Aposentadoria com ações depende de muito trabalho no presente
Segundo especialistas, rendimentos podem ser turbinados, mas é preciso muito cuidado na montagem da carteira e acompanhamento de perto
SÃO PAULO - Num mercado em que um período maior do que um ano já é considerado longo prazo, falar em planejamento da aposentadoria com ações parece contraditório à primeira vista. Mas essa pode ser uma alternativa viável e muito mais rentável do que as aplicações tradicionais em renda fixa. Basta que o poupador tenha alguns cuidados para que possa, no futuro, desfrutar de bons rendimentos.
Para os especialistas em mercado financeiro, a diversificação dos investimentos deve ser a palavra de ordem no momento da montagem da carteira. O equilíbrio entre renda fixa e renda variável no portfólio do investidor depende de fatores como perfil mais conservador ou mais agressivo, idade e disponibilidade para acompanhar o investimento.
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"Em tese, é uma possibilidade e um instrumento entre outros disponíveis, mas não existem planos ou produtos exclusivos para quem pensa em se aposentar com ações", lembra Reginaldo Alexandre, presidente da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec-SP). Ou seja, é preciso tempo e planejamento, pois o rendimento dependerá das decisões do próprio poupador; e não há um valor definido de quanto ele terá no momento de sacar sua aposentadoria. (Confira a ferramenta do E&N e calcule quanto você precisa poupar para garantir sua aposentadoria.)
Momento de investir
Não existe idade limite para pensar em investir em ações com o objetivo de planejar uma aposentadoria, mas, como lembra o gerente comercial da Ágora Corretora, Hélio Pio, o mercado de ações é a aplicação com o melhor retorno no longo prazo. "Para quem tem 30 anos, ou seja, toda uma vida pela frente, é possível dedicar uma porcentagem maior de seus investimentos em ações, pois elas terão mais tempo para dar resultado", indica.
Para quem já está mais próximo de se aposentar, no entanto, a recomendação é de que invista uma porcentagem maior em renda fixa e o restante em ações. O gerente da Ágora sugere uma proporção de 80% e 20% para quem já está prestes a se aposentar e, para os mais jovens, essa proporção pode ser de até 50/50. "Mas nunca 100% em ações", adverte Pio. Ele lembra que, ao longo de tantos anos, pode haver imprevistos com as empresas que emitiram essas ações, ou ainda surgir oportunidades mais interessantes de curto prazo.
Cuidados
Já o consultor financeiro e professor da Fipecafi, Luís Simões, tem um discurso de mais cautela. "Esse tipo de investimento não é recomendável para quem não está acostumado com o mercado de ações", adverte. Para ele, a escolha de ações sempre é uma tarefa muito complexa, o que pode se tornar uma opção vulnerável para quem pretende proteger seu patrimônio. "Para quem é leigo no assunto, é preferível uma opção mais conservadora, como PGBL ou VGBL", diz.
Simões concorda que, principalmente para os jovens, as ações são sempre uma opção mais rentável no longo prazo do que a renda fixa. Mas o consultor lembra que as taxas de juros no Brasil são muito elevadas, o que garante retornos interessantes em títulos indexados ou outras opções pré-fixadas. "O mais importante é que a pessoa monte seu portfólio de acordo com o risco que ela consegue administrar", aconselha.
Outro conselho repetido na área é procurar a ajuda de um profissional na montagem da carteira caso o poupador não esteja acostumado a investir em ações.
Montagem da carteira
Para fazer a escolha das ações, é preciso pensar em dois tipos: aquelas com perspectiva de valorização do ativo e as com histórico de bom pagamento de dividendos. Os setores elétrico, siderúrgico, bancário e de consumo estão em alta no mercado brasileiro e prometem bons resultados.
A escolha depende muito de cada investidor, mas é possível apontar as ações fortes (blue chips), cujas empresas têm histórico de bons rendimentos e perspectivas de crescimento, como candidatas favoritas. Vale e Petrobrás são indicações sempre lembradas pelos especialistas.
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Apesar de não existir uma receita pronta para a carteira de investimentos, o gerente da Ágora não indica mais do que dez ações, uma vez que é preciso acompanhar cada empresa de perto. "Com duas ou três já dá para começar", afirma.
Momento propício
Como nota o presidente da Apimec-SP, o Brasil vive um ótimo momento para o mercado de ações, com a retomada da economia. Apesar de o brasileiro não cultivar ainda o hábito de aplicar na bolsa, a Bovespa já possui 576 mil pessoas físicas cadastradas, número que deve aumentar nos próximos meses.
Para não sofrer decepções, o gerente da Ágora lembra que é preciso acompanhar com freqüência as empresas que compõem a carteira e o desempenho dos setores. "Ao longo de 20 ou 30 anos, muitas empresas podem até mesmo deixar de existir", aponta. Esse acompanhamento, diz ele, deve ser constante, pelo menos semanal.
Após tantos conselhos e indicações, planejar a aposentadoria com ações é uma chance de turbinar a renda no futuro. Só depende de muito trabalho agora.
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