A armadilha do estrangeiro

Ao manter dinheiro no Brasil, investidor impede uma maior desvalorização do real

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

14 Junho 2017 | 05h00

Os gestores de um número significativo de grandes fundos de investimentos estrangeiros encontram-se presos numa armadilha que lhes impede de abandonar as aplicações em países em grave crise política e fiscal, como o Brasil. São gestores obrigados a seguirem índices de referências (chamados de “benchmark”) para mercados emergentes, os quais estabelecem porcentuais para alocação de recursos em cada país que compõe esses índices.

O Brasil, por exemplo, tem um peso ao redor de 10% no índice de títulos públicos em moeda local (GBI-EM, na sigla em inglês), calculado pelo banco JP Morgan. Mas como os papéis brasileiros estão rendendo por volta de 11%, o peso do Brasil nesse índice chega a quase 20% em termos de taxa de retorno. Se fossem zerar a alocação dos títulos brasileiros, onde esses gestores conseguiriam repor a rentabilidade das suas carteiras, quando os papéis de outros países, como Chile ou República Checa, rendem apenas de 2% ou 3%?

No ambiente global de elevada liquidez e de uma relativa previsibilidade na condução de política monetária nos Estados Unidos e na Europa, além de estabilidade do crescimento da economia chinesa, esses gestores não conseguem convencer seus clientes a ignorar a alocação recomendada pelos “benchmarks” e punir os países emergentes que deixaram de fazer o dever de casa para corrigir desequilíbrios macroeconômicos.

Em 2015, por exemplo, quando o ambiente global era adverso aos mercados emergentes, os investidores estrangeiros colocaram pressão sobre o Brasil, já envolto em severa recessão e turbulência no governo Dilma Rousseff, levando a uma desvalorização mais forte do real frente ao dólar e uma queda acentuada na bolsa de valores. Neste ano, como o ambiente externo é favorável aos emergentes, os clientes dos fundos estrangeiros não querem sacar o dinheiro do Brasil, apesar de o presidente Michel Temer estar envolvido em grave crise política, corroendo o capital político necessário para aprovar reformas. E sem elas, a situação fiscal brasileira, que já é extremamente delicada, deve se agravar rapidamente.

O lado positivo dessa armadilha é que, ao manter o dinheiro aplicado no Brasil, esses investidores impedem uma desvalorização mais forte do real, mesmo no meio de uma crise política vulnerável a novos escândalos. Sem uma debandada do capital estrangeiro, a possibilidade de o dólar disparar para R$ 4,00 é bem menor. No auge da atual crise, o dólar bateu R$ 3,3868. E um dólar bem comportado significa que o Banco Central poderá seguir cortando os juros, podendo, inclusive, reduzir a Selic para bem abaixo do que seria a taxa neutra até 2018.

Mesmo após o BC ter sinalizado no comunicado da última reunião do Copom que poderá reduzir o ritmo de corte da Selic, a maioria dos analistas manteve aposta para uma taxa em 8,50% ao final do atual ciclo de redução de juros. Alguns analistas chegam até a estimar uma Selic a 8,0%.

Muitos analistas dizem que, apesar de o Copom ter citado as incertezas do cenário político, as quais já estão afetando o andamento das reformas, em particular a da Previdência, a situação da economia brasileira é tão frágil que apenas cortes mais profundos nos juros poderão evitar que o Brasil volte a mergulhar numa recessão.

Os analistas mais cautelosos alertam que, sem a reforma da Previdência, as expectativas inflacionárias voltarão a piorar, forçando o BC a subir os juros novamente. Mas poderá isso acontecer até 2018, ano de eleições presidenciais?

Se o dólar permanecer comportado, dificilmente um aperto acontece no ano que vem. Isso porque, com o dólar ao redor de R$ 3,30, quebra-se o elo entre a situação fiscal e as expectativas inflacionárias. Em 2015, com o governo Dilma em crise, a preocupação com a solvência fiscal e a trajetória da dívida fez o dólar disparar, levando a uma deterioração das expectativas inflacionárias.

Hoje, com parcela significativa do investidor estrangeiro presa à armadilha do “benchmark”, o fluxo de capital externo mantém o dólar relativamente comportado, tornando menos provável um descontrole da inflação e expectativas inflacionárias. Só um choque político, como a perspectiva de vitória do ex-presidente Lula na eleição presidencial de 2018, livraria os gestores das amarras do “benchmark”, admitiu um deles. Nesse ambiente, o BC dificilmente deixaria de elevar os juros.

* COLUNISTA DO BROADCAST

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