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15 de Abril de 2010

 

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Carnaval Alemão tem Merkel no destaque

Chanceler será retratada nos desfiles como ‘salvadora do continente’; gregos serão poupados

17 de fevereiro de 2012 | 22h 40
Der Spiegel

É uma imagem romântica, deslustrada pela fatalidade iminente - Angela Merkel e Nicolas Sarkozy numa pose no melhor estilo do Titanic, na proa da boa nau Europa, prestes a atingir um iceberg grego e sendo esmagada pelos tentáculos de um polvo com o nome de uma agência má de rating.

Os fantoches de papel machê e madeira serão conduzidos pelas ruas de Colônia na segunda-feira, ou na Segunda-feira das Rosas, no maior desfile de carnaval da Alemanha.

Enquanto grande parte da Europa padece na recessão, a Alemanha se prepara para uma grande festa à fantasia que durará todo o fim de semana prolongado. A nação praticamente deixou de funcionar desde quinta-feira, a Quinta-feira das Velhas, quando a gravata dos homens é cortada numa simbólica castração, até a Quarta-feira de Cinzas, quando os foliões sairão depois de uma semana de brincadeiras amorosas e de bebedeiras para recomeçar a vida e recompor o fígado.

A tesoureira da Europa tem direito a descansar por todo o tempo que quiser porque esteve navegando em meio à crise, em meio à silenciosa contrariedade dos seus vizinhos, e não deverá sofrer a crise que arrasa Grécia, Espanha, Portugal e outras nações.

Mais uma vez, a tempestade da dívida é um dos temas principais nos desfiles carnavalescos de Colônia, Düsseldorf e Mainz, que atraem milhões de pessoas e são famosos por seus carros alegóricos temáticos.

Este ano, entretanto, em que a Alemanha se destacou ainda mais no papel de salvadora, os criadores dos carros alegóricos retratam Merkel como a líder indiscutível do continente. Em Düsseldorf, a chanceler será mostrada como a maquinista do Expresso Europa, com vários vagões em chamas.

Em Mainz, será a encarregada da Loja de Guarda-chuvas de Angelina, distribuindo guarda-chuvas para a metade da Europa, enquanto gregos, espanhóis e portugueses desesperados aguardam na fila. Rettungsschirm, ou o guarda-chuva da salvação, é o termo usado para descrever a ajuda ao euro.

Tratamento brando. Contudo, os gregos foram poupados das provocações, porque já foram suficientemente satirizados e caluniados na Alemanha desde a eclosão da crise na Grécia, no início de 2010. "Não se pisa em cima de quem já está caído", disse ao Spiegel Online Jacques Tilly, um dos mais famosos criadores de carros alegóricos da Alemanha. "Os gregos são uma tragédia e não uma comédia, neste momento, portanto não teremos um carro satirizando-os."

Ao contrário dos organizadores dos desfiles de Colônia e de Düsseldorf, Tilly, que cria a metade das alegorias do desfile de Düsseldorf e é famoso por sua irreverência, recusou-se a permitir que déssemos uma olhada em suas criações. Elas só serão vistas na rua na segunda-feira.

"Considerando o sentimento anti-germânico que hoje invade a Grécia, seria tentador fazer alguma coisa em resposta", disse Tilly. "Mas estaríamos entrando no jogo nacionalista. Voltaríamos a 1914. Quem vai querer isso?" Muitos gregos culpam Merkel por suas desgraças, por insistir nas medidas de austeridade em troca de ajuda internacional. Fotomontagens da chanceler em uniforme nazista apareceram nos jornais gregos e em cartazes de protesto, e a bandeira alemã foi queimada em algumas manifestações. Mas os organizadores do carnaval da Alemanha fecham os olhos, principalmente porque estão cansados de criticar a Grécia.

"A Grécia já é um tema tão desgastado que decidimos não retomá-lo", disse o diretor do desfile de Colônia, Christoph Kuckelkorn, que é dono de uma funerária. "Não tivemos problema em encontrar uma nova abordagem para a crise do euro. Centenas de pessoas nos enviaram desenhos de todos os tipos de carros alegóricos. Este ano, temos quatro que foram criados por crianças".

Um carro alegórico de Colônia mostrará três sábios: um chinês, um indiano e um brasileiro, levando presentes em dinheiro para o euro pequenino e doente na manjedoura. Um dos carros de Mainz mostra as agências de rating como crianças levadas armadas de estilingue com a moeda na mira.

O ex-presidente Christian Wulff, que renunciou ontem acusado de ter usado o cargo para receber favores de amigos ricos, este ano é um tema popular, mas alguns dos carros o retratam como uma vítima mais do que um réu. Colônia o apresentará na fantasia de um coelho sobre o balcão do açougueiro, prestes a ser esquartejado, e em Mainz ele estará caído no chão num ringue de box, com um olho roxo.

"Acho toda a situação de Wulff muito pouco clara, não sei ao certo até que ponto ele agiu errado e até que ponto a coisa toda foi exagerada pela imprensa", disse Kuckelkorn. "Muitas pessoas com as quais conversei concordam comigo. Portanto decidimos não esclarecer se ele subiu no balcão por vontade própria ou se foi posto lá para ser sacrificado."

Os desfiles da Segunda-feira das Rosas, o destaque da semana do carnaval, são transmitidos ao vivo pela TV.

"Nós exploramos muito mais o lado político na nossa abordagem, e é disso que as pessoas gostam", disse Kuckelkorn. "Nos últimos anos, fizemos declarações políticas mais claras nos nossos desfiles." Em geral, o carnaval revela as tensões subjacentes entre as cidades rivais do Reno, Colônia e Düsseldorf, cada uma das quais afirma comemorá-lo melhor.

Este ano não será diferente. "Düsseldorf só quer provocar", disse Kuckelkorn. "Nós damos um enfoque mais inteligente à situação e encorajamos as pessoas a pensar." (David Crossland)

Traduação de Anna Capovilla


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