12:18


15 de Abril de 2010

 

Patrocinado por




Você está em Economia
Início do conteúdo

Governo argentino acelera negociações para usar reservas

Objetivo é pagar vencimentos da dívida em 2010 com os US$ 6,5 bi do Fundo do Bicentenário 

08 de fevereiro de 2010 | 19h 34
Marina Guimarães, da Agência Estado

BUENOS AIRES - O governo da Argentina acelera as negociações com os governadores para conseguir a aprovação do Fundo do Bicentenário, composto por US$ 6,5 bilhões das reservas internacionais, para pagar vencimentos da dívida em 2010.

A pressa está relacionada às possíveis complicações que a crise global poderia provocar na emissão da nova dívida que a Casa Rosada quer fazer como parte do swap dos títulos em default. Fonte da equipe econômica, em conversa com a Agência Estado, reconheceu que o cenário internacional "já não está tão favorável como no final do ano passado, para garantir a emissão de US$ 1 bilhão".

Na última quinta-feira, o ministro Amado Boudou disse à Agência Estado que vai manter o cronograma do swap dos US$ 20 bilhões de títulos em default, em mãos dos holdouts, os credores que não entraram na reestruturação da dívida em 2006. O swap está previsto para ser lançado no final de fevereiro.

"Embora essa seja a ideia, temos que ver se não surge nenhuma complicação com a tramitação da documentação junto aos organismos reguladores nos Estados Unidos, Europa e Japão", ponderou a fonte. No Ministério de Economia, os assessores ligados à operação suspeitam que poderiam receber novos pedidos da Security and Exchange Commission (SEC) para esclarecer informações sobre a inflação e o uso das reservas por parte do Executivo.

Nos demais países, como Itália e Japão, a equipe considera que não vai haver maiores complicações para aprovar os documentos e abrir a oferta. "Os credores querem mais detalhes sobre a consistência da oferta e isso já foi apresentado", disse a fonte.

A grande dúvida do Ministério de Economia é sobre a conveniência da emissão de US$ 1 bilhão, prevista na própria oferta de troca. "Até o momento, podemos conseguir uma aceitação de 60% dos credores, na troca, mas se os dados da recuperação da economia dos Estados Unidos continuarem débeis, assim como os indicadores dos países europeus mais prejudicados pela crise permanecerem ruins, teremos que reavaliar o tempo correto para a emissão", disse a fonte.

O problema, explicou, é que os problemas em Grécia, Portugal e Espanha podem gerar nos investidores maior aversão ao risco pelos papéis dos países em desenvolvimento. Ainda mais no caso da Argentina, cujo histórico calote de 2001/2002 já está sendo citado como o que se deve evitar no caso da Grécia.

O economista norte-americano Kenneth Rogoff, chegou a publicar um artigo no fim de semana, no jornal La Nación, intitulado "Grécia: entre evitar o default ou ser outra Argentina". A fonte admitiu que, se as turbulências financeiras continuarem, o cenário "será outro para a emissão".

Por via das dúvidas, o governo quer ganhar no Congresso o que a Justiça suspendeu: o decreto do Fundo do Bicentenário. Por isso, já liberou recursos adicionais para as províncias de Buenos Aires, Tierra del Fuego, Misiones e Jujuy. Dos 24 governadores, a Casa Rosada só não conseguiu o apoio de três.

Apertados com dívidas e salários, os governadores não resistiram ao apelo do caixa do Tesouro. No ano passado, o déficit fiscal provincial foi de 17 bilhões de pesos (US$ 4,4 bilhões), e um rombo similar está projetado para 2010, de acordo com os cálculos da consultoria Economia & Regiões.

Os economistas ponderam que, se a negociação do governo for só para conseguir os US$ 6,5 bilhões do Fundo do Bicentenário, os impactos nos mercados e na economia não seriam tão danosos. Porém, se a presidente Cristina Kirchner confirmar que sua intenção é de usar todas as reservas excedentes, US$ 18 bilhões, para financiar o gasto público e reativar a economia, o país pode sofrer graves problemas.

"Com a alta do custo de vida em torno de 20% anual, sem um plano consistente para enfrentar a inflação, e a injeção de recursos na economia, pode haver uma disparada maior dos preços", considerou o economista José Luis Espert. Além disso, continuou, pode haver uma corrida ao dólar, provocada pelas incertezas geradas pelo ruído político e decisões equivocadas do governo.


Siga o @EstadaoEconomia no Twitter