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Grécia convoca eleições para abril

Após noite de violência, governo de Lucas Papademos define prazo para ficar no poder

13 de fevereiro de 2012 | 22h 41
Andrei Netto, enviado especial de O Estado de S. Paulo

ATENAS - O cheiro de queimado e o mármore destroçado na Praça Syntagma, em frente ao Parlamento, no coração de Atenas, são indícios de que a crise econômica se transformou em um grande impasse político na Grécia.

Sofrendo há mais de dois anos os efeitos de sucessivos planos de austeridade, exigidos pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), o país mergulhou na madrugada de ontem em uma espiral de violência que resultou em 195 lojas e prédios incendiados, saqueados ou depredados na capital. Diante da pressão da opinião pública, novas eleições foram confirmadas para abril.

A decisão de fixar a data do pleito foi informada nesta segunda-feira, em resposta ao enfraquecimento do governo no Parlamento. Para aprovar o novo pacote de rigor, o primeiro-ministro, Lucas Papademos, que administra um governo de coalizão nacional, entrou em rota de colisão com 23 deputados do Partido Socialista (Pasok, esquerda) e 21 do Nova Democracia (ND, direita), que se recusaram a votar a favor do texto e foram expulsos das duas siglas. Outros 16 deputados do Laos, o partido de extrema-direita, também se rebelaram após a renúncia de seus três ministros.

Eleições

Abalado, embora ainda no poder, Papademos confirmou a antecipação das eleições legislativas para abril, que devem pôr fim ao governo tecnocrático que agradava os representantes da troica - a UE, o Banco Central Europeu (BCE) e o FMI - e dos mercados financeiros.

"Este governo tem um mês e meio de trabalho pela frente", informou o porta-voz de Atenas, Pantelis Kapsis. Segundo o executivo, Papademos vai comandar até o mês de março as negociações para a liberação do segundo programa de socorro da UE, avaliado em € 130 bilhões, e a negociação com os credores privados para o corte de € 100 bilhões da dívida pública. Depois, organiza as eleições para a escolha de um novo primeiro-ministro. "Nós vamos terminar em março (as negociações) e as eleições acontecerão em abril", concluiu o porta-voz.

Kapsis classificou os eventos da madrugada como "extremamente tristes", mas descartou a hipótese de renúncia do governo, que trabalha nesta semana em uma reforma ministerial para suprir as vagas abertas.

Desde já, entretanto, a permanência de Papademos está em xeque. Se não for candidato à própria sucessão, como acreditam hoje os analistas políticos, o atual premiê será o segundo chefe de governo da Grécia a cair desde o início da crise, em dezembro de 2009. Em novembro, ele substituiu George Papandreou, que acabou caiu depois de ter anunciado a convocação de um referendo para permitir à população grega decidir se queria ou não seguir no caminho dos planos de rigor. Até aqui, cinco programas foram aprovados em dois anos, totalizando € 169 bilhões em cortes de gastos públicos, aumento de impostos, privatizações e agora redução do salário mínimo em 22%. A opção ao rigor, dizem os líderes políticos de Bruxelas, Berlim e Paris, é a moratória e a provável exclusão da zona do euro.

Tida como a pior alternativa, essa opção já começa a ser cogitada na Grécia. No domingo, mais de 100 mil pessoas foram às ruas do país, 80 mil só em Atenas, para tentar impedir o governo de votar o novo plano de rigor. Para os manifestantes, a política de austeridade é a responsável pela recessão de 5% do PIB, que só deve chegar ao auge em 2013, e pela explosão do desemprego, hoje em 20%.

Violência

São esses inconformados que foram às ruas. Depois de uma madrugada de enfrentamentos entre manifestantes e tropas de choque, o saldo da violência foi divulgado ontem: 79 presos, dos quais 53 gregos e 26 imigrantes estrangeiros, a maioria (41) com 19 e 29 anos.

As marcas dos choques estão espelhadas pelo centro da cidade. Um total de 29 agências bancárias e 71 lojas foram depredadas, muitas das quais saqueadas, conforme dados do Departamento de Polícia. Cinemas, prédios públicos, edifícios de escritórios e três hotéis também foram alvos da ira dos manifestantes, além de estações de ônibus e metrô. Até o fim da manhã, os hospitais da capital ainda recebiam feridos, que somavam 76 manifestantes. Os choques deixaram também 109 policiais feridos.

Apesar da ira pública e da crise política, o governo de Papademos pretende continuar as negociações. Até a sexta-feira, o Parlamento grego deve votar o acordo para o corte das dívidas por credores privados, que pode chegar a € 100 bilhões.


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