tratado como alternativa de fortalecimento econômico para as empresas brasileiras e não apenas como ferramenta de correção de uma má gestão. Talvez estejamos próximos do encerramento do ciclo de venda de ativos relevantes com a finalidade remediadora, mas talvez não devêssemos continuar a pensar assim. 

 
Bruno Guarnieri,

Bruno H. S. Guarnieri, advogado especialista e sócio da área societário do escritório Miguel Neto Advogados, e Ronaldo M. Assumpção Filho, advogado do escritório

Praticando os princípios da boa Governança Corporativa
Praticando os princípios da boa Governança Corporativa

Luiz Marcatti

sócio da Mesa Corporate Governance

A governança corporativa é um conjunto de estruturas e regras existente nas empresas para a condução e o controle dos negócios e resultados, dentro dos deveres e dos direitos dos seus sócios. Esse conjunto pode ser formal, com base em documentos, acordos e regimentos que definam claramente sua abrangência e autonomia;  e também, como acontece na maioria das empresas existentes, pode ser tácito, informal, definido muito mais pelo que se pratica, do que pelo que está escrito, caso esteja.

Os princípios da boa governança se concentram em quatro fatores: transparência, equidade (tratamento justo), prestação de contas e responsabilidade corporativa. Essas são palavras de fácil entendimento, mas a sua aplicação ampla e contínua requer muito do comportamento das pessoas que atuam em uma empresa. A começar pelos sócios. Nesse caso, não há a menor chance de que esses princípios sejam praticados em qualquer companhia, se não forem vividos e disseminados a partir das sociedades, ou seja, na escala mais alta de poder dentro das organizações. 

A partir dessa consciência e atitude é que os donos poderão fazer com que esse jeito de administrar os negócios seja algo real entre seus colaboradores e na relação que todos mantém com demais públicos de interesse, como clientes, fornecedores, governo e sociedade.

Não encontraremos um ambiente equilibrado nesse sentido se os sócios que não cumprem entre si esse compromisso e, por segurança, querem imprimí-los aos seus colaboradores. Os profissionais verão de forma rápida e clara a inconsistência entre o discurso e a prática, tornando praticamente impossível que esses valores permeiem e criem raízes na companhia.

Sócios muitas vezes tomam condutas particulares, que acabam definindo o modelo próprio de governança das empresas. Não é raro encontramos situações onde eles loteiam a empresa, cuidando cada um de uma área específica e, até para manter o poder individual de atuação, não compartilhando informações, nem decisões relevantes. Parecem negócios distintos, que não fazem parte da mesma organização, deixando um ambiente de difícil entendimento da real performance da empresa, com base em visões fracionadas. Falta a visão do todo.

Em outros casos, principalmente quando há um dono, ou mesmo o sócio majoritário da empresa, esses empresários atuam no sentido de proteger seu patrimônio, acreditando que só há uma maneira correta de administrar o negócio: o seu jeito. Por isso, são muito controladores e centralizadores. Mostram-se pouco interessados em compartilhar as principais decisões entre os demais sócios e  executivos. Essa conduta pode levá-los a sonegar informações relevantes, inclusive para os demais sócios, sobre os caminhos que a empresa está trilhando, além da real situação econômico-financeira. Exatamente este ponto pode tornar-se um catalizador de conflitos societários, tanto nas épocas de fartura, quanto nos momentos de crise como o que estamos vivendo.

Quando a empresa apresenta um resultado muito positivo, com grande lucro, o dono pode não prestar contas regularmente aos seus sócios, ou não apresentar de forma transparente esta performance. Assim, ele conseguirá administrar melhor os recursos para reinvestimentos na própria empresa, dentro de sua própria ótica. Por uma questão de equidade, é absolutamente justo que todos os sócios tenham seu capital remunerado de maneira a manter seu interesse no negócio.

Na situação inversa, quando a empresa está passando por dificuldades, impactada negativamente pela crise, seja ela de origem interna ou externa, esse empresário poderá manter sua atuação de esconder a realidade dos seus sócios. Nesse caso, é muito comum que ele queira esconder algo que possa transmitir  um sinal de incompetência na condução dos negócios, o que com certeza iria fragilizá-lo diante dos seus pares.

Em qualquer dessas situações, o resultado para a relação societária pode ser muito danoso, algumas vezes até um caminho sem volta, que pode acabar com a relação entre os sócios e até com a companhia.

As boas práticas de governança corporativa têm valor para as empresas e para as sociedades, mas não aquelas que constam dos documentos e sim as que realmente são praticadas.

