Trabalho não precisa ser um drama
Executivos recorrem ao teatro para melhorar a comunicação, controlar a ansiedade e saber lidar com as inconstâncias do mercado
SÃO PAULO - Presidente aos 30 anos da empresa de tecnologia da informação que herdou do avô, a NP Group, Engler Santoni tem o desafio diário de comandar 350 funcionários, alguns com mais idade do que ele. Transmitir credibilidade e passar a mensagem desejada costumava ser uma tarefa árdua - cenário que hoje começa a mudar graças a aulas de teatro. "Sentia dificuldade em comunicar uma estratégia para o corpo de gerência e às vezes ficava travado", explica o empresário, que desde o final de 2009 é aluno do curso de teatro para executivos da escola E.I.T., em São Paulo. (Assista abaixo a reportagem em vídeo)
O resultado surpreendeu Santoni, que decidiu levar a técnica para dentro da empresa. "Coloquei os gerentes para fazer o treinamento, pois havia problemas de relacionamento e confiança que atrapalhavam a produtividade." O objetivo agora é estender o curso para todo o corpo de liderança da empresa. "Funciona quase como uma terapia e ajuda a melhorar o desempenho como empreendedor", ressalta Santoni.
Batizada de Cultura da Performance, a metodologia utilizada na E.I.T. busca aprimorar a ação dos líderes dentro da empresa em que atuam. "Os executivos são colocados em situações-problema ligadas às competências que precisam desenvolver, como comunicação, liderança ou relacionamento interpessoal", esclarece Leonardo Calixto, sócio-fundador da E.I.T. "O teatro faz a pessoa rir de si mesma e ser capaz de lidar de forma mais descontraída com o problema", afirma o ator, que já prepara um livro sobre a metodologia, com lançamento previsto para o segundo semestre deste ano.
Teatro sim, máscaras não
Recorrer ao teatro para desenvolver a comunicação é válido, mas a técnica não deve ser utilizada para mascarar a personalidade do executivo. A opinião é do sócio da empresa de recrutamento e seleção Fantozzi & Associates, Alexandre Fantozzi. "Aulas de teatro que deixem o empresário mais confortável para falar em público e desenvolvam o relacionamento interpessoal são fantásticas, mas acho perigoso quando a pessoa usa isso para disfarçar a realidade", alerta o headhunter.
No passado, explica ele, as empresas buscavam um profissional mais técnico, mas hoje há uma forte valorização do executivo resiliente, capaz de se adaptar às constantes mudanças no mercado de trabalho. "Os empregadores continuam buscando profissionais que tragam resultado, mas a habilidade de comunicação é quase mais importante hoje em dia", diz Fantozzi. Segundo ele, o executivo que traz bons retornos para a companhia e ainda consegue ter bom relacionamento com chefes, subordinados e pares tem o sucesso garantido.
Para o gerente de infraestrutura de tecnologia da Accor, Giancarlo Trentini, os executivos alcançam um limite de qualificação técnica após um longo tempo de carreira. "A partir daí, é necessário buscar diferenciais em outras áreas", afirma ele, que faz aulas particulares de teatro na E.I.T. desde o início do ano. "O curso ajuda a gerir e entender melhor as pessoas", resume o executivo.
Resgate da espontaneidade
Em uma ampla sala nas dependências da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), em São Paulo, o palco improvisado simula uma sala de reuniões, onde gerentes, advogados e empresários encenam situações do dia a dia corporativo. Ternos, gravatas e sapatos ficam em um canto isolado, enquanto os alunos se dedicam a exercícios de voz, corpo e dramatização.
O principal objetivo é o resgate do espontâneo, explica a atriz e psicóloga Nany di Lima, responsável pela coordenação do curso de teatro para executivos da fundação. "É o espontâneo que encanta, no sentido de ser livre e criativo", ressalta ela, que também já atuou na área de recursos humanos. "As pessoas passam por condicionamentos culturais, educacionais e emocionais ao longo da vida e o espontâneo acaba sendo oprimido."
Segundo Nany, os executivos procuram o curso por diversos motivos, entre eles reduzir o stress, adquirir maior naturalidade nos contatos profissionais e até por indicação do próprio chefe. Este é o caso de Wilton Brito, gerente de serviços de uma indústria em São Paulo, que enfrenta dificuldades por ser muito formal no ambiente de trabalho. "Esse foi um feedback do meu chefe, de que eu precisava me soltar mais e trabalhar esse lado do relacionamento", afirma ele, que, apesar de estar nas primeiras aulas do curso da Faap, foi um dos primeiros a se oferecer para a entrevista. A atitude já rendeu, ao menos, elogios da professora.

SERVIÇO
E.I.T.: 10 aulas (em grupo) - R$ 2.000/ 8 aulas (particular) - R$ 10 mil. Telefone: (11) 3868-4580.
Faap: 8 aulas (em grupo) - R$ 580. Telefone: (11) 3662-7232.
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