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Rodízio de auditorias contribui para a saúde das empresas?

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ESTADÃO ECONOMIA,

16 de Fevereiro de 2016 | 00:00
Atualizado 16 de Fevereiro de 2016 | 16:13

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O revezamento na contratação de empresas para auditar demonstrações financeiras divide opiniões de especialistas. De um lado, há quem defenda a rotatividade em pró da análise isenta e objetiva dos números. Por outro, o argumento é que o conhecimento sobre o negócio se perde na trasnsição e acaba gerando custos maiores para as companhias. No caso do Brasil, há ainda o questionamento sobre a concentração nesse mercado, que também levanta questionamentos sobre os efeitos práticos do rodízio. Especialistas consultados pelo Estado dão sua opinião sobre o assunto. Deixe seu comentário e participe também da discussão.

 

As duas faces do rodízio
As duas faces do rodízio

Andre Marini

IIA

A discussão sobre a obrigatoriedade de promover alteração do auditor independente em uma empresa, há tempos é algo debatido mas que conta com importantes inferências que precisam ser abordadas em uma análise ampla. Do ponto de vista da auditoria interna, que responde diretamente ao conselho de administração de uma organização, o rodízio do auditor externo não traz significativas mudanças, visto que a ação colaborativa - no sentido de fornecer subsídios e materiais para avaliações - deve ser mantida.

Entre os aspectos positivos, os novos auditores costumam trazer uma visão diferenciada, que pode contribuir com sinergias, apontamentos construtivos e importante leitura ainda mais clara dos sistemas de controles internos. Surgem nessas mudanças recomendações com o intuito de estimular a aderência ao planejamento estratégico da empresa. A grande vantagem é que essa nova equipe, que acaba de chegar, proporá novas abordagens e um enfoque, muito provavelmente, distinto da praticada pela equipe anterior, embora o objetivo seja o mesmo, ou seja: avaliar controles internos, validar saldos, realizar testes substantivos e de conformidade, para posterior emissão do parecer dos auditores independentes.

No outro extremo, há situações relevantes, que impactam principalmente nos custos dessa operação de transição. A nova auditoria independente precisará de dezenas de horas a mais de trabalho para começar a entender melhor o negócio de quem irá auditar. Leva-se tempo para um raio x minucioso e esse tempo impacta em consumir energia de quem recebe os auditores internamente e claro, no bolso da organização. A rotina é alterada, esse entrosamento que já acontecia com o time anterior precisa ser concebido novamente. Há um período de maturação que, muitas vezes, pode demandar mais tempo para que os novos auditores estejam aptos a emitir suas opiniões.

Os auditores externos têm papel fundamental em um processo de transparência e na elucidação dos conceitos de governança e compliance, garantindo a confiabilidade almejada pelos acionistas. Eles atuam embasados em colher evidências para fundamentar sua opinião e, costumeiramente, colaboram  no oferecimento de pontos de aprimoramento. É singular quem se beneficiará mais ou menos dos rodízios. Há o aspecto cultural da gestão de cada organização e ainda o status atual de como a auditoria externa vem sendo aplicada. Em alguns casos o rodízio é essencial, em outros; será custoso e complexo. Não há uma receita perfeita, mas já que a obrigatoriedade o faz necessário, que os gestores tentem tirar o melhor proveito das vantagens e possam minimizar os pontos desafiadores. 

Andre Marini,

presidente da Diretoria Executiva do Instituto dos Auditores Internos do Brasil (IIA)

