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15 de Abril de 2010

 

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Documentos mostram Bernanke despreocupado com setor de imóveis

Transcrições das reuniões do Banco Central norte-americano em 2006 foram liberadas ao público nesta quinta-feira; 'bolha' imobiliária estouraria apenas meses depois desses encontros

12 de janeiro de 2012 | 19h 41
Renato Martins, da Agência Estado

WASHINGTON -  As transcrições das reuniões do Federal Reserve norte-americano em 2006 indicam que o presidente da instituição, Ben Bernanke, e seus colegas não mostraram preocupação quando os preços dos imóveis residenciais começaram a cair; eles previam um "pouso suave" para a economia norte-americana. Bernanke havia assumido o posto em fevereiro daquele ano, no lugar de Alan Greenspan.

De acordo com as transcrições liberadas ao público nesta quinta-feira, poucos dirigentes do Fed pareciam preocupados com a "bolha" imobiliária, que estouraria meses depois, dando início ao processo que levaria à pior recessão desde a Grande Depressão da década de 1930.

Na reunião de maio de 2006, a diretora Susan Bies levantou a questão dos preços dos imóveis residenciais e se disse preocupada com as hipotecas. Na reunião seguinte, em junho, Janet Yellen (que na época presidia o distrito de San Francisco e hoje é vice-presidente do Fed) parecia ser a mais preocupada com a "bolha" de preços.

Por determinação legal, as transcrições completas das reuniões do Comitê de Mercado Aberto do Fed (Fomc) são divulgadas somente depois de cinco anos; as atas, divulgadas três semanas depois de cada reunião, são apenas um resumo.

Seguem-se alguns destaques das transcrições das oito reuniões realizadas em 2006:

- 31 de janeiro: Foi a última reunião presidida por Greenspan, que assumira o comando do Fed em 1987. Os participantes da reunião dedicaram boa parte do tempo a elogios a Greenspan. "Quero que o histórico mostre que eu penso que você é sensacional", disse na reunião Timothy Geithner, então presidente do Fed de Nova York e hoje secretário do Tesouro.

- 27 e 28 de março: na primeira reunião presidida por Bernanke, o risco associado ao mercado de moradias já estava crescendo, mas os dirigentes do Fed não atentavam para ele. Durante a reunião, o economista-chefe do Fed, David Stockton, previu uma desaceleração modesta no mercado de imóveis residenciais. "Neste momento, a sensação é como a de andar de montanha russa com os olhos fechados. Sentimos que estamos passando do topo, mas não sabemos o que ha embaixo", disse Stockton. Ele também afirmou que o mercado de moradias era "o risco mais evidente" para a economia. "Eu não sei como prever esses preços", acrescentou.

Bernanke, por sua vez, disse: "Novamente, eu acho que é improvável que venhamos a ver o crescimento ser descarrilado pelo mercado de moradias, mas quero que estejamos preparados para algumas flutuações de trimestre para trimestre"; embora identificasse o setor de imóveis residenciais como crucial, Bernanke concordou "com a maioria das declarações de que fundamentos fortes suportam um pouso relativamente suave para o setor de moradias". Na mesma reunião, Geithner disse que "os preços das ações e os spreads de crédito sugerem uma confiança considerável na perspectiva para o crescimento. As condições financeiras, de uma maneira geral, parecem dar um bom apoio à expansão". Nessa reunião, o Fomc eleva a taxa dos Fed Funds em 25 pontos-base e adota um "viés de alta" para as taxas de juro.

- 10 de maio: Os participantes da reunião dedicam boa parte do tempo a discutir os preços da energia e os riscos de aceleração da inflação. O Fomc volta a elevar a taxa dos Fed Funds em 25 pontos-base. Durante a reunião, Susan Bies tenta retomar a discussão sobre o setor de moradias e sua preocupação sobre as hipotecas. Ela destaca as amortizações negativas, situação em que o principal da dívida fica cada vez maior, e não menor, ao longo do tempo. "Eu tenho dúvidas sobre a capacidade do consumidor para absorver choques. O aumento do valor dos imóveis residenciais e a capacidade de tomar empréstimos usando-os como garantia ajudaram proprietários individuais quando eles enfrentavam demissões, problemas médicos, divórcios... todas as coisas na vida que criam problemas de fluxo de caixa de mês a mês. Com o crescimento das amortizações negativas, o valor patrimonial de um imóvel já não está crescendo". Bies adverte: "A esperteza cada vez maior do setor hipotecário está me deixando mais nervosa à medida que avançamos neste ciclo, e não mais reconfortada por termos aprendido a lição. Alguns dos modelos que os bancos estão usando foram claramente montados em tempos de juros em queda e de preços de imóveis em alta. Não está claro o que poderá acontecer quando qualquer uma dessas tendências for revertida".

