Texto da ata provocou saída de Mesquita
Ex-diretor não gostou das explicações do Copom para manutenção do juro em março
BRASÍLIA E SÃO PAULO - Em meio às tratativas políticas que resultaram na permanência de Henrique Meirelles no Banco Central, o presidente da instituição teve de cuidar de outro foco de tensão na semana passada.
Pessoas próximas a Mario Mesquita, ex-diretor de Política Econômica do BC, afirmam que ele teria decidido deixar o cargo no fim da noite de terça-feira, a poucas horas da publicação do Relatório Trimestral de Inflação, por estar contrariado com explicações dadas pelo Comitê de Política Monetária (Copom) para a manutenção do juro em março.
O então diretor teria anunciado oficialmente sua decisão na mesma noite em que Meirelles participou do jantar com a cúpula do PMDB para decidir o futuro político. O encontro com os políticos, oferecido pelo presidente do partido e da Câmara, Michel Temer, foi decisivo para a opção do presidente do BC de permanecer no cargo que ocupa há mais de sete anos.
Desconforto
Fontes próximas ao ex-diretor ouvidas pela Agência Estado afirmam que o desconforto de Mesquita para permanecer no cargo começou na elaboração da ata da reunião de março do colegiado. Mesquita teria ficado desconfortável durante a elaboração de trechos do documento por uma eventual incongruência dos fatos: o Copom manteve o juro, mas a ata do encontro trouxe diversos argumentos favoráveis ao aumento, chegando a afirmar que houver "consenso" sobre a necessidade de elevação da Selic.
O texto publicado na quinta-feira, 25 de março – seis dias antes da saída de Mesquita –, causou surpresa em parte do mercado financeiro e foi questionado por alguns analistas que avaliaram a ata como "incompatível" com a decisão de manter o juro.
Nos dias seguintes, o desconforto do ex-diretor aumentou durante a elaboração do Relatório de Inflação. O documento tentou esclarecer a questão que provocou polêmica dias antes no mercado financeiro.
Para isso, o texto trouxe à tona a existência de um "cronograma" da "estratégia de saída" da crise que tinha como principal medida o retorno à normalidade das condições monetárias.
Nesse trecho do documento, os diretores do BC reafirmaram a opção pela manutenção do juro e, para isso, argumentaram que as projeções de mercado para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2011 "posicionavam-se, e a rigor ainda se posicionam, abaixo da meta".
Vale lembrar que o BC usa, normalmente, as projeções de referência – feitas pela própria instituição – para suas decisões de política monetária.
Além disso, o colegiado levou em conta o efeito do desarme de medidas adotadas na crise, como a mudança das alíquotas do depósito compulsório e impostos. O Relatório diz, ainda, que a antecipação do aumento do juro de abril para março "envolveria custos consideráveis".
Tantas explicações teriam como objetivo suavizar o discurso de dias antes, da ata do Copom. Isso teria sido entendido por Mesquita como uma forma de enfraquecer sua avaliação do cenário econômico que, a seu ver, requeria a elevação da taxa Selic em 0,5 ponto porcentual já em março.
"Um diretor que fez um excelente trabalho frente à diretoria de Política Econômica do BC ser contrariado por seus pares é algo que certamente incomoda", diz uma das fontes próximas a Mesquita ouvidas pela reportagem.
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