Mercado concentrado
Mercado concentrado

Sérgio Lucchesi Filho

Moore Stephens

O rodízio obrigatório de auditorias para empresas abertas não necessariamente traz mais qualidade aos trabalhos de auditoria, mesmo que tenha sido esse o objetivo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) com a edição da norma, originalmente feita em 1999. A medida tem sido adotada em apenas alguns países, além do Brasil, e seus resultados práticos são controversos.
O objetivo seria o de impedir que, com o passar do tempo, um relacionamento mais estreito entre a equipe de auditoria e os administradores da empresa auditada acarretasse um menor nível de questionamento das informações recebidas, em outras palavras, a perda do ceticismo profissional, atributo inerente ao auditor. Ainda, argumentou-se que possível interesse das empresas de auditoria em manter seu cliente pelo maior tempo possível poderia levar à perda de independência e rigor na execução dos serviços. Ou seja, com o tempo, o trabalho feito por uma mesma empresa de auditoria perderia a qualidade requerida.
A obrigatoriedade do rodizio pressupõe, na verdade, passividade por parte das firmas de auditoria, das empresas auditadas e até dos órgãos regulamentadores de atividades, diante dessas possíveis mazelas, e outras da profissão, aparentemente tratadas como se fossem inevitáveis.
Tal inação não é obviamente o que se tem visto na prática. Os controles internos mantidos sobre informações financeiras emitidas pelas empresas têm sido aprimorados continuamente, como deve ser. Um dos bons exemplos é a atuação dos Comitês de Auditoria, cada vez maior e profícua, sendo um importante mecanismo de reforço da governança corporativa.
Do lado das empresas de auditoria, a prática organizada da rotação da equipe de profissionais em clientes já faz parte do rol de medidas adotadas, o que tem o mérito de possibilitar aprimoramento profissional mais rápido e intenso das equipes e, consequentemente, dos trabalhos efetuados. Além disso, a revisão interna de trabalhos de auditoria feita por outras equipes de profissionais também reforça os mecanismos de monitoramento da qualidade dos trabalhos feitos.
E, não menos importante, vale comentar alguns dos mais recentes esforços do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) que vão à mesma direção: a introdução da revisão do trabalho por outras empresas do segmento (a chamada revisão de pares), sempre acompanhada de perto pelo Comitê Administrador do Programa de Revisão Externa de Qualidade (CRE); o programa de educação continuada obrigatória dos auditores; e a adoção das normas internacionais de auditoria, com rigorosas normas éticas e de independência associadas à execução dos serviços.
Por outro lado, são conhecidos e relevantes os argumentos contrários ao rodizio, principalmente a perda de conhecimentos sobre as características de cada negócio empresarial que se dá com a mudança de auditores. O passar do tempo também conta a favor de um conhecimento maior do negócio, e da qualidade do trabalho de auditoria, o que acaba dificultado pelo rodízio. Ainda, adicione-se que a obrigatoriedade da mudança tira dos órgãos da administração o poder de escolher a empresa que irá auditar suas demonstrações financeiras, o que nos parece inadequado.
Tudo isso considerado, resguarda-se plenamente a qualidade dos serviços de auditoria, inclusive através da atuação, cada vez mais qualificada e somada, de auditores, empresas, mercados, órgãos reguladores e outros interessados nesses serviços, sem que haja a necessidade da troca periódica do auditor de companhias abertas por imposição regulatória. 
Sérgio Lucchesi Filho,

especialista em auditoria e gestão tributária, foi diretor técnico da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac); atualmente, integra o Comitê Técnico da Moore Stephens na América Latina e é CEO das unidades de São Paulo e Rio de Janeiro

Dano potencial
Dano potencial

Antonio Castro

Abrasca

Desde a audiência pública da norma que tornou obrigatório o rodízio de firma de auditoria, a Abrasca vem chamando atenção para o potencial dano contido na ideia  em virtude do risco de erro, que é maior quando um novo auditor inicia os trabalhos com uma companhia, além da grande demanda de tempo dos profissionais da empresa para explicar aos novos auditores sobre as particularidades das suas operações. A curva de aprendizado, em media, pode levar até 24 meses.

A CVM encomendou um estudo econométrico para avaliar se a troca da auditoria havia gerado melhorias nos balanços das companhias abertas. A conclusão do estudo é que havia ocorrido variações, em termos quantitativos, que indicariam aperfeiçoamentos dos dados contábeis a partir do trabalho do novo auditor.

Como o resultado era diametralmente oposto à observação empírica dos auditores, reunidos no Ibracon, e dos contadores das companhias, reunidos na Abrasca, a Associação encomendou estudo qualitativo ao Centro de Estudos Contábeis da FGV para que fossem avaliadas as ocorrência que indicavam aperfeiçoamentos segundo o estudo quantitativo da CVM. A conclusão obtida foi que as variações quantitativas que seriam indicativas de aperfeiçoamentos, na realidade, deveram-se a outros fatores.

