Regulação é melhor arma para estabilidade, diz BC dos EUA
Para Bernanke, autoridade regulatória 'deve ser a primeira linha de defesa' contra ameaças sistêmicas
WASHINGTON -
O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Ben Bernanke, afirmou nesta quinta-feira, 2, que uma boa regulação, em vez da política monetária, é a melhor arma para lidar com deslocamentos nos mercados financeiros. Em discurso preparado para uma audiência com a Comissão de Inquérito sobre a Crise Financeira (FCIC, em inglês) dos EUA, Bernanke não descartou usar a política monetária para lidar com problemas do mercado de crédito, mas disse que a autoridade regulatória "deve ser a primeira linha de defesa" contra ameaças sistêmicas.
Bernanke e Sheila Bair, presidente da Corporação Federal de Seguro de Depósito (FDIC, na sigla em inglês), que também participa da audiência, destacaram a importância da reforma dos mercados e disseram que os formadores de política enfrentam uma tarefa intimidadora para obter sucesso nas reformas, mas deverão conseguir evitar crises futuras.
As duas autoridades reconheceram o desafio de implementar a recentemente aprovada lei Dodd-Frank, mas destacaram que os reguladores não podem desperdiçar "uma chance histórica de colocar nosso sistema financeiro em um ritmo mais sólido e seguro para o futuro". "Para atingir tanto o crescimento sustentado quanto a estabilidade, nós precisamos fornecer uma estrutura que promova o mix apropriado entre prudência, tomada de risco e inovação no nosso sistema financeiro", disse Bernanke.
Um grande desafio para os reguladores é interpretar a nova legislação financeira, que fornece a eles ampla autoridade para solucionar problemas sistêmicos e específicos de companhias. Tanto Bernanke quanto Bair destacaram a necessidade de escrever rapidamente e efetivamente regras que deem ao governo a capacidade de responder quando uma grande empresa financeira começar a vacilar, sem precisar expor os recursos dos contribuintes.
"Simples declarações de que o governo não vai ajudar empresas no futuro ou restrições que tornem o fornecimento de assistência mais difícil não serão confiáveis por si só", disse Bernanke. A legislação Dodd-Frank dá à FDIC autoridade, com a entrada de outros reguladores, para lidar com um banco em problemas ou outra grande empresa financeira que imponha um risco sistêmico para a economia dos EUA. Bair afirmou que, se as novas regras tivessem sido colocadas em prática em 2008, "muito do caos (...) poderia ter sido evitado".
Caso Lehman
As autoridades dos EUA que estavam lutando para lidar com o Lehman Brothers Holdings no ápice da crise financeira em 2008 precisariam ter "quebrado a lei" para salvar realmente o banco, afirmou o presidente do Federal Reserve.
Bernanke afirmou que o colapso do Lehman "não foi predeterminado", mas que as autoridades reguladoras tinham grandes limitações sobre o que podiam fazer para ajudar a empresa. "Nós não conseguimos encontrar uma forma de ajudar", comentou o presidente do Fed, acrescentando que tentou ser "criativo", mas acrescentou: "não estou preparado para ir além de minhas autoridades legais".
O pedido de concordata do Lehman, registrado no dia 15 de setembro de 2008, foi um momento crítico da crise financeira, aumentando os receios de um contágio no mercado de crédito e determinando a posterior resposta do governo. Após o colapso, as autoridades reguladoras tomaram medidas agressivas e sem precedentes para salvar o mercado financeiro e empresas específicas, incluindo um programa de US$ 700 bilhões para recapitalizar o sistema bancário dos EUA.
O ex-executivo-chefe do Lehman, Dick Fuld, foi ouvido pela FCIC ontem e reiterou sua queixa de que o banco de investimento foi tratado injustamente pelo governo, que teria se recusado a ajudar a instituição.
Segundo Bernanke, o Fed passou um fim de semana inteiro em setembro de 2008 discutindo como poderia "salvar" o Lehman, mas já sabia que o banco não poderia ser salvo, porque seus clientes e contrapartes comerciais já tinham decidido que a instituição estava morta.
As informações são da Dow Jones.
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