Bernanke reconhece o risco, mas não se mostra muito preocupado. "Até agora, temos visto, na pior das hipóteses, um declínio ordeiro no mercado de moradias, mas acho que ainda estamos para ver se o mercado de imóveis vai declinar lentamente ou mais rapidamente. Como eu observei da outra vez, alguma correção nesse mercado é uma coisa saudável, e nosso objetivo não deve ser tentar prevenir essa correção, mas sim assegurar que a correção não influencie muito o crescimento do resto da economia."

- 28 e 29 de junho: Ao resumir as opiniões dos dirigentes do Fed, Bernanke diz que está ficando cada vez mais difícil fazer previsões; ele descreve as condições da economia como "extremamente complicadas". Como é particularmente difícil fazer projeções sobre o mercado de imóveis, o presidente do Fed diz que esse é "um risco importante, e um que nos deve tornar cautelosos em nossas tomadas de decisão". O Fomc eleva a taxa dos Fed Funds em mais 25 pontos-base, para 5,25%, na 17ª elevação consecutiva. Mas, pela primeira vez desde o início do ciclo, em junho de 2004 (quando a taxa dos Fed Funds estava em 1%), o Comitê não diz em seu comunicado que novos apertos estão sendo considerados.

- 8 de agosto: Bernanke lembra a seus colegas que o Fed "não foi terrivelmente bem sucedido em pousos suaves", mas ressalva que "temos a chance de conseguir um". Janet Yellen parece ser a participante mais preocupada com o mercado de moradias, ao advertir que a desaceleração do mercado de imóveis poderia se tornar "uma depressão indesejável". O Fed mantém as taxas de juro inalteradas; Geithner sugere citar no comunicado que um dos motivos é a debilidade do mercado de imóveis, mas a maioria é contra.

- 20 de setembro: Ao manter as taxas de juro inalteradas, o Fed cita declínios nos preços da energia e dos imóveis residenciais como motivos. Contudo, o economista-chefe David Stockton diz que a economia "se dobra, mas não quebra" em um dos cenários discutidos, de depressão no setor de moradias. "Até agora, o dano colateral da desaceleração no mercado de imóveis residenciais tem sido limitado, e, na maior parte, esperamos que isso continue assim, pelo menos por algum tempo". Bernanke observa que há uma divisão quanto a como o mercado de moradias está sendo visto pelo Fed, com alguns dirigentes esperando uma correção profunda e outros dizendo acreditar que a renda e o nível dos juros vão dar apoio ao setor. "A economia, exceto pelos setores automotivo e de moradias, ainda está bastante forte, e nós ainda não vemos qualquer contágio significativo a partir do setor de moradias", diz Bernanke.

- 24 e 25 de outubro: Os dirigentes do Fed passam a maior parte da reunião discutindo como melhorar a comunicação com o público. Boa parte do tempo é dedicada a um debate sobre os termos a serem empregados no comunicado. Outro tema discutido é a possibilidade de passar a adotar o regime de metas de inflação, uma questão não resolvida até agora. Os participantes debatem o significado que pode ser atribuído à palavra "moderado" quando usada pelo Fomc para descrever sua expectativa de crescimento. Geithner pergunta: "Nós usamos essa expressão recentemente de um modo que permita a uma pessoa de fora, razoavelmente bem informada, interpretá-la dessa maneira?" "Eu não sei", responde o consultor para assuntos monetários Vincent Reinhart.

- 12 de dezembro: Na última reunião de 2006, os participantes do mercado não mostram consciência da tempestade que está por vir. Boa parte das discussões é sobre emprego e inflação. A debilidade crescente do mercado de imóveis residenciais é vista como uma correção de excessos anteriores. A então presidente do Fed de Boston, Cathy Minehan, observa que há uma desaceleração no mercado de moradias em seu distrito, mas não vê muita preocupação com isso. A presidente do Fed de Cleveland, Sandra Pianalto, nota que alguns compradores de imóveis em sua região estão tendo dificuldades com as hipotecas. O então vice-presidente do Fed, Donald Kohn, diz que os estoques crescentes da indústria é "um tanto mais preocupante" do que a desaceleração no setor de moradias.

Nessa reunião, a diretora Susan Bies parece, uma vez mais, estar à frente da curva. "O grau de alavancagem em cada negócio de imóvel residencial ainda precisará de alguma correção no futuro, e, por isso, poderemos ver alguma desaceleração no volume de dólares que são financiados por meio do crédito hipotecário", diz Bies. Ela também afirma que nos mercados existe a percepção "de que muitas das hipotecas privadas que foram securitizadas nos últimos anos na verdade envolvem muito mais risco do que os investidores vêm focalizando". Segundo as transcrições, Bernanke novamente deixa de ver qualquer problema no mercado de imóveis e reafirma suas previsões de "pouso suave" para a economia.

As transcrições das reuniões do Fed em 2006, acompanhadas dos materiais usados nas apresentações feitas pelos técnicos da instituição, estão disponíveis no site do Federal Reserve. As informações são da Dow Jones.

 
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