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ANÁLISE-Cruzeiro do Sul expõe governança frágil em bancos médios

06 de junho de 2012 | 13h 40
ALUÍSIO ALVES E GUILLERMO PARRA-BERNAL - REUTERS

SÃO PAULO, 6 JUN - A intervenção no Banco Cruzeiro do Sul voltou a expor a governança nos bancos médios no Brasil, setor no qual a confiança do mercado já vinha fragilizada nos últimos anos com os episódios dos bancos Panamericano e Morada.

Segundo especialistas do setor, mesmo com mecanismos mais eficazes de controle, a "grave violação de normas" detectada pelo Banco Central, que o levou na segunda-feira a decretar intervenção no Cruzeiro do Sul por 180 dias, foi o epílogo de uma história de desconfiança que só veio aumentando nos últimos meses.

Foi a terceira intervenção regulatória em bancos médios desde 2010, ano em que uma fraude contábil de 4,3 bilhões de reais no Panamericano o levou a ser comprado pelo BTG Pactual. Em abril de 2011, foi a vez de o Banco Morada sofrer intervenção do BC.

Antes de colocarem o Cruzeiro do Sul à beira do rating de default na terça-feira, as agências de classificação Moody's e Standard & Poor's já haviam cortado a nota do banco médio especializado em crédito consignado nos últimos meses, a primeira delas duas vezes.

Isso após o banco ter criado, em novembro, um fundo de direitos creditórios (FIDC), administrado pelo Bradesco, mas para receber créditos de outro fundo com suas próprias cotas. O Cruzeiro do Sul negou na época que a estrutura tivesse sido formatada pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), o mesmo órgão que agora assumiu a administração do banco no Regime Especial de Administração Temporária (Raet).

Para especialistas, a distância entre desconfiar de algo errado nos bancos e comprová-lo reflete em parte a própria regulação, que dificulta o trabalho de auditores, mas ao mesmo tempo não é capaz de coibir a "criatividade bancária".

"O mercado bancário tem um defeito de origem", afirmou na segunda-feira o diretor-executivo do FGC, Antonio Carlos Bueno.

No caso do Cruzeiro do Sul, essa criatividade implicou na não comprovação de ativos e que resultou num rombo inicialmente estimado em cerca de 1,3 bilhão de reais no patrimônio do banco.

A instituição tinha a KPMG como auditora independente até maio, quando passou a usar os serviços da Ernst & Young. O FGC contratou a PricewaterhouseCoopers para ajudá-lo a descobrir o que de fato aconteceu no balanço do Cruzeiro do Sul.

Para Bueno, o caso só foi percebido pelo BC após este ter aperfeiçoado alguns mecanismos de controle, que se sucedeu a apuração de fraudes nos últimos anos.

"É dificílimo detectar", disse o economista João Augusto Frota Salles, da consultoria RiskBank . "Não tinha nada no balanço do Cruzeiro do Sul que apontasse um problema grave."

Desde o anúncio de segunda-feira, BC e FGC vêm se revezando na tentativa de acalmar o mercado, afirmando que o caso do Cruzeiro do Sul é isolado, enquanto investidores seguiam vendendo ações de bancos médios na Bovespa.

Na terça-feira, BicBanco caiu 6,26 por cento, ABC Brasil perdeu 3,92 por cento, Banco Indusval teve baixa de 2,5 por cento.

"Acreditamos que a queda das ações deve ser vista como uma reação exagerada do mercado, num contexto em que o BC esclareceu que não há risco de contágio", escreveram analistas do Barclays, em relatório.

ELDORADO DO CRÉDITO

Cruzeiro do Sul, Panamericano e Morada têm em comum o foco em financiamento ao consumo, ícone do ciclo de expansão baseada em aumento do crédito, que fez o estoque de crédito do país crescer a taxas superiores a 20 por cento nos últimos anos.

Valendo-se de um ambiente com dólar barato e alta liquidez internacional, vários bancos médios brasileiros tomaram recursos no exterior para lastrear carteiras de financiamento ao consumo, como consignado e compra de veículos, o que frequentemente cria situações de descasamento de prazos, o chamado "mismatch".

Esse movimento foi acelerado desde o final de 2008, por orientação do governo, preocupado em elevar o consumo doméstico e assim amenizar os efeitos da crise internacional.

Agora, especialistas avaliam que esse modelo dá sinais de fadiga, à medida que o comprometimento da renda das famílias com pagamento de dívidas e o nível de inadimplência atinge as máximas em quase três anos, com a relação crédito/PIB tendo quase dobrado nos últimos nove anos, para perto de 50 por cento.

"Há uma sensação de que talvez o modelo de crescimento baseado em baixas taxas de investimento e de consumo elevado está cansado", disse o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco durante evento recente da Reuters.



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