Por exemplo, era premissa da CVM que uma redução de ativos no balanço elaborado por novos auditores significasse conservadorismo, portanto, um aperfeiçoamento da demonstração. Na realidade, os casos concretos de redução de ativos foram decorrentes de cisão da companhia aberta, não se devendo a redução do número a maior acuidade do novo auditor. Foi uma coincidência: troca de auditor concomitante com cisão.

O estudo da FGV foi conclusivo: o rodízio de firma de auditoria é um custo sem benefício. Infelizmente parece não haver sensibilidade para a eficácia da regulação vis-à-vis seus custos, que são muito grandes no caso do rodízio principalmente para as companhias abertas internacionalizadas com muitas empresas de grande porte.

Antonio Castro,

presidente da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca)

O que conta é a atitude
O que conta é a atitude

Idésio Coelho

Ibracon

Hoje, no Brasil e em boa parte dos países, empresas de capital aberto são obrigadas a trocar periodicamente as firmas que auditam suas demonstrações contábeis. Os benefícios dessa prática, porém, são controversos, e um estudo norte-americano divulgado recentemente pela Federação Internacional dos Contadores (Ifac, na sigla em inglês) propõe uma abordagem diferente para avaliar a relação entre a duração desses mandatos e a qualidade da análise das demonstrações contábeis.

Batizado de The Effects of Auditor Rotation, Professional Skepticism, and Interactions with Managers on Audit Quality (Os efeitos do rodízio de auditor, ceticismo profissional e interação com gestores na qualidade da auditoria, em tradução livre), o estudo foi realizado pelos professores Kendall O. Bowlin, Jessen L. Hobson e M. David Piercey, respectivamente das universidades de Mississipi, Illinois e Massachusetts. O objetivo foi determinar o elemento-chave da dinâmica que, no mundo real, estabelece-se entre o auditor independente e o gestor de uma empresa auditada, o que envolveu o acompanhamento, em situação controlada de laboratório, de pares anônimos de auditores e gestores nas suas tomadas de decisões.

Até agora, havia apenas duas formas de enxergar a questão. Os apoiadores do rodízio argumentam que ele preserva a independência do auditor e melhora a qualidade da auditoria, ao impedir que a intimidade com o cliente aumente a predisposição a confiar nas informações fornecidas. Seus oponentes alegam que a rotatividade, além de acarretar custo alto para as empresas,  faz com que conhecimentos específicos dos meandros do negócio se percam a cada mudança, prejudicando a qualidade técnica da auditoria.

O novo estudo torna a discussão um pouco mais complexa ao introduzir uma variável subjetiva  à análise e concluir que o rodízio, em alguns casos, aumenta os riscos que se propõe a eliminar.

É natural que, com o passar do tempo, o ser humano ganhe confiança na sua capacidade de avaliar a veracidade ou não das informações que recebe em determinado contexto. No caso do auditor, isso tanto pode exacerbar a confiança quanto o ceticismo frente às informações apresentadas pelos gestores. O revezamento mina esse mecanismo psicológico de reforço, interferindo diretamente no resultado do trabalho do auditor. Se uma predisposição à confiança se estabelece, a ruptura é positiva. Mas, quando o ceticismo prevalece, o relacionamento mais longo favorece a qualidade da auditoria.

O saldo dessa descoberta para as empresas e o mercado é trazer à luz uma alternativa mais eficiente (e barata) para garantir a excelência da auditoria, que é a substituição dos custosos rodízios pelo privilégio ao ceticismo profissional, um pré-requisito na profissão de auditor independente. Se parecer subjetivo demais, o caminho do meio aponta para, no mínimo, uma ampliação significativa dos intervalos para essa rotatividade. No Brasil, atualmente, adota-se o rodízio a cada cinco anos. É muito pouco quando se pensa em conhecer a fundo operações que chegam a envolver milhares e milhares de transações a cada dia.  

Idésio Coelho,

presidente do Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon)

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