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‘Fizemos a lição de casa’

14 de julho de 2012 | 17h 15
Jamil Chade, correspondente de O Estado de S.Paulo

FRANKFURT - O economista Reinhard Schmidt, professor de Finanças na Universidade de Frankfurt e um dos nomes mais respeitados da academia alemã, acredita que a Alemanha resistiu à crise nos últimos dois anos porque "fez a lição de casa". Autor de vários livros e orientador de dezenas de doutorandos que hoje são os gerentes e presidentes executivos dos maiores bancos da Alemanha, Schmidt foi contratado para fazer um levantamento sobre o motivo pelo qual os bancos alemães resistiram à crise. Ele recebeu o Estado para explicar a situação atual do país e não disfarça seu orgulho pelo modelo alemão. Mas deixa claro: o modelo não foi implementado sem altos custos políticos e não pode ser simplesmente transferido para outros países do bloco. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Por que a Alemanha não sucumbiu à mesma crise dos demais países europeus?

Aqui, a atitude é de parceria, entre empresas, governos e bancos. No auge da crise, em 2008 e 2009, muitas empresas reduziram o tempo de trabalho de seus funcionários e o governo as apoiou. Metade do salário passou a ser pago pelo governo. Houve um importante consenso político e, quando a recuperação deu sinais de estar presente em 2010, a retomada foi rápida e acelerada. Mas nada disso é novo na Alemanha. Essa parceria tem uma longa tradição e está enraizada ainda no Segundo Império, após a unificação do país por Bismark.

E qual foi o resultado disso?

O resultado é que nunca o desemprego no país foi tão baixo. Existem regiões que vivem o pleno emprego. Não demitir funcionários foi parte da garantia da recuperação e da produtividade. Foram criados incentivos para que as médias e pequenas empresas mantivessem seus trabalhadores. Muitas dessas empresas são altamente especializadas e perdê-las teria um custo econômico muito alto.

Mas como é que a Alemanha conseguiu atravessar os últimos dois anos de crise?

Há anos havíamos feito a lição de casa e, por isso, resistimos à crise. Nos anos 90, o custo do trabalho na Alemanha era o mais alto da Europa. O governo social-democrata de Schroeder optou pelas reformas depois de anos de estagnação. Elevou a idade mínima de aposentadoria para 67 anos e exigiu mais tempo de trabalho. Com suas decisões, o chanceler se transformou numa das pessoas mais odiadas da Alemanha e, obviamente perdeu a eleição. Mas deixou o país preparado para qualquer crise e abriu uma nova era de competitividade.

E como o senhor explica os grandes bancos alemães não quebrarem como em tantos outros países europeus?

Se isso tivesse ocorrido, certamente não estaríamos falando aqui do sucesso do modelo alemão. Mas, no caso do Deutsche Bank, o que ocorreu foi algo incrível. Em 2007, a gerência do banco já começou a ver que haveria um estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos e em outros países. Também se deu conta que o volume de ativos potencialmente tóxicos seria enorme. A decisão foi a de usar os meses de verão de julho e agosto (Hemisfério Norte), aproveitando as férias das pessoas que tomavam as decisões, para revender e se desfazer dos ativos tóxicos, obviamente sem dizer nada. Funcionou. Em um verão, o banco se desfez de 80% dos ativos podres.
 
Como o senhor define hoje o modelo econômico alemão?

É um modelo de complementaridade e eu chamaria de economia de mercado coordenado, em oposição à economia liberal de mercado. Vou dar um exemplo. Metade do conselho das grandes empresas é formado por representantes de trabalhadores. Há ainda uma forte presença do Estado e de bancos.

Em muitos países, isso seria a receita perfeita para a falta de eficiência e complacência entre setores. Por que na Alemanha isso não é o caso?

É verdade. O equilíbrio entre esses atores pode ser delicado e pode até mesmo incentivar a falta de eficiência. Mas há uma outra parte desse modelo: 90% das empresas que pedem concordata na Alemanha vão à falência. Empresa que não é sustentável não deve ser recuperada.
 
O modelo produtivo alemão pode ser copiado?

Não. Pelo menos não no curto ou médio prazos. Há uma combinação de fatores e de história que o torna único. Nossa economia é baseada em milhares de pequenas empresas, flexíveis e altamente especializadas que conseguem ter, no mercado externo, uma base importante para seu crescimento. Isso ocorreu porque, nos anos pós-2.ª Guerra, não tínhamos um mercado doméstico para consumir o que se produzia e tudo foi estabelecido para que pudéssemos exportar.





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