A inflação perde força

A inflação perde força

Agora já há razões para acreditar em que a política fiscal começa a fazer a sua parte

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2016 | 21h00

O mergulho da inflação em junho não deixa de ser boa notícia. No entanto, melhor ainda será se for confirmada a impressão do momento de que os agentes econômicos encarregados de fazer preços já começaram a acreditar em que a inflação retomou a trajetória de convergência para a meta, ou para alguma coisa ao redor dos 4,5% em 2017.

Há quase um ano não se via inflação mensal tão baixa, de 0,35%, como a registrada em junho. Em maio, havia sido de 0,78%. Medido em 12 meses, a evolução do IPCA caiu para 8,84% (fora de 9,32% em maio e de 10,67 em dezembro).

Desta vez a inflação também veio menos espalhada. O índice de difusão, que mostra o número de itens da cesta de consumo com alta de preços, ficou nos 56,2%. No mês passado, foi de 63,3%.

É verdade que, em grande parte, essa perda de velocidade no avanço dos preços está sendo produzida pela recessão, que comandou forte queda do consumo, processo que faz parte do ajuste da economia, depois dos desmandos da administração Dilma.

Agora já há razões para acreditar em que a política fiscal começa a fazer a sua parte. Se for isso mesmo, o Banco Central poderá  preparar a queda dos juros básicos, a Selic, hoje nas alturas dos 14,25% ao ano.

Ao longo do governo Dilma, além da administração das contas públicas ter sido desastrosa, as autoridades tanto do Ministério da Fazenda quanto do Banco Central exerciam uma comunicação baseada na embromação. O Tesouro passou anos maquiando as contas e operando à base de pedaladas. E o Banco Central assoviava a musiquinha insistente de que o balanço do setor público tendia a ser neutro para a evolução da inflação. Não consta que alguém tenha acreditado.

Agora, além de maior afinação entre a Fazenda e o Banco Central no desempenho da política econômica, nota-se mais sinceridade e mais transparência na condução das contas públicas. Se esse procedimento se mantiver, o governo ganha em credibilidade. E a partir do momento em que o mercado acreditar em que a inflação está mesmo convergindo para a meta, mais eficácia terá a política de juros. Ou seja, os empresários que insistirem em remarcar seus preços muito para cima tendem a ser punidos com encalhe de mercadorias ou com redução de procura na prestação de seus serviços.

Ninguém mais lembra a tese fortemente repetida entre analistas no fim de 2015 de que a inflação está sob dominância fiscal, situação em que a política de juros perde eficácia.

Isso não significa que, um mês após o outro, a inflação aponte tendência firme de baixa. Novos repiques poderão sobrevir, principalmente neste mês de julho, quando se esperam impactos mais altos nos preços dos alimentos em consequência da quebra de produção produzida por problemas climáticos.

O problema de fundo é o de que grandes incertezas continuam aí, em condições de mudar tudo. A mais importante delas cerca o desfecho do processo de impeachment da presidente Dilma.

CONFIRA:

No gráfico, a evolução dos preços livres e dos administrados (por contrato ou pelo governo).

Agora a favor

Desde o fim de 2014, quando começou a correção de preços de  tarifas que o governo Dilma havia represado, os preços administrados vinham contribuindo para aceleração da inflação. Em junho aconteceu o contrário. Os preços administrados tiveram alta de 0,24% (mais baixa do que a inflação, de 0,35%), depois de 1,4% registrado no mês anterior. Ou seja, os preços administrados começam a trabalhar pela redução da inflação.

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