 

Luiz Marcatti,

Sócio e diretor de gestão da Mesa Corporate Governance, é administrador de empresas com especialização em comércio exterior, marketing, e atua na Formação de Conselheiros de admnistração pelo IBGC. 

Investimento é imprescindível para o próximo ciclo de crescimento
Investimento é imprescindível para o próximo ciclo de crescimento

Alexis Cavicchini

Professor da FACC-UFRJ

É triste percorrer ruas de São Bernardo, e alguns bairros de São Paulo, capital, e identificar uma impressionante quantidade de pontos que foram ocupados por importantes empresas industriais. A primeira impressão, de quem faz o percurso e não conhece a história, é de que as companhias faliram ou foram fechadas por problema de sucessão.

Na realidade, a maior parte das famílias controladoras destas empresas fez uma saída planejada, saindo do negócio industrial para investir em novos negócios no setor de serviços ou em aplicações financeiras. Algumas mantiveram as fábricas com um mínimo de atividades e se transformaram em distribuidoras de produtos, com as suas marcas, importadas da Ásia ou de outros mercados.

Fiz este percurso recentemente, com um amigo que fechou o negócio e hoje é incorporador e investidor no mercado financeiro. Fomos até a imensa área onde estava o parque industrial da fábrica fundada pelos seus avós. Em breve, assim que os juros caírem, vai ser derrubada e virar condomínio!

Um analista financeiro pode dizer que é “a força transformadora do capitalismo”, buscando oportunidades. E é. Os empreendedores fecharam estas empresas por duas razões principais:

1.      Primeiro em razão de a indústria ser o segmento de negócios mais tributado no país.

2.      Em segundo lugar, por terem perdido escala e competitividade, devido a investimentos sucessivamente menores em tecnologia, máquinas e equipamentos. O dinheiro passou a ser alocado no mercado financeiro ou em empresas de serviços.

O desinvestimento feito pelas famílias que controlavam - ou ainda controlam - negócios industriais era a decisão certa em termos de negócios. O resultado, porém, foi trágico para uma multidão de trabalhadores industriais, que estavam entre os mais bem remunerados no país e hoje engrossam os 12 milhões de desempregados.

O resultado deste desinvestimento mostra que a indústria que já representou mais de 30% do PIB ficou reduzida a 22,7% do PIB em 2015.E a indústria de transformação a 11,4% do PIB.

Apesar do maciço desinvestimento nas atividades industriais, o país ainda mantém uma estrutura que pode se revigorar e se transformar em grande empregador e investidor.

E o que falta para uma retomada da produção industrial e do emprego?

A primeira resposta que surge, em uma avaliação superficial, é a redução dos juros para capital de giro e investimento das empresas. E está certa. Porém, não é a principal.

O desinvestimento na indústria, com todas as suas mazelas, deve-se à cotação artificialmente baixa do dólar. A supervalorização do real fez com que as indústrias perdessem o mercado interno e se convertessem em distribuidoras de produtos importados.

As indústrias brasileiras sofreram muito com todas as convulsões da década de 1980, mas se mantiveram competitivas. O que arrasou as empresas de transformação foi o câmbio.

Entre 1994 e 2016 se transcorreram vinte e dois anos. Tempo suficiente para que diversos governos constatassem que a inflação não seria controlada pelo real supervalorizado e que a perda do emprego industrial transformou trabalhadores qualificados - quando conseguiam outro emprego - em garçons, porteiros de hotel e manobristas.

O que causou o desinvestimento é a mesma ferramenta para reerguer o parque industrial brasileiro. O câmbio. Uma desvalorização de 25% a 30% no real é suficiente para que volte a ser competitiva a produção de uma infinidade de produtos no mercado interno, com escala para serem exportados. E as indústrias, com faturamento em moeda forte, podem tomar financiamentos externos, para investimentos, nas taxas excepcionalmente baixas que ocorrem no mercado internacional.

A indústria pode voltar a florescer. E o que mais precisa é de câmbio.

Alexis Cavicchini,

é professor da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis da UFRJ

O cenário da redução de investimentos nas empresas
O cenário da redução de investimentos nas empresas

Paulo Funchal

sócio da Grant Thornton

No jargão econômico, investimento significa a aplicação de capital: é um bem que pode ser utilizado na produção de outros bens, visando ao aumento da capacidade produtiva. São os chamados bens de capital, como instalações, máquinas, transporte e infraestrutura. Do ponto de vista macroeconômico, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) mede o quanto as empresas aumentaram esses bens de capital. Este indicador sinaliza se a capacidade de produção do país está crescendo e se os empresários estão confiantes no futuro.

