Atividade pode levar decisões do BC a serem contestadas, avaliam analistas
Os indicadores antecedentes mais recentes já dão indícios de que a acomodação da atividade no segundo trimestre decorreu de fatores pontuais que não se repetirão ao longo dos dois últimos trimestres
SÃO PAULO - O quadro que se desenha para a atividade econômica a partir do terceiro trimestre e a forte demanda para os próximos meses poderão fazer com que as decisões do Banco Central voltem a serem contestadas, avaliam analistas do mercado financeiro. Os indicadores antecedentes mais recentes já dão indícios de que a acomodação da atividade no segundo trimestre decorreu de fatores pontuais que não se repetirão ao longo dos dois últimos trimestres. "Dada a inconsistência do BC em não identificar a forte evolução da demanda para os próximos meses, o quadro de atividade em alta poderá levar suas decisões a serem contestadas", diz o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Val, no relatório "Comentário Quinzenal de Conjuntura".
Na sexta-feira, o economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, também opinou sobre o assunto. Tanto ele como o seu economista especialista em atividade econômica, Aurélio Bicalho, previram a retomada da expansão econômica a partir de julho. Prévia feita com base nos poucos indicadores antecedentes que se encontram à disposição dos analistas mostra que o Produto Interno Bruto Itaú Unibanco (PIBIU) já conta com um crescimento de 0,3% em julho, na margem. Em junho, o dado calculado pelo banco caiu 0,6% na comparação com maio, livre dos efeitos sazonais. Mas, para o segundo trimestre, o Itaú Unibanco mantém em suas projeções uma expansão de 0,6% da economia relativamente aos primeiros três meses do ano e avanço de 7,8% sobre igual período de 2009.
Goldfajn acha que o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, deverá, depois de uma parada técnica, retomar os aumentos de juros no fim do ano. O Copom fará mais três reuniões até o fim do ano - encerradas em 1.º de setembro, 20 de outubro e 8 de dezembro. Goldfajn e Bicalho acreditam que a acomodação que se registrou na economia no segundo trimestre é pontual. Para eles, os fatores de estímulos ao aumento da demanda - emprego, massa salarial, renda e crédito, entre outros - continuam fortes.
O aumento de inflação daqui para dezembro também aparece no radar do Itaú Unibanco com uma taxa mensal em torno de 0,42%, influenciada pelo aumento das commodities. De acordo com os dois economistas do banco, além da alta nas últimas semanas, a expectativa é de que os preços continuem se recuperando devido às restrições na oferta das safras 2010/2011 em consequência de problemas climáticos. Goldfajn citou o aumento do trigo, que já começa a impactar o preço dos pães e massas, e a limitação da capacidade de oferta de algumas commodities, como cobre e petróleo, para atender à demanda crescente.
Economista sênior do Banco Santander, Maurício Molan, também aposta no aumento da atividade e da demanda como elementos que vão levar o BC a ter de apertar os juros. Só que, para ele, isso ocorrerá a partir da primeira reunião de 2011. Na avaliação do economista, a própria autoridade monetária já sinalizou para isso. "Já declararam que estão de olho na inflação de 2012", diz Molan, que projeta para este ano crescimento do PIB de 7,8% e alta de 4,5% no ano que vem.
Para a inflação medida pelo IPCA, o Santander prevê taxa de 5,5% em 2010 e 5% em 2011. Neste contexto, a Selic projetada pelo banco fecha este ano em 10,75% ao ano e, em 2011, em 13% ao ano. "Achamos que as políticas fiscal e monetária são ainda expansionistas. E, no momento, nos parece que a política monetária não afetou a oferta de crédito, explicada pela dinâmica do emprego", afirma o economista sênior do Santander.
Para Molan, o BC fez uma avaliação e deu peso a fatores de curto prazo ao reduzir de 0,75 ponto porcentual para 0,50 ponto a magnitude de aumento da Selic da reunião de julho. "Se foi um erro ou não, só veremos depois", comentou.
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