Bolivianos ajudam família e brasileira desiste do Japão
Remessas de dono de restaurante no Brás socorrem parentes em La Paz; após início da crise, Tatiana teve seu salário no Japão reduzido e voltou
BRASÍLIA - Há alguns meses, um problema mecânico no velho táxi da irmã fez com que Jorge Meruvia saísse por alguns minutos de seu restaurante no Brás para mandar uma ajuda em dinheiro para o conserto do carro em La Paz, na Bolívia. Na mesma época, Tatiana Tiami Pereira arrumava caixas para voltar a São Paulo, deixando para trás o trabalho e a casa a 300 quilômetros da então recém-explodida usina nuclear de Fukushima no Japão.
Jorge e Tatiana nunca se viram, mas explicam bem o fenômeno recente da mudança das remessas no Brasil. Histórias de sucesso de bolivianos que trabalham como costureiros nas confecções do centro de São Paulo trouxeram os 22 funcionários que trabalham atualmente no restaurante de Jorge Meruvia. Já a crise nos países ricos fez com que Tatiana decidisse voltar para casa em Taboão da Serra após viver sete anos em Saitama, ao norte de Tóquio.
Os dois casos não são únicos e o movimento, quando somado, é expressivo. A entrada de dólares no Brasil, enviados por cidadãos que moram no exterior, chegou bem perto de US$ 3 bilhões entre 2006 e 2008, caiu um terço e fechou o ano passado em US$ 1,96 bilhão, pior resultado desde 2002. Ao mesmo tempo, as remessas para o exterior, que somaram tímidos US$ 116 milhões em 1995, cresceram a passos largos e alcançaram US$ 811,5 milhões em 2011.
Fenômeno inédito. Para a professora de Sociologia da PUC-SP, Dulce Maria Tourinho, o aumento da saída de dólares compõe um fenômeno inédito e interessante. Ela diz que isso acontece porque os fluxos imigratórios são ágeis para encontrar oportunidades - como existem atualmente em São Paulo. O problema, diz, é que esses grupos também sofrem rapidamente com as crises. "O imigrante é o primeiro que perde o emprego porque, quando a crise aperta, o trabalhador local reduz seus critérios e passa a querer o emprego considerado menos nobre", diz.
Dono de um português que às vezes usa palavras em espanhol, Meruvia - ou Dom Jorge, como é conhecido no Brás - explica com naturalidade a evolução das cifras do Banco Central. "Todo boliviano faz remessas. É a mesma coisa com os peruanos, paraguaios." Normalmente, são de US$ 400 e US$ 600 a cada dois ou três meses, diz. "A maioria manda para manter a família, mas também tem uns que compram terreno ou casa e vão pagando aos poucos."
Quando o táxi quebrou em La Paz, o mecânico mostrou no orçamento: o carro só voltaria a andar por 1.400 bolivianos - cerca de US$ 200, o equivalente ao salário de um mês da irmã de Meruvia. Então, o telefone tocou no restaurante de Don Jorge no Brás. "Claro que mandei o dinheiro na hora. Não tenho dinheiro sobrando, mas o suficiente para viver e ajudar a família."
Além dos latino-americanos, chineses e sul-coreanos também são clientes cativos das empresas de remessas que, agora, disputam clientes em bairros como o Bom Retiro e Brás.
Ásia. A meio mundo dali de distância, em Saitama, subúrbio de Tóquio, Tatiana Tiami Pereira e sua mãe enviaram, como sempre, cerca de US$ 500 para o Brasil. Era abril de 2011 e o dinheiro chegou para bancar as contas da casa da família na Grande São Paulo, onde vivem a irmã e a avó da brasileira. Foi a última remessa feita por Tatiana.
Sob os efeitos do terremoto de semanas antes e a 300 quilômetros da usina nuclear de Fukushima, ela decidiu voltar ao Brasil naquele mês.
Estava assustada com os desastres e preocupada com a crise. Operadora de telemarketing em uma empresa especializada em ligações telefônicas do Japão para o Brasil, Tatiana viu a crise diante dos olhos. De um escritório no centro de Tóquio grande o suficiente para comportar 120 funcionários em 2007, a empresa reduziu o quadro em diversos cortes. Hoje, a MyPhone tem pouco mais de 30 empregados e, para reduzir o aluguel, está longe do centro da cidade.
"Não fui demitida, mas diminuíram a carga horária. Se antes trabalhava até oito horas por dia, passei a fazer, no máximo, cinco. Por isso, o meu salário chegou a cair para a metade do que ganhava anos antes, no auge das horas extras", lamenta.
No Brasil, Tatiana planeja retomar os estudos na universidade. Por enquanto, está animada com o trabalho de professora de inglês e com o casamento recente com um americano que conheceu no Japão. Nascido na Califórnia, Thomas Llouyd adora capoeira e está tentando convencer Tatiana a abrir um negócio por aqui. Se depender de Thomas, o empreendimento vai ser um sucesso. Quem sabe, suficiente até para enviar umas remessas. Dessa vez, para os Estados Unidos.
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