12:18


15 de Abril de 2010

 

Patrocinado por




Você está em Economia
Início do conteúdo

Psicóloga analisa reação de investidores sobre o mercado financeiro

Primeira pscanalista brasileira especializada em psicologia financeira explica os riscos do home broker

14 de março de 2010 | 19h 25
Roberta Scrivano, do Economia & Negócios

SÃO PAULO - Vera Rita de Mello Ferreira, psicanalista há mais de 30 anos, é a primeira brasileira a se especializar em psicologia econômica. Representante da Iarep (sigla em inglês para Associação Internacional da Psicologia Econômica) no Brasil, Vera já escreveu dois livro sobre o assunto: Decisões econômicas, você já parou para pensar? e Psicologia econômica, estudo do comportamento econômico e da tomada de decisão.


Ela conta que conheceu o tema em 1994. "Isso ocorreu quando comecei a fazer a minha tese na USP (Universidade de São Paulo) de mestrado que era sobre o impacto da alta inflação nos meios sociais", conta. "Daí me apaixonei e decidi me especializar".

Quais movimentos econômicos são possíveis de analisar do ponto de vista psicológico?
Os mais diversos. A psicologia econômica investiga tanto os fenômenos micro, ou seja, o indivíduo, o comprar, vender, poupar, endividar, as apostas. Até os fenômenos macro, como a inflação, mudança de moeda, crise, bolha, pânico, comportamento de manada. E, agora, o que está surgindo na nossa agenda está voltado para políticas públicas, esse assunto realmente nos interessa bastante. Pensamos de que modo podemos contribuir para a instauração de políticas públicas.

Por que você decidiu enveredar-se para a psicologia econômica?
Comecei a estudar isso em 1994, quando fui fazer minha tese de mestrado na psicologia social da USP. Eu não sabia que existia psicologia econômica. No Brasil não existia. Eu estava interessada em estudar os fatores emocionais associados à nossa experiência da inflação alta. Isso é uma coisa que me despertou pela minha experiência clínica. Eu via como os diferentes clientes lidavam com o dinheiro na inflação e era de maneiras muito diferentes. Eu pensava como cidadã: como pode tantos planos de governo e nenhum dar certo? É impossível acabar com a inflação alta? Mas daí no meio do caminho eu descobri alguns autores da psicologia econômica. Quando eu terminei a minha dissertação, em 1999, enviei o material para alguns desses autores que eu havia conhecido. E daí eles me responderam e me convidaram para participar da Iarep (associação internacional que representa a psicologia financeira). Enfim, daí em 2001 eu comecei a frequentar os congressos da Iarep. E desde 2004 eu passei a ser a representante oficial a associação no Brasil.

O que há de novo para os psicólogos especializados em finanças comportamentais analisarem?
Hoje há o home broker, que é um programa online muito utilizado para comprar e vender ações.  O mercado financeiro é muito rápido e, no fim das contas, os investidores tomam decisões muito infelizes. As pressões são o tempo, tem que ser muito rápido. O investidor compra essa ideia de que tem que ser muito rápido. Tem uma pressão interna que pode motivar grande parte dos home brokers a operarem com frequência como realmente acontece, que é o fato de nós, em geral, seres humanos, lamentarmos mais perdas de oportunidades do que perda efetiva de dinheiro até. Porque a oportunidade você pode fantasiar o que você quiser. "Nossa eu perdi. Poxa eu não comprei essa ação que subiu. Eu poderia ter ficado milionária", e assim por diante.


Sendo assim, o home broker pode se tornar um vício?
Fica compulsivo, apostando, operando quase sem parar, principalmente aquelas pessoas que já tem essa tendência inerente a elas. Se as pessoas não tem propensão é possível que ela consiga trabalhar com o sistema do home broker de uma maneira mais eficiente. Ou seja, realizando compras seguras, construindo um portfólio pouco a pouco. Mas o sistema, de ficar na frente do computador sozinho, deixa o investidor ‘pilhado’, muito ligado nos movimentos do mercado. É a mesma coisa que jogar, comer ou comprar compulsivamente. E como a pessoa fica na ‘clandestinidade’ do próprio lar, não precisa dar muita explicação. Porque, sei lá, se você sai para ir ao cassino, clandestino, que seja, todos os dias, alguém da família pode achar ruim. Agora, ficar ali na frente do computador é uma coisa assim que passa mais despercebida. A pessoa fica ali só no seu vício.


Siga o @EstadaoEconomia no Twitter