Desde 2013 - devido ao baixo desempenho da economia brasileira, considerando o crescimento do PIB - a FBCF vem decrescendo. As variações dos investimentos da economia estão diretamente correlacionadas às variações do PIB. Ou seja, é esperado que, com o aumento de investimento das empresas o PIB também seja impactado positivamente. Mas, será que somente a variação do PIB explica a significativa redução de investimentos das empresas nos últimos anos? 

Considerando-se que o PIB é uma estatística muito representativa para a economia em se tratando de demanda por produtos e serviços, a sua variação pode ser tomada como um indicador importante. Esta variação representa um fator relevante para a evolução de vendas e, consequentemente, determinante para as receitas operacionais das empresas, apresentando de forma bastante fidedígna a queda dos níveis de investimentos das companhias.

Uma análise mais detalhada de outros indicadores econômicos também auxilia para um melhor entendimento de outros fatores que, conjuntamente com a redução de vendas, influem bastante na decisão empresarial de investir ou não. Confira na tabela abaixo:

 

AnoPIB % var.Câmbio finalCDI anual médio
20107,53%1,679,80%
20112,73%1,8811,60%
20121,03%2,048,40%
20133,01%2,348,10%
20140,10%2,6610,80%
2015-3,85%3,913,30%
2016 1T-4,69%3,5613,70%
2016 2Tnd3,2114,10%
 

Na tabela acima observa-se dois fatores que tiveram impacto relevante para aumento do custo. Um deles foi a desvalorização do real que, de 2013 para o primeiro trimestre de 2016, apresentou uma depreciação de 37,2%. Isso fez com que várias empresas postergassem os seus planos de investimento em máquinas e equipamentos estrangeiros.

O outro ponto foi o aumento da taxa de juros. O custo do CDI (base para os juros cobrados das empresas) de 2013 para o segundo trimestre de 2016 teve um aumento absoluto de 6%, ou seja, uma variação nominal de 74,1% no custo básico do dinheiro. 

A conjunção da redução da demanda pelos produtos, aumento do custo de equipamentos importados e elevação dos juros faz com que o custo dos investimentos não seja compatível com o retorno. No ínicio deste ano, várias empresas refizeram seus cálculos e, em muitos casos, reduziram drasticamente o nível de investimento. Esta retração de consumo atingiu vários setores, que chegaram a ter reduções de 50% nos investimentos.

Um estudo recente feito pelo economista Carlos Antônio Rocca, do CEMEC, entidade de natureza técnica do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC), com 605 empresas, mostrou um aumento do endividamento das companhias entre 2010 e 2015.

Este endividamento criou um ciclo vicioso, que termina não só com a propensão de investimento das empresas, mas em muitos casos, a geração de caixa das empresas é inferior ao valor das despesas financeiras, e sabemos que um cenário deste a longo prazo acaba se tornando insustentável. 

Como é de se esperar, um investimento produtivo é realizado quando a taxa de lucro sobre o capital supera ou se iguala à taxa de juros, ou quando os lucros são maiores ou semelhantes ao capital investido. O cenário atual não permite que em um curto prazo tenhamos uma recuperação contundente dos investimentos. 

Contudo, em recente publicação, o IPEA apresentou uma ligeira alta (0,38%) no Indicador IPEA de FBCF, na passagem do primeiro para o segundo trimestre de 2016, a primeira alta desde os primeiros trimestre de 2014. Apesar de passarmos por quase três anos de redução constante nos níveis de investimento, é possível que esta mudança, apesar de tímida, possa ser o indício de estarmos perto do início da retomada dos investimentos. Dados do mercado mostram que este pequeno aumento dos investimentos se refletem em uma modernização de equipamentos, que mostram uma busca por melhorar a competitividade das empresas. 

Pela primeira vez, desde janeiro de 2014, a expectativa dos empresários brasileiros para os próximos 12 meses volta a ser otimista, elevando o índice de -13% para 18%, segundo o estudo International Business Report (IBR), pesquisa trimestral realizada pela auditoria e consultoria Grant Thornton, que avalia a expectativa de líderes de mercado em 36 economias. 

Mas, para que esta retomada seja mais consistente, é necessário que várias pré-condições macroeconômicas sejam reestabelecidas, como a redução da taxa de juros, que está intimamente ligada a uma política fiscal responsável. Esta retomada deverá ser puxada principalmente pelos setores envolvidos em projetos de infraestrutura. E um novo cenário de investimentos por meio de concessões e privatizações dependerá muito do sucesso destes processos. Enquanto isso, os empresários aguardam ansiosamente pelas novidades e, principalmente, pelo aumento dos investimentos que trará, consequentemente, uma retomada do crescimento da economia brasileira. 

 
Paulo Funchal,

é sócio líder de transações da Grant Thornton

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