A conta já chegou

BC ratificou queda menor de juros porque a reforma da Previdência saiu do mapa

Fernando Dantas*, O Estado de S. Paulo

02 Junho 2017 | 06h01

O presidente Michel Temer e seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, comemoraram como vitória em final de campeonato o resultado positivo do PIB do primeiro trimestre, que representaria o fim da maior recessão em um século.

Na verdade, porém, há dúvidas até se o número do PIB do primeiro trimestre justifica uma comemoração de gol no início de jogo. Excetuando-se o excepcional desempenho da agropecuária, um setor que equivale a apenas 5,5% do PIB, não houve quase nada de muito bom no desempenho da economia brasileira de janeiro a março. Além disso, diversos analistas têm projeções negativas para o segundo trimestre. As previsões para o ano não são nada animadoras, e surgem dúvidas sobre se 2018 será muito melhor.

É bom lembrar que o primeiro trimestre, cujo PIB foi divulgado ontem, terminou bem antes do choque na economia provocado pelo escândalo político da gravação da conversa de Temer com Joesley Batista, da JBS. Com a revelação, o cenário político mudou inteiramente da noite para o dia, e agora as chances de aprovação da reforma da Previdência são consideradas pequenas.

Isso significa que o plano que o Brasil tinha para resolver no médio e longo prazo o problema das contas públicas que não fecham e da dívida que dispara foram abandonados até segunda ordem. O efeito é igual ao que atinge qualquer devedor cujo crédito se torna mais duvidoso: os juros sobem. Foi isso que ocorreu com a chamada “curva dos juros”, que combina as taxas para diferentes prazos e antecipa a trajetória da Selic, o juro básico de curtíssimo prazo fixado pelo Banco Central (BC).

Com o sumiço da reforma da Previdência do mapa, a curva de juros subiu. Por um lado, esse fato indica que o mercado antecipa agora que a Selic, que o BC vem baixando para reanimar a economia e porque a inflação caiu, vai cair mais devagar e menos. Por outro lado, a elevação da curva significa que já neste momento empresas e cidadãos brasileiros estão pagando mais juros para tomar emprestado, especialmente em prazos médios e longos. Agora mesmo, portanto, a perspectiva de não realização da reforma da Previdência está contribuindo para frear a economia, desempregar as pessoas e aumentar a pobreza.

Anteontem foi a vez de o Banco Central ratificar o que o mercado já projetava. De fato, as incertezas muito ampliadas sobre as reformas vão fazer com que o juro caia mais devagar e, provavelmente, caia menos. Essa confirmação se deu no âmbito da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) nessa quarta-feira de cortar em um ponto porcentual (pp) a Selic, para 10,25%.

O corte foi dentro do esperado. Se não houvesse o escândalo da gravação, talvez pudesse ter sido de 1,25 pp, mas a diferença é pequena. O sinal amarelo veio no comunicado da decisão, em que o BC avisou que provavelmente vai reduzir o ritmo do corte para 0,75 pp na próxima reunião do Copom em julho, e em que ressaltou como a possibilidade de que não haja reformas aumenta o nível de juro ao qual se vai chegar ao fim do atual ciclo de baixa da Selic.

O BC evidentemente não fez isso porque seja cruel e queira beneficiar banqueiros, como dita a fantasia de alguns. Assim como ocorre com pessoas e empresas que são maus devedores, também os governos pagam mais juros quando piora a qualidade do seu crédito. Como o setor público brasileiro é o grande tomador de empréstimo da economia, ele puxa para cima os juros pagos por todo mundo. Se for contra essa maré, o BC só vai colher inflação.

Sem reforma da Previdência, o Estado brasileiro está estruturalmente quebrado, embora ainda tenha condição por mais algum tempo de rolar sua dívida sem provocar inflação e ir tocando com a barriga. O custo, porém, é manter o Brasil entre os campeões mundiais do juro alto, atrapalhando a retomada no presente e deprimindo o ritmo de crescimento no futuro.

*COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

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