Impacto da crise europeia sobre o Brasil deve ser preocupante
Essa é a opinião da maioria dos leitores que participaram de uma enquete no E&N; analistas e governo estão mais otimistas
SÃO PAULO - Os leitores do site Economia & Negócios estão preocupados - com viés de pessimismo - com o possível impacto da crise financeira na Europa sobre a economia brasileira. Numa enquete realizada pelo E&N entre os dias 29 de abril e 7 de maio, que contou com 1948 participantes , 39,94% afirmaram que o impacto será ‘preocupante’; 37,37% acreditam que ele será ‘considerável’; e 22,69% antecipam um impacto ‘nulo’.
Mas esse pessimismo dos leitores não é compartilhado por boa parte dos analistas. Eles preveem que a economia brasileira não será muito afetada, pelo menos a médio e longo prazos. "É preciso que a situação na Europa se agrave ainda mais", dizem. No governo também predomina o otimismo. Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, apesar de poder trazer volatilidade no mercado financeiro brasileiro, a crise europeia não deve afetar o crescimento econômico do País.
"Um bom indicador para avaliarmos se a situação de todo o mundo está deteriorada é o mercado de câmbio, ele espelha todos os problemas", diz o economista-chefe da corretora Prosper, Eduardo Velho. Segundo ele, apesar do estresse no mercado cambial dos últimos dias, quando o dólar chegou próximo ao patamar de R$ 1,90, não há uma tendência clara de alta da moeda americana, o que indicaria saída dos investidores estrangeiros do Brasil. "Prova disso é que o Banco Central continua a fazer seus leilões diários de compra da moeda."
Mas os efeitos da crise na Europa no Brasil podem ser mais fortes caso o problema continue sem solução. "Eu diria que se em um, dois meses, nada for resolvido, o impacto será maior", avalia o economista-chefe da corretora Ágora, Álvaro Bandeira.
Caso a crise seja prolongada, uma das conseqüências diretas seria nas exportações, que tendem a diminuir já que a Europa é um parceiro relevante nas trocas internacionais do Brasil. Outro efeito negativo na balança comercial é a queda do preço das matérias-primas (commodities), principal produto exportado no País.
Por enquanto, a balança comercial segue positiva, apesar de ter números mais fracos quando comparados a 2009. Em abril, houve superávit de US$ 1,283 bilhão, fechando o primeiro quadrimestre do ano com um superávit de US$ 2,175 bilhões. No ano, até o mês de abril, o saldo é 67,4% menor que o registrado em igual período de 2009, quando a balança era positiva em US$ 6,681 bilhões. "Alem disso, se a crise se agravar muito, o fluxo de capitais terá impacto e causará danos ainda maiores às transações correntes", diz o economista-chefe da corretora Ativa, Arthur Carvalho Filho.
No campo financeiro, as empresas também podem sofrer dificuldades na capitação de recursos no mercado internacional. "Algumas empresas já têm adiado os planos", diz Velho. O Banco Cruzeiro do Sul foi uma das companhias. A instituição anunciou a suspensão dos bônus no exterior, com prazo de 10 anos.
Empresas que têm vendas voltadas ao mercado interno têm menor probabilidade de sofrerem uma queda maior na demanda de produtos. Já os setores de alimentação, celulose e bens de capital, por exemplo, tornam-se, neste momento, mais arriscados. "Os alimentos ainda menos porque a demanda é inelástica, não cai tanto, mas outros setores podem ter recuos maiores", diz Carvalho Filho.
A Embraer, por exemplo, já sofre as primeiras quedas. A crise global colocou no mercado milhares de aviões usados, afetando o desempenho das fabricantes, inclusive a brasileira. No mercado de jatos executivos, por exemplo, as vendas em 2008 somaram US$ 22 bilhões. Em 2009, o volume caiu para US$ 17 bilhões e para 2010 a expectativa é de recuo para US$ 14 bilhões.
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